Brasil, Inglaterra, Literatura infantojuvenil, Reportagem

Mas louco é quem me diz

“- Mas eu não quero ir parar no meio de gente maluca – observou Alice.
– Ah, não adianta nada você querer ou não – disse o Gato. – Nós somos todos loucos por aqui. Eu sou louco. Você é louca.
– E como você sabe que eu sou louca? – perguntou Alice.
– Bem, deve ser – disse o Gato – ou então você não teria vindo parar aqui.”

Esse é um trecho de “Alice no País das Maravilhas”, da edição que a Cosac Naify lançou em 2009. Trouxe uma nova tradução do historiador Nicolau Sevcenko, que já havia transposto para o português o título numa edição da Scipione, em 1988.

14225793Sevcenko morreu ontem, aos 61 anos. Dele, li “A Revolta da Vacina” (Cosac) e “Literatura como Missão” (Companhia das Letras) – dois magníficos retratos de época, do Rio e de um Brasil que invadia o século 20.

Conversei com ele para escrever uma matéria sobre “Alice”. Simpático, fizemos contato por email para marcar a entrevista por telefone. Não só deu uma aula de “Alice”, como abriu novas percepções de ler o livro de Lewis Carroll.

Recupero aqui o texto que escrevi para o jornal “O Tempo”, em dezembro de 2009.

*****

2964471A primeira intenção foi entreter a filha de um colega de trabalho, num passeio de barco, com uma história fantástica. Depois, a pedido da garota, converteu aquela narrativa em um livro ilustrado pelo autor para presenteá-la no Natal. Quando percebeu, Lewis Carroll já havia transformado uma simples história de sonhos num arquivo sem fundo de ilusões, delírios e aventuras.

A gênese de “Alice no País das Maravilhas” talvez seja o único momento da vida dessa obra que seja prosaico. Desde 1865, quando o livro foi reescrito pelo autor para ganhar as formas atuais, a aventura da garota, homônima à menina que ouviu a história num passeio de barco em 1862, que cai num buraco e se depara com seres e situações das mais diversas e improváveis ganhou interpretações, edições, comparações que não só garantiram sua longevidade como também sua atualidade.

A nova cartada é a edição dupla que a CosacNaify coloca nas prateleiras. Recupera a tradução do historiador Nicolau Sevcenko feita para a editora Sciopione em 1988 e acrescenta o trabalho do ilustrador Luiz Zerbini. O livro simula as cartas de um baralho, com papel couché, enquanto uma edição especial elimina qualquer texto da capa e vem embalado numa caixa. A quarta capa é assinada pela escritora Ana Maria Machado, ela mesma tradutora de “Alice” (Ática, 1997). As duas tiragens somam 10 mil exemplares, um número expressivo para o mercado editorial brasileiro.

Sevcenko, autor de “A Revolta da Vacina” (Scipione, 1993, relançado em 2010 pela Cosac) e professor de história da cultura da USP (Universidade de São Paulo) e de línguas e literaturas românicas na Universidade de Harvard (EUA), acredita que o “encanto mágico da história” sustenta a obra por si só. E acrescenta contornos mais ricos. “A Alice é também uma alegoria satírica sobre a Inglaterra do período vitoriano e, de modo geral, sobre a sociedade e a cultura do século 19. Nesse sentido, o livro tem uma riqueza e uma ambiguidade de sentidos que se sustentam num autêntico malabarismo verbal, ao mesmo tempo lúdico, cômico, poético e crítico, permitindo possibilidades infinitas de leituras e interpretações”, diz o historiador.

Interpretações que ao longo de quase 150 anos ganhou traços de Salvador Dalí, Zelda Fitzgerald e Max Ernst, por exemplo. Talvez, ao lado de “Dom Quixote”, de Miguel de Cervantes, seja um dos poucos totens da literatura em que a ilustração é tão importante quanto o texto. Nesta nova edição, a tarefa gráfica ficou a cargo de Zerbini, que criou um universo em 3D para dar sua visão do mundo de Alice.

Trabalho gráfico de Luiz Zerbini para "Alice"
Trabalho gráfico de Luiz Zerbini para “Alice”

“Alice” ganhou versões para cinema, TV, foi levada a vitrais e palcos. Foi animação da Disney, em 1951. Ganhou status de culto quando “Matrix” fez referências ao Coelho Branco. Em 2010, ganhou a versão de Tim Burton (“A Fantástica Fábrica de Chocolate”).

Carroll talvez tenha imaginado apenas entreter Alice, a filha do seu colega da Universidade de Oxford, sua preferida entre três irmãs. Acabou por gerar uma obra que garante interesse de crianças, jovens e adultos.

Sobre essa atualidade, Sevcenko, um leitor de “Alice” desde sua infância, diz: “Há um fator extra que dá uma grande atualidade ao livro. Nas últimas décadas, o mundo tem sido tomado por uma forte onda de neoconservadorismo. Uma das líderes dessa corrente, a primeira-ministra britânica Margareth Thatcher, dizia que o seu ideal era o retorno aos valores vitorianos. Dessa forma, a pequena Alice continua sendo o mais tonificante antídoto contra a arrogância, a hipocrisia e o conformismo dominantes nesse mundo neocon, em que voltamos a ter figuras reinantes, cortes, vassalos e festivais para o grande público”.

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