Chile, Entrevista, Ficção

Alejandro Zambra fala com o blog: “Sabíamos que não havia nada que poderíamos ter feito”

Seus livros são curtos – o mais longo lançado no Brasil tem 157 páginas. Ele não tem medo de abrir um romance com a frase “No final ela morre e ele fica sozinho”. O chileno Alejandro Zambra já é considerado um dos grandes autores sul-americanos, com romances, ensaios e poesia publicados.

Nascido em 1975, não viveu o golpe de Pinochet, mas em sua obra respinga não somente o trauma da época, mas as consequências que a violência e o cerceamento levaram aos chilenos.

A-vida-privada-das-árvoresNo Brasil, sua obra é publicada pela Cosac Naify, que lançou “Bonsai” (da frase citado na abertura deste texto), “A Vida Privada das Árvores” e “Formas de Voltar para Casa” (o mais longo romance), seu melhor e mais maduro trabalho. A editora promete para 2015 o lançamento de “Mis Documentos”, coletânea de contos.

Seus romances têm como espinha a perda – um amor em “Bonsai”, a companheira em “A Vida Privada”, o passado em “Formas”. O Chile da época da ditadura também emerge de suas narrativas, escamoteada no segundo livro e mais à tona no terceiro. Vai dando voz, assim, a uma geração que não viveu o golpe na pela, mas somente pela memória de parentes e amigos.

Dono de uma prosa sintética, que concentra em pouco espaço uma gama de significados, Zambra conversou com o blog para falar de seu trabalho, da literatura latino-americana e a relação dos chilenos com a época da ditadura.

A seguir, a entrevista, sugestões de leitura sobre sua obra e trechos.

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alejandro_zambraComo os seus livros se relacionam? É possível traçar uma linha condutora?
Vejo de várias maneiras, dependendo da hora do dia e da temporada. Uma constante, eu acho, tem a ver com os graus de distância do narrador, que em “Bonsai” é grande, é uma terceira pessoa que precisa da distância para narrar, jogar com a distância. Em “A Vida Privada das Árvores”, a distância diminui e às vezes parece que o narrador e o protagonista são os mesmos. Já em “Formas de Voltar para Casa”, há uma primeira pessoa ou duas primeiras pessoas que parecem uma só e a distância some temporariamente.

Formas-de-voltar-para-casa_capa1Em “Formas de Voltar para Casa”, o narrador, ao falar de perdas, diz que muito gente sofreu mais na ditadura de Pinochet. O romance pretende entender esse passado?
O livro destina-se a representar o que um chileno sente na minha idade ao lembrar daqueles anos. Nem inocência nem culpa, porque ambos os polos são impróprios, mas em todo o processo esses sentimentos circularam, meio errantes. Culpa porque vimos alguma coisa, porque sabíamos de algo, porque nós não somos totalmente inocentes. E embora seja um sentimento estéril, porque na verdade nós sabíamos muito pouco e não havia nada que poderíamos ter feito.

Você escreve em “Formas de Voltar para Casa” que deveríamos descrever as manchas da memória. O quanto dessas manchas estão em seus livros?
Gostaria de pensar que um livro foi escrito por isso. Para encontrar manchas onde pensávamos que não havia nada. Para fazer presente essas ausências. Eu acho que, a princípio, os livros parecem nos obedecer, mas há um momento que deixam de ser o que queríamos, e terminar de escrevê-los é, no fundo, atrever-se a avançar um pouco às cegas, sem controle. Acredito que esse descontrole sempre está nos livros.

110_293-BonsaiO tamanho de seus livros incomodou alguns críticos, que acham que o romance precisa ser mais longo. Como vê hoje essa questão?
Eu não vejo problema. Quando penso no Brasil e em “Bonsai” [91 páginas], penso que é um caso de sorte, porque “Bonsai” é, como a música, romance de uma nota só [referência a “Samba de uma Nota Só”, composição de Tom Jobim].

Fale-me um pouco de Gabriel García Márquez, morto recentemente. Ele foi uma influência para você?
Eu gostava de ler seus livros, especialmente “Ninguém Escreve ao Coronel”, que é um dos melhores romances que já li na vida, e “Crônica de uma Morte Anunciada”. Não sei se particularmente é uma influência, apesar de que todos os livros pelos quais nos deslumbrados são influentes.

A América Latina tem uma nova geração de escritores que rompe com a tradição do realismo fantástico. Essa constante comparação o incomoda? Como avalia a herança do realismo fantástico?
Eu não sinto nenhuma herança muito direta. Eu não sou o filho do boom, no melhor dos casos sou um neto. E, como eu disse anteriormente, o livro que eu mais gosto de García Márquez tem de tudo do realismo, mas nada de “mágico”.

Qual o panorama literário do Chile hoje? Quais autores você indica?
Eu não posso responder a essa pergunta em detalhe. De Juan Emar em diante, através de González Vera e Maria Luisa Bombal. São autores pouco lidos fora do Chile, mas são tremendos, como Pedro Lemebel, Diamela Eltit, Marcelo Mellado. Dos mais jovens, destacaria Alejandra Costamagna, Alvaro Bisam, Matías Celedón, Diego Zúñiga e Carlos Labbé.

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A seguir, alguns trechos de “Formas de Voltar para Casa”, que tentam, em vão, captar a intensidade do livro. O blog recomenda sua leitura com veemência.

“Nos encontramos numa tarde de novembro, no Starbucks de La Reina. Eu gostaria de me lembrar agora, com absoluta precisão, de cada uma de suas palavras e anotá-las neste caderno, sem maiores comentários. Gostaria de imitar sua voz, aproximar uma câmera dos gestos que fazia quando penetrava, sem medo, no passado. Gostaria que outra pessoa escrevesse este livro. Que ela, por exemplo, o escrevesse. Que estivesse agora mesmo, na minha casa, escrevendo. Mas eu é que devo escrevê-lo e aqui estou. E aqui vou ficar.”

“Fiquei pensando nisso e perdi o sono. É verdade. Recordamos, mais propriamente, os ruídos das imagens. E às vezes, ao escrever, limpamos tudo, como se desse modo avançássemos para algum lado. Deveríamos simplesmente descrever esses ruídos, essas manchas na memória. Essa seleção arbitrária, nada mais. Por isso mentimos tanto, afinal. Por isso um livro é sempre o reverso de outro livro  imenso e estranho. Um livro ilegítimo e genuíno que traduzimos, que traímos pelo hábito de uma prosa passável.”

“Eu tinha passado a tarde junto a um grupo de companheiros de cursos trocando relatos familiares nos quais a morte aparecia com insistência opressiva. De todos os presentes eu era o único que provinha de uma família sem mortos, e essa constatação me encheu de uma estranha amargura: meus amigos tinham crescido lendo os livros que seus pais ou seus irmãos mortos tinham deixado em casa. Mas na minha família não havia mortos nem havia livros.”

“Sabia pouco, mas pelo menos sabia isto: que ninguém fala pelos outros. Que, mesmo que queiramos contar histórias alheias, terminamos sempre contando nossa própria história.”

“Enquanto os adultos matavam ou eram mortos, nós fazíamos desenhos num canto. Enquanto o país se fazia em pedaços, nós aprendíamos a falar, a andar, a dobrar os guardanapos em forma de barcos, de aviões. Enquanto o romance acontecia, nós brincávamos de esconder, de desaparecer.”

“É bom morar perto de um cinema, diz ela, e nos entusiasmamos falando sobre filmes – descobrimos coincidências que no entanto, ainda bem, nos devolvem à vida, à juventude, à infância. Porque já não podemos, já não sabemos falar sobre um filme ou sobre um livro; chegou o tempo em que não importam os filmes nem os romances e sim o momento em que os vimos, os lemos: onde estávamos, o que fazíamos, quem éramos então.”

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