Comentário, Ficção, Israel

Etgar Keret: um contista vigoroso

42273884Não sou um leitor de contos, o formato não me atrai e, por isso, me atenho na maior das vezes aos clássicos – Tchekhov, Cortázar, os poucos que Gabo escreveu. Mas recentemente emendei alguns livros de contos, de autores como Alice Munro, Raymond Carver, Michael Connelly e Noemi Jaffe.

No pacote, li “De Repente, Uma Batida Na Porta” (Rocco), do israelense Etgar Keret, e fiquei impressionado com o vigor da sua prosa, com as amarras soltas que seu texto apresenta, sem prestar contas a gênero ou autor.

Os contos são curtos, raramente ultrapassam as 10, 12 páginas, o que provoca uma concisão poderosa, com narrativas que se resolvem sem necessariamente encontrar um fim para o leitor – aqui, um parentesco com Carver.

Suas histórias passeiam pelo fantástico, o nonsense, o inusitado, o acaso, sempre tratadas com bom humor e um domínio da técnica impressionante.

Como no conto que batiza o livro. “‘Conte-me uma história, ordena o barbudo sentado no sofá em minha sala.” Assim começa e nos leva a um desenvolvimento tenso, paralelo ao absurdo, quando lemos que cada vez mais gente entra na sala do narrador para ouvir a história que não se emenda. Quando termina, temos certeza de que ele está falando da relação Israel/Palestina, mesmo sem mencioná-la, sem sequer dar pistas. Poderia ser sobre a solidão, o medo, o terror. Ou sobre o ato de escrever, pois o narrador diz que Amós Oz e David Grossman, os pilares da literatura israelense contemporânea, não passariam por esse problema.

“A pessoa decide escrever uma história sobra a situação. Não sobre a situação política e tampouco a situação social. Decide escrever uma história sobre a situação humana, a condição humana do jeito que ele a está experimentando neste instante. Mas não surge história, porque a condição humana do jeito que ele a está vivenciando agora pelo visto não vale uma história.”

Keret brinca com a diversidade de Israel em “Peixe Dourado”, história de um jovem que teve a ideia de um documentário em que entrevista pessoas comuns sobre seus desejos. Entre desejos comuns, como saúde, dinheiro e coisas materiais, ele conta ter encontrado “momentos tocantes”.

“Uma mulher estéril pediu um filho. Um sobrevivente do Holocausto com um número tatuado no braço pediu que todos os nazistas ainda vivos pagassem pelos seus crimes. Um homossexual idoso pediu para ser mulher.”

O desfecho, diante de um imigrante russo, é brutal e tocante ao mesmo tempo.

A diversidade ganha musculatura quando se junta à geopolítica em “Escolha Uma Cor”, conto em que pessoas de várias cores (raças?) enfrentam preconceitos e tentam sobreviver diante desse cenário. Sem nomes, só cores.

“‘O que é que você acha?’, o Deus prateado, frustrado, perguntou ao padre amarelo, ‘Acha que criei vocês assim pois foi o que escolhi? Que sou uma espécie de pervertido ou sádico que curte todo este sofrimento? Criei vocês assim porque isto é o que eu sei. É o melhor que posso fazer.”

Keret vai aos desencontros amorosos e à insegurança que leva à conformidade em “Mancha Roxa”, história de uma mulher que, após sofrer um acidente, reencontra um homem com quem teve um relacionamento de uma noite e que sumiu de vista. Casado, volta para pedir perdão pela fuga.

“Se eu tivesse telefonado, teria voltado. E se tivesse voltado, teria me apaixonado por você. Fiquei com medo.”

O conto mais tocante é “Escrita Criativa”, história de uma mulher que fez um aborto e entra em depressão. Para ajudá-la, sua mãe sugere que ela participe de um curso de escrita criativa. Então, por meio das histórias que ela escreve no curso, mergulhamos no profundo de Maya, em como ela está reagindo, até que o próprio marido resolve também estudar. É quando acontece o choque inevitável do marido com sua realidade. Simples, o conto se apoia nas histórias escritas pelos personagens, cujas vidas estão estraçalhadas. É de uma delicadeza impressionante.

keretcortadoKeret, nestes 37 contos, consegue criar uma unidade rara em um livro do gênero. Apesar das diferenças temáticas, em que o absurdo é vizinho da narrativa tradicional, o que salta ao leitor, mais do que a criatividade do escritor, é a forma como ele apresenta e conclui suas histórias. De forma concisa, com uma precisão cirúrgica, como se ele não pudesse falhar a cada virar de página.

O resultado é impactante.

 

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