Comentário, Entrevistas, Estados Unidos

O outro lado da fama, por Neil Strauss

Ele já escreveu sobre técnicas de sedução e métodos para se proteger do fim do mundo. Trabalhou para as principais publicações norte-americanas, como “The New York Times” e “Rolling Stone”. Escreveu biografias do Mötley Crüe Dave Navarro e Marilyn Manson e da atriz pornô Jenna Jameson. Entrevistou todo mundo que importa no mundo da música – e quem não importa também. Ouviu muita coisa, parte dela publicada em suas reportagens.

Capa Fama e Loucura V2 RB.aiAgora, “Fama e Loucura” (Best Seller) chega ao Brasil para mostrar o que Neil Strauss não contou. Lançado com o título de “Everyone Loves You When Your’re Dead” (Todo mundo o ama quando você está morto), o livro reúne trechos de entrevistas que nunca foram publicados, aquelas conversas que acontecem antes e depois da pauta do repórter – em alguns casos, no meio.

O subtítulo do livro de Strauss completa a ideia: Entrevistas Censuradas com os Maiores Artistas do Planeta. O que temos então são gravações que foram cortadas por editores, copidesques e artistas – e Strauss conta como tudo aconteceu e ridiculariza seus antigos chefes.

O título remete ao clássico de Gay Talese, “Fama e Anomimato” (Companhia das Letras), reunião de reportagens do jornalista, um dos fundadores do chamado novo jornalismo.

Strauss é comparado muitas vezes com Hunter S. Thompson, ambos adeptos do jornalismo gonzo, em que o repórter muitas vezes participa da notícia e escreve com um olhar subjetivo, sem meias palavras.

O livro é muitíssimo bem editado pelo próprio Strauss. As 228 entrevistas foram divididas em dez atos, como “O Dia de Levar seu Traficante de Drogas para o Trabalho”, “O Clichê do Rock and Roll que se Foda” e “Discos Voadores, Escravos Zumbis e Autópsias no Terceiro Palco” – títulos que fazem alguma referência a declarações dos entrevistados.

Strauss mistura os personagens de forma a criar uma lógica temática, mas sem ser rigoroso. Além disso, algumas entrevistas são quebradas em várias cenas, intercaladas com outras, o que cria uma fluência interessante – claro que o trabalho de edição foi essencial para o resultado. As conversas são curtas, provocadas por perguntas que deixam espaço para entrevistado divagar e revelar.

Nada de fofocas ou banalidades. O que lemos são dilemas profissionais, pessoais, questões relacionadas a drogas, sexo, dinheiro, violência. Orgulho, arrogância, porralouquismo, um pouco de ganância, ansiedade e dúvidas são os sentimentos e reações mais comuns a emergirem das conversas.

Então, podemos ler os Strokes dando piti numa café, deixando Strauss na mão, e na sequência se deparar com Kenny G. e seu perfeccionismo, Snoop Dogg comprando fraldas com o jornalista e Madonna sugerindo um livro de autoajuda. Perry Farrell, criador do Lollapalooza, conta que gostaria de ter uma equipe de médicos realizando autópsias num dos palcos do festival. Encaramos a crise existencial do Backstreet Boys. Lemos como Strauss entra na banheira com Marilyn Manson e na cama com Jewel.

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O jornalista Neil Strauss

O jornalista tem o mérito de saber conduzir uma entrevista e deixar seu entrevistado à vontade. As revelações surgem exatamente no momento em que o assunto principal já foi deixado de lado – o lançamento de um disco, uma turnê, por exemplo. A lista de artistas que estão no livro dão a dose exata da importância do lançamento: Paul McCartney, David Bowie, The Who, Led Zeppelin, Pearl Jam, Jay Leno, Cher, Tom Cruise, Eric Clapton, Lady Gaga, Mike Tyson, e por aí vai.

A arte da entrevista surge quando Strauss encontra Chuck Berry, reconhecidamente averso a entrevistas. Num café, o jornalista recebe dicas do garçom de assuntos a serem evitados. Senta-se e, cheio de tato, inicia a conversa. O que era para ter durado 15 minutos vai a três horas. Strauss não apenas dobrou Berry, como conseguiu um documento raro da vida do artista.

Strauss também incluiu no livro entrevistas com mafiosos napolitanos, copidesques do “NYT”, groupies e roadies.

Os capítulos são ilustrados com anúncios fictícios, que brincam com a personalidade de alguns artistas. Por exemplo, o anúncio de Bo Diddley que oferece certificados seguros de invenção – ele que reclamou até o fim de sua vida de nunca receber o crédito pela batida na guitarra que inventou. No final, um índice visual com todas os desenhos, assinadas pela ilustradora Siân Pattenden.

Foto: Reprodução de Siân Pattenden
Arte de David Bowie para o livro | Foto: Reprodução de Siân Pattenden

O livro tem dois pontos falhos, que não comprometem, mas ajudariam o leitor. Um é a falta de um índice remissivo. O outro é a falta de indicação de quando a entrevista foi feita – em alguns casos, é possível reconhecer o ano, por conta de um disco ou filme lançado.

Não se assuste pelas mais de 520 páginas. No final, além de ficarmos sabendo mais quem são os artistas, sobra a vontade de querer ler mais. Esse livro se torna então um vício.

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