Apoio à leitura, Colaboração

Apoio à leitura: Biblioteca na catraca

Com o intuito de promover e revelar iniciativas que incentivam a leitura, o blog abriu a tag Apoio à leitura. Lá, posto essas ações de pessoas comuns, longe de iniciativa governamental, que de alguma forma tentam colocar os livros à disposição de leitores e possíveis leitores.

Desta vez, um cobrador de ônibus de Brasília montou uma pequena biblioteca no ônibus em que trabalha para emprestar livros. A reportagem é de Livia Cerezoli.

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Por Livia Cerezoli

O coletivo da linha 156.1, que realiza diariamente a viagem entre o Terminal da Asa Norte e o Guará 2, em Brasília, no Distrito Federal, transporta muito mais do que passageiros. O projeto social Cultura no Ônibus, desenvolvido pelo cobrador Antônio da Conceição Ferreira, oferece literatura de qualidade para quem depende diariamente do transporte público na capital federal.

O projeto começou em 2007, com três exemplares que Ferreira ganhou de uma passageira. Pode-se dizer que “Capitães de Areia”, de Jorge Amado, é o padrinho da iniciativa. “Foi depois de ler essa obra-prima que eu decidi compartilhar os livros com outras pessoas”, conta ele.

O envolvimento do cobrador com a leitura começou quando ele tinha 23 anos e chegou a Brasília, vindo do Maranhão. “Senti uma necessidade enorme de conhecer coisas novas para poder participar das conversas que ouvia pelas ruas da cidade. Foi assim que comecei a ler os jornais todos os dias.”

Hoje, aos 41 anos, e pai de dois filhos – a mais velha é sua filha de criação -, Ferreira não conseguiu cumprir o objetivo que o levou à capital do país: terminar os estudos (ele não chegou a concluir o 2º ano do ensino médio), mas se diz satisfeito com o que conquistou.

De três exemplares, a coleção de Ferreira já conta hoje com mais de 8.000 unidades. Todos os livros são doados por voluntários. A maioria são títulos de literatura, mas há também revistas e gibis. “Assim, agrado a todos os gostos.”

Para guardar todo esse volume, Ferreira aluga um cômodo perto de onde mora. Para pagar o aluguel de R$ 500, ele conta com a ajuda de dois voluntários. Dos R$ 787 que recebe por mês, R$ 200 vão para a manutenção do projeto. “Esse valor é alto para mim, mas a satisfação que eu sinto vale como recompensa”, afirma ele.

Os livros da coleção do cobrador são disponibilizados em uma pequena estante improvisada com material reciclável na entrada do ônibus. Os passageiros ficam à vontade para escolher o título que querem ler. No local, também há uma ficha de empréstimo que deve ser preenchida quando a leitura vai continuar fora do coletivo.

“Eu comecei trazendo os livros em uma caixa de papelão que ficava embaixo do meu banco. Muita gente perguntava o que era aquilo e foi assim que o projeto ficou conhecido. Depois, a empresa autorizou a colocação da estante”, recorda Ferreira.

Ousado, ele quer expandir o Cultura no Ônibus. O cobrador já apresentou um projeto que levaria os livros para 31 linhas do transporte coletivo da capital federal operadas pela empresa em que ele trabalha. “Tenho certeza de que vou conseguir esse apoio.”

Antonio, sua biblioteca e a leitora
Antônio, sua biblioteca e a leitora

E se depender de adeptos, o projeto deve mesmo crescer. A artista plástica Marisa Pereira Luiz, sentada na primeira poltrona do coletivo, abria as portas da pequena estante da biblioteca ambulante para descobrir o que tinha ali dentro. “Que coisa fantástica. Você pode emprestar livros para ler durante a viagem”, comentou ela com a moça tímida que estava sentada ao lado.

Olhou alguns títulos, mas não se aventurou pela leitura porque desceria no próximo ponto. De qualquer maneira, ficou satisfeita ao saber que o empréstimo pode ser feito para além da viagem. “Com certeza, da próxima vez vou escolher algum livro para levar para casa. Sempre pego esse ônibus e assim fica fácil devolver.”

Os exemplares podem ser retirados e devolvidos dentro do coletivo e também nos terminais do Guará 1, do Guará 2 e do Núcleo Bandeirantes. Ferreira diz que, mesmo que a devolução não seja realizada, o que vale é o livro ser lido. “Não importa se o exemplar não voltou para a estante do meu projeto. Quero é que ele circule entre as pessoas.”

Fã dos livros, o office-boy Rômulo Ramos Ximenes também conheceu o projeto no dia em que a reportagem estava no ônibus. “Sempre gostei de ler e acho essa iniciativa de uma importância extrema. Torço para que outras pessoas possam ter acesso”, afirma. Ele, que lia o romance erótico “Cinquenta Tons de Cinza”, de E. L. James, em pé, enquanto o coletivo sacolejava, acredita que ocupar o tempo com a leitura é uma das atitudes mais sábias. “O tempo que se passa no ônibus é, muitas vezes, grande devido às distâncias, e ler é saber aproveitá-lo bem.”

Na quase uma hora em que a reportagem esteve dentro do coletivo, Ferreira recebeu mais uma doação de livros para a sua coleção. “Olha só, acabei de ganhar novos exemplares. Um rapaz vai entregar os livros lá em casa. Essas doações sempre são bem-vindas. Assim, conseguimos fazer os livros circularem.”

Os interessados em realizar doações podem entrar em contato com o cobrador pelo telefone (61) 8139-2158. Ele também mantém o blog Cultura no Ônibus.

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