Comentário, Ficção, Portugal

As névoas da memória

Quando li que Raduan Nassar se inspirou em “A Paixão”, do português Almeida Faria, para escrever “Lavoura Arcaica”, me vi obrigado a ler o livro lançado originalmente em 1965.

“A Paixão” faz parte da tetralogia lusitana – os outros livros, inéditos no Brasil, são “Cortes”, “Lusitânia” e “Cavaleiro Andante”. Depois de anos fora de catálogo, o livro saiu em nova edição pela Cosac – o livro foi lançado no Brasil na década de 80 pela Rocco.

A edição da Assírio & Alvim
A edição da Assírio & Alvim

Nem em uma nem em outra. Li numa versão digital da editora portuguesa Assírio & Alvim, quando ainda não tinha sido noticiada a nova edição brasileira. Acredito que a Cosac tenha respeitado o texto original e mantido o português de Portugal – para que serviu o acordo ortográfico? -, então, acredito não haja muita diferença entre as duas edições.

Fico tentado, numa simplificação besta e sem se preocupar com a linha do tempo, em dizer que “A Paixão” é o encontro de “O Som e a Fúria”, de William Faulkner, e “Lavoura Arcaica”. É uma redução que ajuda a entender a complexidade da obra de Faria e como ela se apresenta ao leitor que experimenta entrar no seu universo.

Já tinha lido um livro de Faria antes de chegar a essa “Paixão”. “O Murmúrio do Mundo” (Tinta-da-China) é um relato de uma viagem à Índia, em tons memorialísticos. Essa vertente poética já me alertou para o que poderia encontrar no romance.

A edição da Cosac
A edição da Cosac

O cenário do romance é uma propriedade familiar rural no Alentejo, sul de Portugal. Tal qual – e lá vem outra referência – “Ulysses”, de James Joyce, “A Paixão” acontece em um dia, uma Sexta-Feira Santa dos anos 60, quando Portugal vivia sob a ditadura de Salazar. Faria dá voz a cada membro da família, numa sequência de fluxos de consciência que reforçam o tom poético do autor – muitos chamam o livro de romance-poema.

Essa polifonia é dividida em três partes – Manhã, Tarde e Noite. Num dia em que nada parece acontecer, ouvimos as vozes do pai, dos filhos e dos empregados da fazenda. E então nos deparamos com a angústia de cada uma dessas narrativas, a solidão e uma certa desesperança. Sob todos os personagens, reina a opressão paterna.

Ao longo do dia, passamos desse cenário familiar e seus conflitos para embates que simulam a situação política de Portugal. A ditadura sombreia os personagens, até que rupturas possam acontecer.

Faria investiga então a nostalgia, tão própria dos portugueses, numa época em que a liberdade só ocorria em níveis abstratos. Memória, afeto, traumas, mais do que um retrato de um Portugal castigado pela ditadura, Almeida Faria capta a alma. Cruamente, poeticamente.

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*****

“Não dormem aqueles a quem devo o que sou; meu avô arranjou a fortuna que tenho e que não aumentei, pelo contrário; devia pôr de parte tudo que não dá lucro, foi o que ele me disse pouco antes de morrer, e não tive tempo nem força para isso; velho, tinhas razão; eu te procuro nos indecisos edifícios de névoa da memória e de ti o que encontro é só silêncio, um silêncio que nem respira e que de quando em vez por entre o árduo fôlego consente umas palavras antigas e serenas, de quem usou a vida a saber a verdade, talvez tão-só a sombra da verdade, mas uma sombra verdadeira, não ilusiória como a de quase todos nós, teus descendentes; escuto tua voz gaga entrecortada de asma e a tua saudade dum mundo que morreu acende mal e brevemente, vem-me a tua ilusão de procurar um firme estádio neste mundo quando tudo mudou e vai ficar para quem?”

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