Comentário, Inglaterra, Policial/Suspense

O crime narrado por uma senhora inglesa

Literatura policial pode ser um ponto de segurança. É abrir um livro e esquecer completamente do dia. Claro, bons livros fazem isso, de qualquer gênero, mas exigem um nível de concentração que talvez você não esteja disposto a liberar.

O que não acontece na literatura policial. Não que seja descartável. Há autores e obras que são coisa fina – Poe, Patricia Highsmith e sua série Ripley, Dashiell Hammett, Raymond Chandler, James Ellroy, Elmore Leonard e poucos outros.

Mas mesmo esses conseguem fazer com do abrir do livro seja um movimento mais suave, naqueles períodos em que a cabeça não acompanha o corpo. Ler “A Paixão”, de Almeida Faria, que poderia ser um prazer, acaba se tornando um martírio – escreverei sobre este monumento da literatura portuguesa em breve. Então, por que desperdiçar obras-primas e pequenas descobertas se o prazer da leitura pode ser alimentado com um livro envolvente, bem construído, que prenda a atenção sem exigir mais do que talvez você seja capaz de dar?

Sou adepto da literatura policial. Adoro ler o gênero em viagens e em épocas de carga cerebral intensa.

Como agora.

11796_ggE desta vez tive na cabeceira, incorporado ao Kobo, “Sala dos Homicídios” (Companhia das Letras), de P.D. James.

Já tinha lido dois outros livros da autora inglesa, mas confesso que não haviam me entusiasmado. Apesar de seu detetive Adam Dalgliesh ser convincente e real, a prosa não me convenceu.

Desta vez, o título veio recomendado após ler a entrevista que a autora deu para a jornalista Ramona Koval, que consta em “Conversa com Escritores” – escrevi sobre esse livro no blog.

Este talvez seja seu livro mais longo, com suas 496 páginas na versão impressa. E se revelou um senhor romance, indo muito além das travas policialescas.

P.D. James escreve talvez como imaginemos uma senhora inglesa de 83 anos – sua idade quando lançou o livro, em 2003. Elegante, criativa, sem pressa para desenvolver a trama e solucionar o crime. “Sala dos Homicídios” me fez querer ler mais da escritora.

A trama policial só aparece na segunda parte. A primeira é dedicada a apresentar os personagens, como vivem e pensam. Tudo gira em torno do Museu Dupayne, cujo acervo é dedicado à história do entre guerras. Uma das salas do pequeno museu particular é a que dá título ao livro, dedicado aos crimes cometidos entre 1918 e 1939.

Administrado pela família Dupayne, o museu precisa renovar o contrato de arrendamento para continuar aberto, o que provoca um racha: dois irmãos querem continuar com o legado do pai fundador, mas o terceiro deseja colocar um fim ao museu.

A reunião dos fiduciários protagoniza a primeira parte. Os poucos funcionários do museu – quatro – mais as voluntárias expõem seu temor de ver o museu fechar. Alguns dependem do emprego, pois já são idosos. Outros moram no complexo.

O surgimento do primeiro crime vai balançar o futuro do museu e colocar todos em xeque. Adam Dalgliesh convoca sua equipe para investigar o crime e mergulha na história do museu e de seus personagens. O crime lembra outro cometido nos anos 30, o que vai gerar uma série de imitações, sempre em torno da Sala dos Homicídios.

“O fundador original desse museu pensava assim: para ele, os assassinatos mais notórios eram, de certa maneira, típicos da época e realmente não ocorreriam em nenhum outro período. E creio que em certa medida ele tinha razão”, disse P.D. James a Ramona, ao responder sobre a premissa do livro.

A escritora P.D. James | Foto: David Harrison/ Newscom
A escritora P.D. James | Foto: David Harrison/ Newscom

Para Dalgliesh, o crime pode ser resolvido quando se ouve alguém contar uma história antiga, aparentemente deslocada do contexto. P.D. James então faz com que seu detetive conduza toda a trama, como se fosse um narrador.

A escritora não tem pressa. A investigação e a vida que segue enquanto o assassino é procurado são levadas ao leitor com calma, o que faz com que a vontade de avançar seja grande, sempre impelida pela prosa da inglesa e contida pela necessidade do dia seguinte.

A solução não chega fácil. Não é óbvia e nem é apresentada rapidamente – o que acontece com muitos autores policiais, a trama se alonga demais e a solução surge desesperada no final.

E após percorrer suas páginas, o que resta é uma boa noite de sono. Sem pesadelos e completamente desligado da realidade.

*****

Sinapse

  • Se a autora diz que os crimes representam uma época, então é preciso recorrer a Alberto Mussa e sua série de livros que narram crimes cometidos no Rio de Janeiro dos anos 1500 aos 1900. Falei de dois deles neste post
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