Biografias/Perfis, Brasil, Entrevista

Biografia de Dirceu Lopes relembra um camisa 10 que falta hoje ao Brasil

Hodirceu-lopes-ganha-livro-capa-400-x-492uve uma época em que o futebol brasileiro podia contar com pelo menos dois camisas 10. Além de Pelé, incontestável, havia Dirceu Lopes, apelidado de Príncipe, com sua técnica elegante que encantou o Cruzeiro nos anos 60 e 70.

Num momento histórico em que o Brasil não possui mais esse camisa 10 já há um bom tempo – até a Colômbia já revelou um 10 clássico, James Rodriguez -, o blog foi atrás do jornalista Pedro Blank, autor da biografia de Dirceu Lopes, a recém-lançada “O Príncipe – A Real História de Dirceu Lopes” (Asa de Papel), para conversar sobre o livro, a carreira do jogador na seleção e fazer alguns exercícios de imaginação. Além disso, a interferência da ditadura militar na seleção que foi à Copa de 70 é esmiuçada no livro e explicada na entrevista.

A conversa vai a seguir.

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Quanto tempo você levou entre a pesquisa e a entrega do livro?
Os primeiros trabalhos de apuração tiveram início em janeiro de 2011. Inicialmente, fiz uma ampla lista de entrevistados e também montei uma tabela com os principais veículos de imprensa escrita dos anos 60 e 70, período em que a vida de Dirceu Lopes se desenvolve dentro dos gramados. Algo que tornou moroso o processo de apuração foram as entrevistas. Em várias ocasiões, a entrevista foi desmarcada em cima da hora e, como era muito importante ouvir todo mundo que tivesse uma história com o biografado, tornava-se necessário remarcar o encontro. Isso consumiu um tempo considerável. Ainda no que diz respeito à apuração, tornou-se importante checar as histórias contadas pelas fontes e o que aconteceu realmente, relatado em várias reportagens de jornais e revistas. Quando acontecia essa divergência de datas e de personagens envolvidos na história, mesmo com a reportagem em mãos, voltava no entrevistado e tentava obter mais informações sobre determinada situação. Muitas vezes, uma fonte podia julgar irrelevante a roupa que ele usou na apresentação do Fluminense. Mas, para mim, falar que o Dirceu Lopes chegou às Laranjeiras vestido num terno quadriculado berrante é muito importante, pois ajuda a construir sua imagem naqueles tempos, trajetória que é marcada pela simplicidade, inclusive no modo de se vestir. Ao todo, incluindo amigos, jogadores (adversários e companheiros), jornalistas, pesquisadores, dirigentes, torcedores, fiz 105 entrevistas nestes três anos. Também realizei pesquisa no Arquivo Público de Minas Gerais, contemplando os jornais e revistas de Minas Gerais e do Brasil.

A biografia já nasceu autorizada ou houve um entendimento posterior?
Inicialmente, a minha ideia era fazer um perfil do Dirceu Lopes para publicar em algum blog voltado para futebol. Contudo, logo nas primeiras apurações, tive a certeza de que tinha diante de mim a história de um dos protagonistas do futebol brasileiros na era dourada do esporte do país, quando os grandes craques atuavam por equipes nacionais e eram respeitados por todo o mundo. Percebi a oportunidade de escrever uma biografia, gênero do qual, particularmente, sou apreciador. Como a legislação brasileira prevê autorização do biografado ou de descendentes para esse tipo de livro, procurei o Dirceu Lopes para saber se ele topava. Pediu uma semana de prazo para pensar e me retornou positivamente. Não houve nenhuma interferência do Dirceu no conteúdo, ou seja, todos os erros neste livro são de minha responsabilidade.

A Asa de Papel é uma editora pequena. Qual a relação com uma editora desse porte? Você foi até eles ou a editora que o procurou com o projeto?
No final de janeiro deste ano (2014), coloquei o ponto final no livro. O próximo passo seria editar o material. Então, em conversa com o jornalista e escritor Alexandre Simões, perguntei se ele não tinha uma editora para me indicar para apresentar o material, analisar o interesse e condições para lançar o livro. Ele me apresentou ao Álvaro Gentil, proprietário da Asa de Papel. Além do companheirismo, a editora me encantou pela maneira profissional como recebeu o livro e como conduziu todo o processo. O Alexandre Biciatti, designer da Asa de Papel, foi elaborando o projeto gráfico e, juntamente com o Álvaro, fomos dando a cara ao livro, preparando a capa, selecionando a foto e todos os detalhes da edição. A Asa de Papel fez um trabalho fundamental para a finalização e lançamento do livro. A editora também ficou responsável pelos lançamentos e distribuição, o que é algo importantíssimo para que o livro possa chegar às mãos dos leitores.

Pedro Blank (esq) e Dirceu Lopes na noite de lançamento da biografia | Foto: Luciano Andrei
Pedro Blank (esq) e Dirceu Lopes na noite de lançamento da biografia | Foto: Luciano Andrei

Como foi o envolvimento de Dirceu no livro? E do Cruzeiro?
Estive com o Dirceu Lopes em 35 vezes especificamente para entrevistá-lo para a biografia. As entrevistas duravam, em média, de três a quatro horas. Ele é muito emotivo e em várias vezes encerramos a conversa porque o entrevistado estava debulhado em lágrimas. O Dirceu colaborou de todas as maneiras para a concretização deste livro. Indicou fontes, marcou entrevistas com amigos e abriu seu álbum particular, onde foi possível tirar fotos inéditas que ilustram a biografia. Teve uma postura adorável. O Cruzeiro, por sua vez, disponibilizou o arquivo de jogos e também fez matérias para a divulgação do livro em seu site, na revista do clube e na sua TV.

Por que ele não se deu bem na seleção? Num primeiro exercício de condicional, o que poderia ter acontecido com a seleção se Dirceu tivesse mais chances? 
Nesse ponto, especificamente, acredito que o livro fornece um olhar inédito sobre o futebol: a política e a seleção brasileira. O ex-técnico João Saldanha, nas eliminatórias da Copa de 70, declarou que Dirceu Lopes era o jogador mais importante do grupo. Saldanha nunca escondeu que era militante comunista e o governo militar resolveu demiti-lo às vésperas do embarque para o México. Por quê? Era notório que a AERP – órgão que regulava todas as entrevistas da presidência, organizava eventos e olhava com lupa tudo que envolvia a imagem da presidência – via o Saldanha como uma bomba relógio. Isso já foi contado pela imprensa diversas vezes. Porém, é importante entender que, naquele momento, a seleção brasileira funcionava como ferramenta para criar uma identidade nacional, expressa naqueles slogans patrioteiros como “Ninguém segura este país”, “Pra frente, Brasil”, entre outros. Assim, tornava-se essencial que os principais clubes do país estivessem representados naquela time excepcional (talvez o maior de todos os tempos). O Saldanha, por filosofia, optou em montar a base da seleção com jogadores do Santos, Botafogo e Cruzeiro. O Atlético-MG não tinha ninguém no grupo. O presidente (Emilio Garrastazu) Médici ordenou a convocação do Dario, que, apesar de goleador e de uma história pessoal belíssima, não estava no nível técnico de Rivellino, Tostão, Dirceu Lopes, entre outros. Por conta disso, foi inventada pelo departamento médico a mentira de que Toninho Guerreiro não poderia ir à Copa por conta de uma sinusite. Mentira! Saldanha, iracundo, convocou o Zé Carlos, outro cracão do Cruzeiro. Ele caiu. Depois chamaram Dino Sani e Otto Glória. Ambos se recusaram a convocar o Dario. Zagallo aceitou o o jogador do Galo. Como Dirceu não peitou o treinador para pedir oportunidades, ele acabou cortado e não foi à Copa. O motivo do corte de Dirceu, como está no livro, não foi técnico, pois ele era destaque em todos os treinamentos. Foi para atender às ordens do Médici. Segundo dados do Tortura Nunca Mais, é o maior assassino da história do Brasil. Recentemente, vi uma entrevista do Ademir da Guia, ex-ídolo do Palmeiras, e ele falou com todas as letras que Dirceu Lopes é o jogador mais injustiçado do Brasil.

Ele é reconhecido hoje no Cruzeiro? Como é a relação do clube com ele?
Sim. Dirceu Lopes está na galeria dos Ídolos Eternos do Cruzeiro e, somando os gols marcados pelo profissional e juvenil, é o maior artilheiro da história do clube. Quando o Marcelo Oliveira assinou com o Cruzeiro e tinha uma rejeição alta pelo seu passado no Atlético, o Dirceu Lopes foi à Toca da Raposa para demonstrar apoio à contratação feita pelo presidente Gilvan (de Pinho Tavares).

Como seria o Dirceu Lopes no futebol atual, dentro e fora de campo? – Se é que esse exercício de suposição é possível.
A nossa imaginação permite tudo e a pergunta é um ótimo delicioso convite ao sonho. Acredito que Dirceu Lopes seria o melhor jogador do mundo. O seu estilo é muito parecido com o do Messi: baixinho, velocidade, finalização precisa e, como diz o Tostão, Dirceu Lopes sempre jogou livre como um passarinho. O ex-camisa 10 do Cruzeiro, porém, tem uma vantagem considerável. É um dos poucos jogadores da história do futebol que chuta com a mesma qualidade com ambas as pernas – Messi é notoriamente canhoto.

Dirceu Lopes se revela no seu livro como um atleta culto, ao citar Sartre. Como é esse lado do jogador? Ele se sentia diferente num meio que tradicionalmente não é afeito à alta cultura?
É interessante falar disso. O Dirceu Lopes sempre gostou de leitura num ambiente que é pouco avesso a qualquer tipo de cultura. Esse livro serviu como um convite para ele pensar o que é realmente ser livre, ter as rédeas da sua vida e escolher quais os rumos tomar. Quando teve a primeira contusão séria, ele pode se dedicar à leitura e notou que não teria disposição para continuar no meio do futebol, pois queria aproveitar a família e ver os filhos crescendo, além de se dedicar a outra atividade. Embora o Dirceu tenha feito algumas leituras de clássicos, os jogadores de futebol viviam à margem do que acontecia no Brasil. No livro, contamos que ninguém do grupo de 70 imaginava que havia gente torturada e morta no país. Tal consciência só viria muitos anos depois.

dirceu-lopes-cruzeiro-celio-apolinarioSeu texto também contempla a história de Belo Horizonte. Os clubes de futebol e de jogadores ícones são atores dessa história? Qual a importância?
Belo Horizonte é uma cidade jovem. Mesmo assim, acredito ser possível chamar de história recente o período da capital da década de 1960 para cá. Por isso, é muito importante lembrar da transferência da capital federal do Rio de Janeiro para Brasília. Até os anos 60, os times de futebol do Rio e São Paulo, que ocupavam amplo espaço na mídia, rivalizavam em número de torcedores com Atlético e Cruzeiro na região metropolitana. Com a inauguração de Brasília, o país vê o desenvolvimento dos meios de comunicação em outras regiões, a construção de estradas e grandes obras, como foi o Mineirão em Belo Horizonte. Nesse sentido, compreender a história dos personagens do futebol mineiro contribui para o entendimento da história da cidade. Dirceu Lopes se consolida no futebol a partir de 1965 com a construção do Mineirão e contribui para colocar o futebol mineiro em pé de igualdade com o eixo Rio-SP.

Você também contextualiza os anos 70, o período de ditadura e a Copa do Mundo no México. Com esses três fatos se relacionam na história de Dirceu Lopes?
Dirceu Lopes, um dos maiores jogadores do mundo em todos os tempos, deixou de disputar a competição por interferência direta dos militares que mandavam no país. Dirceu Lopes, assim como Toninho Guerreiro e João Saldanha, é uma vítima daqueles anos de chumbo. Como atualmente a gente vê algumas iniciativas para punir torturadores, é importante relembrar que a seleção brasileira foi usada para atender interesses propagandísticos do regime militar. Mesmo cortado da Copa, o meia é convocado para a seleção da Fifa, que tinha nomes como Banks, Bob Charlton, George Best, entre outros. Com a saída de Tostão, Dirceu Lopes passa a ser a referência do Cruzeiro no mundo. Ao mesmo tempo, ele começa a sofrer com contusões e excessivas infiltrações para estar em campo e garantir o pagamento da cota integral ao clube.

Qual a maior dificuldade que você vê hoje para escrever biografias? 
O acesso ao material jornalístico produzido em Minas Gerais é um complicador. Em que pese a atenção extrema dos funcionários da Hemeroteca da Biblioteca Pública Luiz de Bessa, a pesquisa poderia ser mais ágil se tivéssemos o material digitalizado, como ocorre com jornais importantes no Google e também no Arquivo Público de São Paulo – os dois últimos foram de muita valia na pesquisa. A digitalização é importante por conta da agilidade e também da preservação do arquivo, tendo em vista que o papel de revista e jornal se desgasta com o manuseio.

Como você vê o debate das biografias não autorizadas?
A legislação brasileira precisa mudar. O Brasil tem o direito de conhecer a memória dos personagens que fizeram história. É preciso entender que o mercado editorial não rende tanto dinheiro quanto a Paula Lavigne, do Procure Saber, deu a entender. Eu, por exemplo, trabalho com comunicação corporativa e não consigo me dedicar exclusivamente a escrever, realidade de vários outros escritores que conheço. O Bob Dylan tem cerca de 700 biografias. O cara é um ícone, desperta interesse, interferiu na cultura pop mundial e rende muita história mesmo. Mesmo que autorizada, não acredito que a família ou o biografado devam interferir no trabalho sob o risco de diminuir sua importância histórica. Se o personagem tem importância história e foi uma figura pública não vejo razão nenhuma em proibir a biografia. Casos que atentem contra a honra ou sejam maldosamente manipulados devem ser tratados no âmbito jurídico e eventuais excessos punidos.

 

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