Comentário, Ficção

“O Homem que Amava os Cachorros”: um livro monumental

42155467Um livro monumental. Só lançando mão de um adjetivo na abertura do texto para conseguir falar de “O Homem que Amava os Cachorros” (Boitempo), do cubano Leonardo Padura.

Espécie de romance histórico, foi classificado por Elio Gaspari como um policial. É tudo isso e mais. Padura faz literatura policial, thriller, romance histórico e um exercício de prosa dos mais criativos e fluentes da literatura contemporânea.

O livro tem um início brutal. Iván, um aspirante a escritor em Havana, observa a agonia de sua mulher. A descrição é por demais realista, uma abertura que não sai da cabeça até o final do livro. Sabemos, depois, que Padura se propõe a narrar a história de Ramón Mercader, catalão que lutou na Guerra Civil Espanhola e foi convocado pela União Soviética para assassinar Leon Trotski.

São três histórias que Padura alterna ao longo das 600 páginas do livro na versão física – li o romance na versão digital. Ele remonta a trajetória de Trotski e seus exílios – Turquia, Noruega e México -, sua luta para escapar de atentados e das maquinações de Stalin para exterminar ele e sua família e o pensamento do comunismo.

Paralelamente, ficamos sabendo como Mercader foi convocado, treinado e enviado para o México para executar Trotski. Neste recorte, Padura se aprofunda nas questões históricas, tanto na Espanha como na União Soviética. Mercader se torna uma espécie de “ninguém”, sem identidade e a serviço de Stalin. Será ele o executor, num ato ousado, quando atingiu Trotski com uma picareta.

Para fechar as histórias, Ivan encontra um homem misterioso numa praia que começa a contar a história do crime. Padura vai alternando as histórias com precisão, domínio da técnica narrativa e criatividade. Conduz o leitor pelo longo livro sem deixá-lo entediar ou perdido em detalhes e descrições inúteis. A maestria de Padura e o monumental do início deste texto então se justificam: o livro é enxuto.

O capítulo 28 é um dos grandes momentos da literatura. Um fluxo de consciência de Ivan, que expõe sua descrença com os destinos do mundo, com a herança das guerras do século 20 e as mudanças históricas no 21. O livro valeria somente por este capítulo.

Sim, os cachorros têm participação importante no livro. Os cães da raça borzói, típico das planícies russas, farão a ligação entre as três histórias.

E não, o livro não escapa para uma luta ideológica nem pretende acertar contas. Também não defende lados. Não espere ler uma defesa de Trostki, Fidel ou Stalin, nem um ataque a eles. É um romance que resgata a história com a elegância da literatura de Padura.

Padura explora os dilemas da condição humana, as questões que importam na hora de tomar decisões e seguir em frente. Os três pilares do romance – Ivan, Ramón e Trostki – são dissecados em suas dúvidas, suas fragilidades e obsessões. Mais do que humanizar os personagens, Padura os desenha de forma a torná-los palpáveis. As ideologias se tornam parte das personalidades, e a relação de cada um deles com a história se reflete em seus passos. Padura narra todo esse fluxo baseado em uma pesquisa histórica rigorosa.

Para completar, o prefácio de Gilberto Maringoni é esclarecedor sobre o período narrado e contextualiza os fatos.

Só posso recomendar a leitura. “O Homem que Amava os Cachorros” é um dos melhores livros que li nos últimos anos.

*****

“O julgamento e a execução daqueles comunistas se transformariam, para todo o sempre, num exemplo único na história da injustiça organizada e numa novidade na história da credibilidade. Significaria o assassinato da verdadeira fé: o estertor da utopia. E também, o exilado estava ciente disso, a preparação do ataque destinado a eliminar o maior inimigo do Povo, o traidor e terrorista Liev Davidovitch Troski.”

“Com aquelas ausências me vi diante das dimensões reais da minha solidão e da demonstração de como as decisões da história podem meter-se pelas janelas de algumas vidas, devastando-as a partir de dentro.”

“O ar tinha uma densidade que acariciava a pele, e o mar, cintilante, produzia apenas um murmúrio sonolento. Ali se podia sentir como o mundo, em dias e momentos mágicos, nos oferece a sensação enganosa de ser um lugar aprazível, feito à medida dos sonhos e dos mais estranhos desejos humanos. A memória, imbuída daquela atmosfera repousante, conseguia extraviar-se e esquecer os rancores e as mágoas.”

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