Brasil, Entrevista, Ficção

Alberto Mussa: “O Rio sempre permitiu uma interação intensa entre membros de todas as classes sociais”

A ideia é original. Contar a história do Rio de Janeiro por meio de cinco crimes, um para cada século, desde os 1500, em forma romanceada. O projeto de Alberto Mussa está no terceiro volume e já se transformou numa das melhores coisas na literatura nacional.

senhorA série começou com “O Trono da Rainha Jinga”, que retrata 1626. Depois, ele lançou “O Senhor do Lado Esquerdo”, que vai a 1913. Seu último livro é “A Primeira História do Mundo”, cuja ação acontece em 1567, para o autor, um crime fundador da cidade do Rio de Janeiro (todos lançados pela Record).

A estrutura básica dos livros é a literatura policial. Mas o escritor carioca coloca na trama elementos de etimologia, antropologia, ensaio e romance histórico, tudo baseado em uma extensa pesquisa. Dessa forma, mais do que saber quem é o culpado, Mussa faz com que o leitor se envolva na história e na época, com suas deliciosas intervenções para explicar a origem de uma palavra, características de um personagem real ou detalhes da história do Brasil.

Além disso, Mussa conduz o texto com muito bom humor. O narrador, em primeira pessoa, engata uma conversa com o leitor, mas sempre à distância da história.

primeiraO blog leu “O Senhor do Lado Esquerdo” e “A Primeira História do Mundo”. No primeiro, o secretário da Presidência é assassinado num prostíbulo. É a deixa para Mussa explorar a sexualidade da capital brasileira no início do século 20 e como ela ajudou a formar o carioca. O crime real aconteceu em 1927.

Assim escreve João Cezar de Castro Rocha, no posfácio da segunda edição do livro: “A tentativa de elucidar o homicídio estimula inúmeras digressões sobre o perfil da cidade (…) A estrutura oscila entre a investigação do assassinato do secretário do presidente da República e a inserção oportuna de crônicas diversas acerca da história e dos mitos da cidade do Rio de Janeiro (…) No entanto, Mussa vai além, ampliando o exercício, ao incluir um repertório cultural que não encontra paralelo na literatura brasileira contemporânea”.

Já em “A Primeira História do Mundo”, Mussa recua mais de 400 anos para reconstituir o assassinato do serralheiro Francisco da Costa. Adultério, mais sexualidade, num Brasil praticamente virgem, em que o passional vai se misturar com a sensação de aventura para criar a primeira imagem do Rio de Janeiro.

Mussa conversou com o blog sobre os livros e a série. Leia a seguir a entrevista.

*****

Você escreve em “A Primeira História do Mundo” que a história do Rio se inicia com o assassinato de Francisco da Costa. Por que?
É uma afirmação literária. O romance se insere num ciclo que pretende ser uma espécie de compêndio mítico da cidade, formado por novelas policiais. Apresento, assim, uma série de “mitos de fundação” do Rio de Janeiro, todos eles envolvendo ao menos um crime. Como esse é o primeiro crime, no sentido cronológico, é também o crime que “funda”, mitologicamente, a cidade.

Por que recontar a história do Rio por meio dos crimes? O que isso revela da cidade?
Todo crime é um fato extremo, que só ocorre numa situação-limite. Nada melhor para se analisar o comportamento de um indivíduo, ou de uma sociedade, quando ele está nessa condição. Além disso, nada espelha melhor os ideais de uma sociedade que seu código penal. No código penal está tudo o que ela, a sociedade, não aceita e, tacitamente, o que ela admite. É um retrato do ela pensa e quer de si mesma.

O que o leva a optar por determinado crime em cada século?
Pretendi explorar os aspectos mais importantes, as paisagens mais significativas da cidade nesses séculos. A literatura pode ser uma espécie de máquina do tempo.

Os livros são narrados em primeira pessoa, num tom de conversa muitas vezes, como se mantivesse um diálogo com o leitor. Você, além disso, não dá pistas do que é ficção e o que é realidade e envolve o leitor na prosa. O tom em primeira pessoa foi pensado para ajudar a reduzir a distância entre a realidade e ficção?
Precisamente. Sem um narrador com esse perfil ficaria impossível realizar essa fusão de ficção e história.

No posfácio de João Cezar de Castro Rocha, em “O Senhor do Lado Esquerdo”, surge o termo ‘literatura carioca’. Você concorda com esse subgênero?
Concordo. Acho que existe uma grande tradição de uma ficção centrada na cidade, tendo a cidade como seu principal pano de fundo, de modo a tornar instranferível a trama para outro lugar. É o caso de Manuel Antônio de Almeida, Machado de Assis, Lima Barreto, Marques Rebelo e Nelson Rodrigues, por exemplo.

mussa_170610É possível fazer uma analogia entre a Casa das Trocas (como é chamada o prostíbulo em “O Senhor do Lado Esquerdo”) e o Rio de Janeiro da época? 
Talvez no sentido de ser o Rio uma cidade que sempre permitiu uma interação intensa entre membros de todas as classes sociais. A Casa das Trocas pode ser pensada assim.

Os romances se desenvolvem nas lacunas históricas. Está correto?
Perfeito. Embora tentem reproduzir algumas circunstâncias históricas, é nas lacunas que o enredo se desenvolve.

Quais são suas influências na literatura policial?
Acho que (Jorge Luis) Borges e Bioy Casares, que escreveram juntos com o pseudônimo único de Bustos Domecq. Mas é impossível negar a influência de mestres como Arthur Conan Doyle, Agatha Christie, G.K. Chesterton, Friedrich Dürrenmatt, Umberto Eco e Leonardo Sciascia.

Quanto tempo de pesquisa para cada livro do ciclo?
Na verdade, não faço pesquisa, no sentido estrito do termo. Faço uma imersão em leituras de obras que tratam do período histórico em questão. Mas às vezes já conheço muita coisa, porque sou um leitor viciado. No caso de “A Primeira História do Mundo” foi assim, li muita coisa mas muitas outras informações eu já tinha, por conta de leituras anteriores. O tempo de redação de um romance varia muito, pode levar cinco anos ou dois.

Você já tem definido os outros dois romances do ciclo – dos oitocentos e dos novencentos?
Ainda não. Devo fazer o 19 no próximo romance. Quero retratar o ambiente das camadas pobres e escravas do Rio de Janeiro (já que a literatura brasileira sempre preferiu as sinhazinhas e damas da alta classe), falar das tabernas, dos jogos proibidos, dos cultos religiosos clandestinos que deram origem à moderna umbanda, toda essa vida social obscura que a ficção em regra não explorou. No que se refere ao 18, sei que vou fazer uma trama ligada à inquisição, outro tema muito desprezado pela ficção brasileira.

Você abre ‘apostos’ nas narrativas para elucidar particularidades das histórias, como etimologia, história, o que o aproxima do ensaio e da crônica da cidade. Como chegou a essa estrutura?
Foi um processo de amadurecimento, desde que publiquei meu primeiro livro de contos, Elegbara. Sempre tive um estilo menos psicológico e mais mitológico. O primeiro está mais próximo da poeisa; o segundo, do pensamento. Quando escrevi O movimento pendular, encontrei definitivamente meu estilo.

Suas obras têm como base o Rio e sua história, além de lendas e personagens que habitaram a cidade. O que o encanta nesse passado?
Sou fascinado por história, sempre fui. Como sou por mitologia. Não saberia dizer quando começou. Isso se somou ao meu interesse pela cidade onde nasci e vivo. A maioria das experiências fundamentais da minha vida (a favela, as escolas de samba, a capoeira, a umbanda e o candomblé) têm forte relação com o Rio, particularmente com a zona norte do Rio, onde nasci. Acho que isso é fundamental para a escolha das minhas matérias.

Os livros do ciclo misturam ensaio, romance histórico, antropologia, romance policial. Qual a dificuldade, se é que houve, em lidar com todos esses gêneros?
Acho que não houve dificuldade, muito pelo contrário. Uni apenas os gêneros que me interessam, onde me sinto à vontade.

“O Trono da Rainha Jinga”, que faz parte do ciclo, está esgotado na versão impressa – está disponível somente em ebook. Ele ganhará nova edição, com o padrão gráfico atual de seus livros?
Exato. A editora Record começou a reeditar toda a minha obra, com projeto gráfico próprio, acompanhada de estudos feitos por especialistas em literatura. A exceção, no que se refere ao estudo, fica por conta dos livros inéditos, como A Primeira História do Mundo. Não teria sentido publicar um livro já com texto crítico no posfácio. Havendo, todavia, uma segunda edição, virá com esse texto suplementar.

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