Comentário, Ficção, República Tcheca

No novo Kundera, beijos castos provocam nostalgia

13750_ggNão sou um leitor de Milan Kundera. Claro, passei por “A Insustentável Leveza do Ser” (Companhia das Letras), mas só depois de ter assistido ao belo filme de Philip Kaufman.

Mas fui tomado pela frisson que o novo livro do escritor tcheco causou. “A Festa da Insignificância” foi lançado em 2013, 11 anos depois do seu último romance, “A Ignorância” (ambos Companhia das Letras), e chegou em português no meio deste ano.

O livro recebeu tratamento de luxo. Os primeiros exemplares receberam capa dura e a tiragem chegou a 10 mil cópias, reverência dada a poucos autores.

O bom humor é a palavra-chave para “A Festa da Insignificância”. Talvez, por isso, Kundera não se importe de eu comparar a trama do romance com o mote de Jerry Seinfeld: é um livro sobre nada.

Mas também é um livro sobre nostalgia. E umbigos – a abertura se torna clássica desde já, ao lançar a pergunta: “Como definir o erotismo de um homem (ou de uma época) que vê a sedução feminina concentrada no meio do corpo, no umbigo?”. Sim, o sexo margeia todo o romance, entre desejos edipianos ou luxuriosos. Um beijo casto é o suficiente para despertar o tremor do fim ou da lembrança.

O livro é para ser percorrido de uma vez só. Suas 134 páginas não impõem obstáculo, mas deixam um gosto na boca que vai reverberar nos dias seguintes ao fechar da última página. Os capítulos são curtos, em média, com duas ou três páginas, o que acelera o ritmo.

A história se passa na Paris contemporânea, em que acontecimentos simultâneos colocam quatro amigos no caminho de um bufão mentiroso (D’Ardelo), que vai promover um coquetel e convida parte do grupo. É isso. Tudo vai girar em torno desse coquetel e das relações pessoais, nem sempre em fato, na maior parte das vezes em memória.

Ao contrário da sua obra mais conhecida, esta “Festa da Insignificância” tem que encarar o fim de um sonho, de uma utopia, que Kundera trata de forma satírica. O fim do comunismo e da crise da esquerda provocam um choque de identidade no grupo. Para corroborar esse cenário, Stálin ganha voz em alguns capítulos, em situações que promovem o humor ridículo, com histórias e causos do ditador – “E asseguro-lhes que sob o domínio de uma grande vontade as pessoas acabam acreditando em qualquer coisa – E Stálin ri”.

Kundera recorre a Freud, Kant, Shakespeare, Hegel, Schopenhauer e Chagall, citados ou incorporados à narrativa, como sustentação ao choque de gerações e a uma certa melancolia que Alain, Charles, Ramon e Calibã – os quatro amigos – não sabem tratar. O escritor brinca com a filosofia e o formato ensaio, mas em trechos tão curtos que mais lembram pílulas para a mente.

O livro é delicado e capaz de despertar sensações que ultrapassam questões ideológicas. A nostalgia é um meio para que o leitor reencontre, ao terminar “A Festa da Insignificância”, seu caminho utópico, seja para segui-lo ou encerrá-lo.

*****

“Quando um sujeito brilhante tenta seduzir uma mulher, ela acha que tem que entrar em competição. Também se sente obrigada brilhar. A não se entregar sem resistência. Ao passo que a insignificância a libera. A liberta das precauções (…) Com D’Ardelo, você não está diante de um insignificante, mas de um Narciso. E preste atenção no sentido exato dessa palavra: um Narciso não é um orgulhoso. O orgulhoso despreza os outros. Os subestima. O Narciso os superestima, porque observa nos olhos de cada um sua própria imagem e quer embelezá-la. Cuida, assim, gentilmente de todos os seus espelhos.”

“O tempo corre. Graças a ele, em primeiro lugar estamos vivos, o que quer dizer: acusados e julgados. Depois, morremos e continuamos ainda alguns anos com aqueles que nos conheceram, mas não demora a ocorrer outra mudança: os mortos se tornam velhos mortos, ninguém se lembra mais deles e eles desaparecem no nada; apenas alguns, raríssimos, deixam seus nomes nas memórias, mas, privados de todo testemunho autêntico, de toda lembrança real, transformam-se em marionetes…”

“Então se aproximou da portuguesa. Beijou-a na boca, mas a moça manteve os lábios bem fechados e o beijo deles foi de uma castidade intransigente. Depois ela fugiu correndo.”

“Já vim aqui três vezes. De modo que, na verdade, não venho aqui para ver Chagall, mas para constatar que a cada semana as filas estão maiores, portanto o planeta está cada vez mais populoso. Olhe para eles! Você acha que, de uma hora para outra, começaram a gostar de Chagall? Estão dispostos a ir a qualquer lugar, a fazer qualquer coisa, apenas para matar o tempo com o qual não sabem o que fazer. Não conhecem nada, portanto se deixam conduzir. São soberbamente conduzíveis.”

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2 thoughts on “No novo Kundera, beijos castos provocam nostalgia”

  1. Estou louco para ler esse livro. Assim como você, só li A Insustentável Leveza do Ser, que nem gostei muito. Já o filme é até hoje o meu preferido, o que colocaria sem dúvida no topo da minha lista de grandes afetos artísticos. Thomas, Teresa e Sabina só se materializaram para mim ali, na tela, com Day Lewis, Binoche e Lena Olin dirigidos por Kaufmann. A cena final, do caminhão, me deixa mareado só de pensar nela.

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    1. O livro é tocante em alguns momentos e sarcástico em outros. Soa como uma tese nostálgica. Quanto ao filme, não tenho o mesmo afeto que você, mas é difícil encarar o livro depois de vê-lo na tela.

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