Argentina, Arquivos, Comentário, Ficção

Dos arquivos: O romance que nunca começa

Macedonio Fernández foi quem abriu caminho para a literatura de ensaios que consagrou autores argentinos como Jorge Luis Borges, que dizia que gostava mais de sua conversa do que de seus escritos. Fernández pertencia à geração anterior à do autor de “Ficções”.

22418422Seu “Museu do Romance da Eterna” (Cosac Naify) não conta uma história, é uma sucessão de prólogos para um romance que nunca começa. Fernández adia o que seria inadiável, como se estivesse bloqueado. O adiamento constante traz à tona uma discussão sobre a literatura, personagens e a construção de um romance.

Em determinado momento, os personagens do romance que nunca começa surgem para discutir aquele adiamento. Fernández abre caminho para a criação, para a invenção. Pura digressão sem academicismos. Além disso, é atual por demais – como o trecho selecionado abaixo.

O livro, editado como um sequência de páginas no modo impressão do Word, recolhidas como em uma pasta, pode ser um tratado sobre a arte de escrever. Ainda que o romance nunca comece.

*****

“Todo personagem existe pela metade, pois nunca foi apresentado um do qual a metade ou mais o autor não tomou emprestado de pessoas de ‘vida’. Por isso há em todo personagem uma incomodidade e uma agitação no ‘ser’ de personagem, como andam pelo mundo alguns humanos que um romancista usou parcialmente para personagem e que sentem uma incomodidade no ‘ser’ de vida. Algo deles está em romance, fantasiado em páginas escritas, e na verdade não se pode decidir onde estão mais.”

“O consagrado futuro literato que não acredita em, nem estima, outra posteridade a não ser a noite para cada dia, não terá sentido a urgência que sofriam antes os autores de escrever logo para ter logo posteridade julgadora: com a velocidade alcançada hoje pela posteridade o artista sobrevive a ela e no dia seguinte sabe se deve ou não escrever melhor ou se já o fez tão bem que deve conter-se na perfeição de escrever. Ou se já não lhe resta nada além da carreira literária mais difícil, a de leitor. A facilidade atual de escrever faz a escassez legível e até suprimiu a injuriosa necessidade de que haja leitores: escreve-se por fruição de arte e no máximo para conhecer a opinião da crítica.”

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