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Alexandre Vidal Porto: “A relação satisfatória com a própria sexualidade surge como requisito da felicidade”

82550907No final de uma manhã, surge a mensagem no bate-papo do Facebook, de uma amiga que ora fala “uai” ora fala “oxe”. Queria meu endereço, pois Alexandre Vidal Porto gostaria de me enviar seu novo livro, “Sergio Y. Vai à América” (Companhia das Letras).

Dias depois, chega em casa a encomenda, com um simpático bilhete escrito à mão pelo autor e diplomata, uma gentileza rara nestes dias de comunicação digital.

Deparo-me então com seu segundo livro – o primeiro é “Matias na Cidade” (Record) -, vencedor do Prêmio Paraná de Literatura e, como vim a descobrir depois, uma leitura compulsiva.

Li suas 184 páginas em apenas uma noite. É um típico “page turner”, em que parar está fora do vocabulário.

Eis a trama. Sergio é um rapaz de 17 anos, infeliz e sem motivo para isso – estuda, tem conforto financeiro, pais atenciosos. Indicado por uma professora, inicia uma psicoterapia com Armando, um médico vaidoso e bem sucedido.

No final de ano, Sergio viaja para Nova York com sua família. Na volta, diz para Armando que se encontrou e que não precisa mais da terapia. Tempos depois, Armando encontra com a mãe de Sergio em um supermercado e descobre parte do destino do rapaz.

Mais não se pode revelar, sob pena de arruinar a experiência. Pode-se acrescentar que Armando, atingido pelo golpe do não saber, empreende uma busca obsessiva a Sergio, tal qual Ahab e sua Moby Dick. E que o tema sexualidade é fundamental para o desenvolvimento da história.

O leitor terá pela frente algumas surpresas, mas nada de reviravoltas mirabolantes na trama. Os fatos surgem como consequência da narrativa, sem querer causar choque ao leitor. São atos contínuos.

Alexandre Vidal Porto conversou com o blog sobre o livro, motivações e ideias. A seguir, a entrevista.

*****

Apesar de você revelar o sobrenome do protagonista, optou por descrevê-lo como Sergio Y. Por que?
“Sergio Y.” é a maneira como o narrador, Armando, se refere a seu paciente Sergio Yacoubian. Não mencionar o nome completo do paciente é um protocolo ético que ele, como médico, procura seguir. A intenção é proteger a identidade de quem confiou sua intimidade a ele.

Como chegou ao tema e às histórias do livro?
Quando comecei a escrever “Sergio Y Vai à América”, tomei elementos emprestados de dois contos inacabados que eu tinha. Um sobre uma psicoterapeuta em São Paulo e outro sobre um transexual em Madri. A história tomou rumos diferentes, mas o DNA da narrativa vem daí. A inspiração do livro veio da leitura de um poema (“Crossing Brooklyn Ferry”) de Walt Whitman. No poema, Whitman se dirige às pessoas que farão a mesma travessia de balsa que ele fazia diariamente (entre Brooklyn e Manhattan) e experimentariam os mesmos sentimentos  que ele experimentava ao fazer a travessia. Décadas depois, Fernando Pessoa respondeu a “Crossing Brooklyn Ferry” com seu poema “Saudação a Walt Whitman”. A possibilidade de diálogo entre as gerações é um dos temas centrais do livro e surgiu da leitura dos poemas..

As surpresas surgem no livro de forma natural. Como foi preparar a narrativa desses clímax?
Acho que a interação entre os personagens –Sergio, Sandra, Cecília, a família Yacoubian e Armando, basicamente-  vai construindo o clímax da história. O meu foco são os personagens. Deixo-os interagir e crio a narrativa de acordo com a relação que eles desenvolvem entre si.

2ffa8426261a7e89fdc72875a3f9e6a4Matias, de seu primeiro romance, também está à procura de algo que mude sua vida. Já Sergio não sabia dessa procura, apesar de sua infelicidade, mas a descobriu em um livro (“Angelus”) e uma viagem. Como Matias e Sergio se relacionam – se é que podem se relacionar?
Matias e Sergio têm um ponto em comum, que é a insatisfação. No entanto, a relação desses dois personagens com a insatisfação é antagônica. Sergio tem consciência de sua infelicidade. Matias, não. “Matias na Cidade”, meu primeiro livro, fala de covardia. “Sergio Y. Vai à América” fala de coragem.

Você escreve sobre psicoterapia e um lapso que Armando admite ter cometido. A psicoterapia foi um recurso dramático ou houve a intenção de trazer o assunto para o debate?
Não teria competência para debater psicoterapia seriamente. A psicoterapia foi só um recurso dramático, um simulacro.

É possível traçar um paralelo de Ahab com Armando, religiosidade e sexualidade?
Li “Moby Dick” há muitos anos. Do que me lembro, Ahab é mais impulsivo e seguro em sua obstinação (de matar a baleia). Armando é muito mais prudente em sua luta (para entender o que se passou com Sergio Y.)

Identidade e fronteira são questões que permeiam seu livro e a sexualidade tratada no texto. Como essas questões emergem em Sergio e Armando?
Em Sergio Y., a afirmação da identidade sexual é o elemento redentor, o que possibilita que ele seja feliz. Para Armando, a questão da sexualidade aparece no desejo que ele sente por Cecilia e que reprime por dever profissional. Minha ênfase, no entanto, recai mais sobre a questão da identidade que sobre a questão sexual.

O livro foi escrito em qual cidade? Quanto tempo demorou para escrevê-lo?
O livro foi escrito em várias cidades pelo mundo: Cidade do México, Washington, Brasília e Tóquio. Levei uns quatro anos trabalhando o texto até apresentá-lo a editoras.

Na entrevista que deu à “Folha”, você diz que o livro é um tributo a Nova York, a cidade onde se encontrou. O que significa então São Paulo, para onde você retornou para escrever o terceiro romance?
São Paulo é a cidade de minha infância e de minha adolescência. Nasci aqui, deixei a cidade com 18 anos e retornei para cá 30 anos depois. É como voltar ao passado com o conhecimento que tenho hoje.  Em São Paulo, tenho amigos, conheço a geografia, consigo operar melhor.

Você diz que vai voltar ao tema sexualidade no novo livro. O quanto esse tema é importante para você?
O tema da sexualidade é bem importante para mim. Tive um processo demorado de aceitação da minha orientação sexual. Tive muito tempo para pensar no assunto. Acho que, por isso, para os meus personagens, a relação satisfatória com a própria sexualidade surge como requisito da felicidade. Até o momento, nos meus dois livros, tratei o tema do ponto de vista masculino. Agora, tenho a intenção de explorar a questão do ponto de vista das mulheres.

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