Brasil, Entrevista, HQ

Uma São Paulo vista por um peixe

Escrever e publicar atualmente não é mais um tarefa impossível para os comuns. Autofinanciamento, vendas pela internet, livro eletrônico são alguns dos recursos disponíveis para quem quiser se enveredar pelo mercado de livros.

Há também o chamado crowdfunding, uma forma de arrecadação do dinheiro de produção por meio de interessados no livro. Alcançado o valor mínimo, o título começa a ser produzido, impresso e distribuído. O Catarse é um dos sites mais utilizados do gênero.

A produção de quadrinhos se ancorou muito bem no esquema. A vantagem é que o dinheiro arrecadado vai todo para o autor, mas, por outro lado, o desgaste é muito maior.

O blog notou essa força independente na visita que fez ao FIQ BH no ano passado.

Capa_Peixe_Peludo2Até autores que já passaram por grandes editoras já experimentaram a plataforma. É o caso de Rafael Moralez e Rodrigo Bueno, que lançaram “Peixe Peludo 2 – O Herói da Raça” por meio do Catarse – a primeira parte saiu pela Conrad.

A história do “Peixe Peludo” se passa numa São Paulo caótica, por demais real, num centro da cidade tomado por todos os seus personagens característicos – prostitutas, mendigos, boêmios, drogados e outros tipos.

O peixe acorda às 5h, perdido em meio a uma ressaca, e tenta lembrar onde deixou seu trompete. Vai então iniciar uma busca pelo instrumento pelo centro de SP de bicicleta. Na jornada, vai se deparar com neuras, viagens, encontros inusitados e perigosos, numa representação quase surreal da cidade, em que sua geografia emerge perceptível.

Moralez, autor do texto, e Bueno, o desenhista, não são naturais da capital, o que ajuda a criar um enredo de impressões como observadores.

Os dois conversaram com blog sobre a HQ, a produção independente e o mercado. A conversa segue abaixo.

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Você é do interior de São Paulo e disse que SP é doente. Como reproduzir essas sensações para o texto?
Rafael Moralez: Sim, sou do interior (Piracicaba), mas moro em São Paulo desde 2002, um bom tempo já. Tenho grande carinho pela cidade, mas tenho uma relação meio esquizofrênica com ela, ao mesmo tempo que acho o maior barato tudo que ela te proporciona, é nítido que ela te tira muita coisa. Escrever sobre essa cidade é fácil, tem assunto de sobra, o complicado é viver nela. Sobre a cidade ser doente, é uma licença poética de minha parte… mas acho ela doente de verdade!
Rodrigo Bueno: Essa pergunta é muito boa! Só vivendo aqui, né não?

De onde surgiu a SP caracterizada no livro?
RM: O Rodrigo Bueno desenhou a cidade exatamente como ela é, o que já deixou a HQ com um baita cenário. Eu tentei reproduzir um pouco o sentimento de andar por essas ruas sozinho, reclamando da vida. O que todo mundo acaba fazendo uma hora ou outra por aqui. Sempre vejo gente falando sozinho na rua, acho bem interessante e tento ouvir o que dizem, mas geralmente falam baixinho, não dá para ouvir, e quem fala alto é louco de vez, daí não tem tanta graça. O legal são as pessoas ditas “normais” tentando esconder a loucura.
RB: De uma necessidade de compreender o espaço, a arquitetura, a geografia e o caos. Uma necessidade de representar a vida interna de uma pessoa que vive aqui.

O preto e branco foi uma opção econômica ou artística?
RM: Foi uma opção artística, ainda mais para retratar a cidade de São Paulo, que é meio cinza. A cor faria perder o peso que queríamos dar a história. Nesse segundo número optamos por deixar o quadrinho o mais escuro possível.
RB: Uma coisa leva a outra. Economia, com certeza. Menos é mais.

Como foi o trabalho com o parceira? O roteiro foi apresentado pronto ou foi um trabalho em evolução conjunta?
RM: Geralmente escrevo tudo e depois discutimos para ver algum tipo de acerto, ou desenvolver mais algumas partes. Mas não alteramos muita coisa não, é bem livre o que cada um faz.
RB: Não temos uma organização muito boa, um método… A gente vai trocando ideia, joga umas coisas fora, pega outras, corta aqui, costura, faz um enxerto…

A HQ conseguiu se financiar 100% no Catarse – na verdade, 114%. Por que a opção pela publicação independente?
RM: Acho a opção independente a grande saída para o mercado de quadrinhos, cada vez mais acredito menos nas editoras. Já temos uma cena de quadrinho independente por aqui, embora não façamos parte dela, não curto muito, acho uma panelinha chata!
RB: O mais legal dessa opção foi a experiência que tivemos. Tudo tem seus prós e contras, mas só vivenciando o processo para saber como é.

Você já tem a terceira parte concebida? Pretende continuar no Catarse?
RM: Tem uma boa parte escrita e ainda não sabemos se vamos fazer outro catarse. Dá um trabalho grande, embora seja um processo muito interessante por envolver o leitor na produção do projeto.

O crowdfunding é a melhor forma de divulgar a produção de HQ hoje?
RM: É um jeito de viabilizar uma publicação, mas para divulgar tem que correr atrás de outras mídias ou correr atrás de eventos de quadrinhos e afins… …não tenho paciência para isso.
RB: É uma possibilidade interessante. Mas tem que ter muita disposição e responsabilidade.
pag25Como você avalia o desempenho das duas partes de “Peixe Peludo”? Em termos de retorno, reconhecimento, fãs.
RM: No primeiro, nos saímos muito bem, tivemos uma atenção muito boa, fomos indicados em três categorias para o prêmio HQ Mix, o que gerou muito interesse para a segunda parte e consequentemente nos ajudou a conseguir colaboradores para o Catarse. Temos ouvido boas críticas sobre o segundo número, acredito que encontramos nosso público e estamos felizes por isso.

Quais autores independentes você destaca hoje? Ou você realmente não é um leitor de HQs, como diz na orelha do livro?
RM: Não sou um leitor de quadrinhos, raramente leio HQs, mas tenho dois amigos que gosto muito do que fazem, que são o Ulisses Garcez e o João Victor Rabello. Tem o Caeto também. Mas geralmente acho quadrinho um saco!
RB: O Marcatti é meu herói!

Como foi o trabalho de escrever uma HQ então? De onde vieram suas inspirações?
RM: A esquizofrenia de novo… .Não gosto de ler quadrinhos, mas gosto de fazer quadrinhos. Não escrevo pensando em HQ, apenas escrevo porque gosto. Talvez isso que torne o Peixe um pouco diferente. Sobre inspiração, a cidade esttá aí fritando de coisas acontecendo, a realidade é uma baita fonte!

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Para adquirir a HQ, acesse a página do Facebook, lá surgirão os caminhos para a compra.

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