Chile, Comentário, Ficção

Um chileno que conta histórias do deserto

Pouco conhecia da literatura chilena até uns dois anos atrás. Além de Pablo Neruda, passei e não me dei bem com Roberto Bolaño. De Isabel Allende, não li nada, apesar de receber recomendações de gente que sabe ler. Assim como Antonio Skármeta.

Mas nos últimos tempos, talvez inspirado pelas editoras que investiram no Chile, cheguei ao excepcional Alejandro Zambra (em breve, uma entrevista com ele no blog), José Donoso (já tratado no blog), Jorge Edwards e María Luisa Bombal.

Desemboquei então em dois livros de Hernán Rivera Letelier – até onde sei, os únicos traduzidos e disponíveis no Brasil: “A Contadora de Filmes” (Cosac Naify) e “A Arte da Ressureição” (Alfaguara). Há ainda “O Fantasista” (Rocco), mas que está fora de catálogo.

Em ambos, lá estão os temas do chileno: o deserto do Atacama, a vida dominada pelas minas de salitre, uma certa religiosidade e crítica social.

Capa Arte da ressurreicao.inddEm “A Arte da Ressurreição”, Letelier parte de um fato real, a história de um pregador que vagou pelo deserto encarnando a versão de que seria Cristo na Terra por 22 anos. Domingo Zárate Vega, o tal Cristo de Elqui, tem tom profético e distribui esperanças às pessoas que querem se arrepender. Essa sina começou depois da morte de sua mãe.

Até que um dia descobre Magalena Mercado, uma prostituta que atende os clientes diante da imagem da Virgem, sempre coberta. Vega então resolve sair à procura de Magalena, com o intuito de pregar o fim do mundo. A semelhança do nome com Maria Madalena o provocou.

A história tem vários narradores. O principal é um jornalista, em terceira pessoa, principal condutor da narrativa. Em alguns momentos, surgem um mineiro e um terceiro observador. E o Cristo de Elqui aparece em primeira pessoa. Letelier consegue avançar sem confundir, com domínio técnico e fluxo narrativo.

O livro esbarra no realismo fantástico, mas Letelier não deixa os fatos romperem fronteiras – como o Dom Anônimo, um homem esquecido pelo tempo que varre o deserto. Eles próprios seriam tão mais fantásticos que o autor optou por ser o contador da história apenas.

a_contadora_de_filmesFunção que ele delega a uma garota em “A Contadora de Histórias”. Neste, a crítica social é mais profunda.

Uma família de mineiros costuma ir aos domingos ao cinema de um vilarejo. Uma crise reduziu os ganhos da família e o pai se viu obrigado a mandar apenas um dos seus três filhos ao cinema, com a contrapartida de que o espectador contasse a história depois.

Todos fazem testes. Vão ao cinema e contam, cada um com seu estilo, a história do filme. A Maria Margarita coube assistir “Ben-Hur”. Seu entusiasmo e empenho ao recriar a trama a levaram a ser a escolhida.

Assim, todos os domingos, Maria vai ao cinema e volta para contar a história. A contação de filmes chega aos ouvidos do vilarejo, que então transformam a pequena casa da família numa sala de teatro para ouvir Maria Margarita.

O leitor então é levado a acompanhar a decadência do vilarejo, a chegada de TV, a crise familiar, o início da ditadura de Pinochet, sempre pelo olhar de Maria. Letelier conduz a trama com delicadeza, mas sem escapar dos temas mais ásperos. A leitura se revela então recompensadora.

*****

“Voltou a pensar atenção no acampamento da meretriz.
Não conseguia acreditar naquilo que via.
Essa incredulidade levou-o a reconstituir alguns dos acontecimentos mais esquisitos de sua vida de profeta ambulante, e então concluiu que, de tudo aquilo que já vivera e vira ao longo de seus dez anos de penitência, aquilo era, de longe, o que de mais insólito havia lhe ocorrido: estar ali, no meio do deserto mais triste do mundo, sentado no alto de uma colina, esperando pelo sim de uma prostituta com uma determinação de santa, enquanto uma fila de machos com ela fornicava, um a um, ao som de um sino.”
(“A Arte da Ressureição”)

 

“Uma vez li uma frase – com certeza de algum autor famoso – que dizia algo assim como a vida está feita da mesma matéria dos sonhos. Eu digo que a vida pode perfeitamente estar feita da mesma matéria dos filmes.
Contar um filme é como contar um sonho.
Contar a vida é como contar um sonho ou contar um filme.”
(“A Contadora de Filmes”)

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