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Dos arquivos: Um relato afetuoso de Patti Smith

Escrevi este texto no início de 2011. Por algum motivo, achei que este momento valeria republicá-lo.

*****

22340933Poderia ser um amontoado de memórias, casos e escândalos que a Nova York da virada dos 60 para o 70 vivenciara por uma de suas protagonistas. Mas Patti Smith passou longe da literatura fácil em “Só Garotos” (Companhia das Letras), livro em que relata sua chegada a NY e a sua relação com o fotógrafo Robert Mappelthorpe.

O livro se releva um sincero depoimento sobre os afetos que a tomaram naquela época, recheada de mudanças culturais e de comportamento. Patti Smith, autora do clássico “Horses”, espécie de porta de abertura para o punk nova-iorquino, escreveu esta (auto)biografia com um talento insuspeito.

Ela busca a lembrança de sua cidade natal e da convivência com a família para pavimentar o caminho que a levaria para Nova York, sem grana, sem referências, apenas com a vontade de se tornar escritora. Lembra, em muitas passagens do primeiro terço do livro, o relato jornalístico que George Orwell escreveu para contar como viveu na miséria por alguns anos, em “Na Pior em Paris e Londres” (Companhia das Letras).

Ao contar o seu encontro com Mappelthorpe, na época um andarilho como ela, seu tom muda, torna-se mais afetuoso, sem, entretanto, escapar para a parcialidade. Percebe-se o carinho com que ela recuperou a lembrança e o cuidado que teve ao transportar para o papel um momento decisivo de sua vida. Mappelthorpe é retratado com suas dúvidas, suas inconstâncias e desacertos.

Ela conta como foi chegar no mítico hotel Chelsea, o local onde artistas, desandados e todo o tipo de doidos se encontravam e hospedavam – o dono do hotel aceitava obras que estavam sendo produzidas como pagamento das diárias -, sem apelar para escândalos que certamente existiram por lá. Dá detalhes essenciais para contextualizar, mas aponta o cursor para sua história com Mappelthorpe, antes de ele se tornar um fotógrafo.

Patti Smith mantém uma distância rara de se encontrar nesse tipo de livro, esse um dos méritos do volume. É um livro de memórias de uma heroína punk, de alguém que viveu o auge de contracultura, que conviveu com Andy Warhol, Velvet Underground e outros ícones daquela época. Mas além de ser o livro de alguém que viveu aquele período, “Só Garotos” também se transforma em uma bela história de amor.

“Só Garotos” é um relato de uma encontro sincero, afetivo. Patti Smith fez desse quadro um grande livro.

*****

“Joguei o paletó no ombro, tipo Frank Sinatra. Eu era cheia de referências. Ele era cheio de luzes e sombras.

‘Voltou’, ele disse.

Fez mais algumas fotos.

‘Consegui.’

‘Como você sabe?’

‘Eu simplesmente sei.’

Ele fez doze fotos naquele dia.

Em poucos dias me mostrou um contato. ‘Essa aqui tem mágica’, ele disse.

Até hoje quando olho para essa foto, nunca me vejo. Vejo nós dois.”

(Sobre a foto da capa de “Horses”)

A capa do disco "Horses", lançado em 1975
A capa do disco “Horses”, lançado em 1975

“Peguei minha bandeja, mas o vido não abriu. Tentei de novo sem sorte e então reparei que o preço havia subido para 65 centavos. Estava desapontada, para dizer o mínimo, quando ouvi uma voz dizer: ‘Posso ajudar?’

Virei-me e ali estava Allen Ginsberg. Nunca havíamos nos encontrado antes, ma sem dúvida era um dos grandes poetas e ativistas do país. Olhei para aquele intensos olhos castanhos envolvidos por uma barba escura e cacheada e simplesmente assenti. Allen acrescentou os dez centavos que faltavam e ainda me pagou um café. Sem palavras, acompanhei-o até a mesa, e então ataquei o sanduíche.

Allen se apresentou. Ele falava sobre Walt Whitman e comentei que havia sido criada perto de Camden, onde Whitman fora enterrado, quando ele se inclinou para mim e olhou com mais atenção. ‘Você é menina?’, perguntou.

‘Sou’, falei. ‘Algum problema?’

Ele só deu risada. ‘Desculpe. Achei que você fosse um menino bonito.’

Então entendi tudo.

‘Bem, isso quer dizer que devo devolver meu sanduíche?’

‘Não, aproveite. O engano foi meu.’

Ele me contou que estava escrevendo uma longo elegia para Jack Kerouac, que havia morrido recentemente. ‘Três dias depois do aniversário de Rimbaud’, falei. Apertei a mão dele e nos despedimos.

Algum tempo depois, Allen se tornou meu bom amigo e professor. Vez por outra lembramos de como foi nosso primeiro encontro, e ele uma vez me perguntou como eu descreveria quando nos conhecemos. ‘Diria que você me deu de comer quando eu estava com fome’, respondi. E de fato foi assim.

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