Comentário, Estados Unidos, Não ficção

“Todos os Homens do Presidente”, 40 anos depois, ainda atual

O jornalismo tem alguns livros que são míticos. “Fama e Anonimato” (Companhia das Letras), de Gay Talese, é um deles. “A Sangue Frio” (idem), de Truman Capote, “Hiroshima” (idem), de John Hershey, e “Despachos do Front” (Objetiva), de Michael Herr, são outros citados como obrigatórios em qualquer lista dos melhores livros de reportagens.

Todos_os_homens_do_presidente_capaMas talvez o mais icônico seja “Todos os Homens do Presidente” (Três Estrelas), de Carl Bernstein e Bob Woodward, recém-lançado com nova tradução e textos de Eugênio Bucci e Otavio Frias Filho, 40 anos depois da publicação original.

A trama por trás do livro é conhecida. É a história da investigação do caso Watergate, que acabou com a renúncia do presidente norte-americano Richard Nixon em 1974, feita pelos dois repórteres do “Washington Post”. O livro, entretanto, termina antes da queda de Nixon. Dois anos depois, os repórteres escreveram “The Final Days”, com a narrativa do fim do mandato do presidente.

O livro é narrado em terceira pessoa, como se Bernstein e Woodward fossem personagens e não atores principais. A opção induz credibilidade. Os relatos são minuciosos, à medida que as descobertas se avolumam. Como narrativa, os outros livros citados no início do texto talvez sejam mais representativos de alguma tentativa de inovação.

No caso deste “Todos os Homens do Presidente”, o seu valor está no que o caso representou para o jornalismo. Bucci e Frias Filhos explicam porque a investigação e, depois, o livro tornaram-se fundamentais para os padrões jornalísticos a partir daquele momento.

A leitura no início exige do leitor certa paciência com a profusão de nomes. Um índice na abertura do relato elenca os personagens e suas funções, o que ameniza o problema. Passado essas primeiras 50 páginas, o leitor então se vê imerso numa reportagem eletrizante, com personagens dúbios, esquemas mirabolantes e mal armados. Lê-se como um romance policial.

Robert Redford (Bob Woodward) e Dustin Hoffman (Carl Bernstein) em cena do filme inspirado no livro
Robert Redford (Bob Woodward) e Dustin Hoffman (Carl Bernstein) em cena do filme inspirado no livro

Alguns trechos são ironicamente muito semelhantes com o que foi dito num passado recente do Brasil, infelizmente.

“A teoria dele [Nixon] é que os meios de comunicação foram longe demais e a tendência tem de ser refreada.”

“Para ele, a questão não é nada mais nada menos do que a própria integridade do governo e a lealdade incondicional. Ele pensa que a imprensa o persegue e, portanto, é desleal; as pessoas que falam à imprensa são ainda piores, são inimigos internos ou algo assim.”

“Ora, tivemos uma longa sucessão de tal tipo de matérias apresentadas por esse jornal em particular, um jornal outrora tido como um grande jornal, mas eu sugeriria, como disse antes, que a tática jornalística aqui usada é sórdida e vergonhosa, é um extremo abuso do processo jornalístico.”

“A Casa Branca decidira que o problema era não a conduta dos homens do presidente, e sim a conduta da imprensa.”

Não, não é ficção. E talvez não seja uma mera coincidência. Fato é que Nixon renunciou e o jornalismo se fortaleceu após esse caso.

“Todos os Homens do Presidente” revela então um lado didático e, inesperadamente, atual.

Para quem assistiu somente ao filme estrelado por Robert Redford e Dustin Hoffman, vale reforçar que a frase “follow the money” foi um recurso dramático. Em nenhum momento ela é dita na reportagem.

*****

Sinapse

  • “Notícias do Planalto” (Companhia das Letras), de Mario Sergio Conti
Anúncios

3 thoughts on ““Todos os Homens do Presidente”, 40 anos depois, ainda atual”

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s