Brasil, Colaboração, Fotografia, Música, Reportagem

As cores dos sons brasileiros

Por Lygia Calil

RETRATOS SONOROSUma palavra não sai da cabeça (e da boca) do fotógrafo carioca Daryan Dornelles: simplicidade. Calcado nela, ele executa seu trabalho em busca do clique perfeito – que, especialista em retratos, consiste em capturar em detalhes a expressão, sobretudo dos olhos de seus objetos.

Apaixonado por música, acabou fazendo fama no meio, fotografando artistas brasileiros para capas de discos e ensaios para revistas nacionais e internacionais. Da coleção de mais de mil retratos, selecionou pouco mais de 150 para seu primeiro livro, “Retratos Sonoros”, que acaba de lançar por conta própria, pela Sonora Editora, especializada em música.

As imagens montam uma vitrine do mercado musical do país, visitando figuras das mais diversas, de medalhões (como Chico Buarque) a novatos (como Alice Caymmi), de gêneros que variam do funk ao jazz, cercando as várias matizes da música popular brasileira. “Não tenho preconceito nenhum”, diz o fotógrafo.

Em “Retratos Sonoros”, constam fotos de artistas como Marisa Monte, Criolo, Tiê, Nelson Sargento, Elza Soares, Pitty, Marcelinho da Lua, Marcelo Camelo, Lulu Santos e Caetano Veloso.

Elza Soares | Foto: Daryan Dornelles
Elza Soares | Foto: Daryan Dornelles

A maior inspiração de Dornelles é sua paixão pela música, que começou ainda na adolescência, quando ganhou dois discos das bandas AC/DC e Scorpions. Hoje, a coleção se estende por mais de 8.000 vinis e incontáveis CDs. Também jovem, descobriu a “Bizz”, talvez a principal revista de música da história do país, que a partir de 1985 destacava artistas nacionais e internacionais em uma época em que não existiam tantos meios de divulgação. Nas páginas da publicação, conheceu o trabalho de Rui Mendes, considerado o fotógrafo oficial da geração BR-rock dos anos 80. Bastou para se encantar pelo universo estético da arte.

Ainda assim, escolheu outra carreira, no esporte. Atleta profissional, nadava pelo time do Vasco, quando a fotografia cruzou seu caminho novamente. “Eu já estava desistindo do esporte e o treinador disse que precisava de alguém profissional para fazer as fotos da equipe. Aceitei no ato”, afirmou.

Decidido a mudar de ares, formou-se em jornalismo e cinema pela Universidade Federal Fluminense (UFF). O marco inicial na área de música e que não está no livro foi uma foto de 2004, do Barão Vermelho. Na sessão, ele descobriu que precisava se despir do papel de fã para que o resultado do trabalho fosse profissional.

Aconteceu, também, da primeira vez que clicou Chico Buarque. “Era o Chico, sabe? Um cara que sempre admirei pela música e principalmente pela postura. Mas na hora de fotografar, de dirigir a cena, tudo isso some. O foco é o meu trabalho.”

A busca dele como profissional é traduzir na imagem a personalidade do artista. Por isso, diz Dornelles, seu trabalho é bem maior antes do momento do clique. “Gasto muito tempo estudando, pesquisando. A foto, mesmo, posso fazer em dez minutos. Mas é preciso conhecer música e história da música, das artes, da moda. Ouço bastante o som também antes de fotografar um músico.”

Embora ainda muito envolvido no lançamento do primeiro livro, Dornelles já pensa nos próximos. “Gostaria que a sequência não fosse voltada à música, e sim com retratos de outras áreas: atores, escritores. Mas, como trabalho muito com músicos, pode até ser que faça um segundo volume dessa série”, afirma.

E Milton entrou na piscina

Por trás de cada clique inusitado, existem histórias deliciosas. Uma delas narra uma das fotos mais famosas da carreira de Daryan Dornelles: o dia em que o fotógrafo convenceu Milton Nascimento a entrar na piscina de sua casa, em Joatuba, no Rio de Janeiro. Detalhe: dentro d’água, ele ostenta um paletó, sem camisa, com a expressão de tranquilidade que é tão característica de Bituca.

A cena está descrita no livro pelo jornalista Marcus Preto, que o acompanhava naquele dia. Ainda assinam os textos da publicação Alice Granato e Valéria Mendonça.

Milton Nascimento na piscina | Foto: Daryan Dornelles
Milton Nascimento | Foto: Daryan Dornelles

“Como repórter, acho que o Marcus ficou muito mais preocupado com a reação do Milton do que eu. Já o tinha fotografado antes, naquela mesma casa, em um fundo cinza. Daquela vez, queria fazer alguma coisa diferente e pensei na piscina. Ele foi um querido. Disse ‘esse menino…’, num tom de brincadeira, mas topou a ideia e ainda entrou na água com bastante cuidado, para não molhar a roupa inteira. Esse é um dos retratos que eu mais gosto. E o Milton disse que tem ele em casa também”, afirma o fotógrafo.

No contato com os artistas, ele diz que entende que ali não estão modelos, cujo trabalho é se expor para as câmeras. “Eu sei que é desconfortável ser fotografado. Então procuro ser o mais tranquilo possível, converso com eles, estabeleço uma relação de confiança. Porque o medo do ridículo sempre vai existir, e é preciso confiar muito no meu trabalho para fazer essas maluquices”, diz Dornelles.

Essas situações, em que foge do briefing, rendem fotos muito mais interessantes, segundo ele, que diz na hora não se importar com a repercussão, mas em fazer um bom trabalho.

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A reportagem foi publicada em “O Tempo” de 3/8. No link, você pode conferir mais fotos de Daryan Dornelles

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