Brasil, Ficção, Inglaterra, Notas de leitura, Policial/Suspense

Notas de leitura

livro-evandro“Minha Mãe se Matou sem Dizer Adeus” (Record), de Evandro Affonso Ferreira
O impacto de “O Mendigo que Sabia de Cor os Adágios de Erasmo de Rotterdam” (Record) me fez rondar a obra do escritor. Faço então o caminho inverso, e recuo ao antecessor do vencedor do Jabuti 2013. Neste, as invenções linguísticas se mostram mais cruas. A trama se sustenta na melancolia. Um homem de 80 anos senta em uma confeitaria, num domingo chuvoso, e observa a vida ao redor. Ao mesmo tempo, lembra de sua mãe, que se matou sem deixar bilhete ou indicação alguma. Um tom desesperador ronda o idoso, que visita o passado e tenta acertar as contas com ele. Que se prova ser uma tarefa dolorosa. “Melhor continuar quieto nesta mesa-mirante catalogando desmoronamentos alheiros para esquecer-me da própria ruína”, diz o narrador. Leitor de Bruno Schulz e Virgina Woolf, odeia Billie Holiday e transforma o seu domingo numa dura batalha com a vida.

Trem Noturno“Trem Noturno” (Companhia das Letras), de Martin Amis
Primeiro livro que leio do autor inglês, é também o seu primeiro policial. Leio também que este não é o seu melhor trabalho, reservado a títulos como “A Informação”. Só que a Fnac largou o livro a um preço irrisório (60% de desconto). Resolvi abrir a porta para Amis. Mike Hoolihan tem nome de homem, mas é uma detetive convocada por uma espécie de padrinho na corporação a investigar o suicídio de sua filha. Mike descobre que Jennifer fora morta com três tiros, o que poderia derrubar a tese de suicídio. Nesse ponto, o romance deixa o policial de lado, pois não há nada mais a desvendar. A investigação se torna então um mergulho na história de Mike, que tem que enfrentar seu passado doloroso. Num tiro curto, Amis fez emergir um romance em que aparências às vezes não enganam.

contos_marcelino“Contos Negreiros” (Recordo), de Marcelino Freire
O livro venceu o Jabuti de contos de 2006. A edição que comprei é caprichada, capa dura e tamanho que quase o coloca como de bolso. Falta talvez uma fortuna crítica, a se pensar nas próximas edições. Em 16 cantos, o autor desfia cenários e situações que reproduzem fielmente o cotidiano brasileiro. Caso de “Solar dos Princípios”, que trata de um porteiro assustado com a presença de três negros à sua frente. Freire não pretendeu dar lição de moral – os contos, por serem todos curtos, não têm espaço para divagação ou reflexão, que fica por conta do leitor. Como diz Xico Sá no prefácio, “o cabra mal começa, acabou-se”. Se a leitura é rápida, o gosto amargo que fica ao final é duradouro. Pois real.

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