Brasil, Entrevista, Memórias

Eliane Brum: “Escrever sempre é uma entrega profunda e perturbadora”

Eliane Brum abriu seu caminho ao dar espaço aos invisíveis, anônimos que habitam as cidades e os campos e que raramente têm voz. Com sensibilidade e uma prosa elegante, suas reportagens podem ser consideradas capítulos de uma história oral que o Brasil ousa em não ouvir.

Autora das coletâneas de perfis e reportagens “A Vida que Ninguém Vê” (Arquipélago) e “O Olho da Rua” (Globo), em 2011, lançou sua primeira ficção, o romance “Uma Duas” (Leya).

Meus desacontecimentosAgora, caminha por espaço autobiográfico em “Meus Desacontecimentos” (Leya), recém-lançado. O subtítulo entrega o que se trata e revela o recorte: “A história da minha vida com as palavras”.

Então sabemos que não temos em mão uma autobiografia tradicional. Eliane rememora sua vida baseada numa espinha dorsal: o ato de ler e escrever, as palavras. Família, a maternidade aos 15 anos, o preconceito na pequena cidade gaúcha, tudo isso aparece no texto, mas de forma periférica. O importante para Eliane Brum é buscar sua identidade nas palavras.

A jornalista conversou com o blog para falar do seu livro e do ato de escrever. Leia a seguir.

*****

Após seus livros de reportagens e o primeiro romance, você lança um recorte autobiográfico. O que a motivou a fazer essa reflexão? 
Esse livro tem dois momentos. Em 2011, eu tive minha maior crise com a palavra escrita, após uma reportagem particularmente brutal. Pela primeira vez, paralisei. Por duas semanas, não consegui escrever, o que para mim é muito desestabilizador, porque elaboro e dou sentido ao que vivo escrevendo. Naquele momento, a dor não virava palavra, e eu caí num buraco fundo. Quando consegui retomar a escrita, marcada por essa experiência, fiquei obcecada pelos sentidos da palavra na minha vida. Comecei um processo interno de interrogação, e o livro mudou de rumo. Naquele momento eu queria investigar como a palavra me deu um corpo que me permitiu viver. “Meus Desacontecimentos” é a história de como fiz um segundo parto, pela escrita. Esse livro é o meu corpo de letras.

Em quanto tempo escreveu o livro? 
Escrevi em duas etapas. Na primeira, identifiquei as pessoas que, com suas pequenas delicadezas ou brutalidades, às vezes os dois, me levaram à descoberta da escrita. Após a minha crise com a palavra, retomei o livro e decidi que precisava ter a coragem de mergulhar muito mais fundo. Escrever sempre é uma entrega profunda e perturbadora. Escrevo primeiro dentro de mim. Só vou para o computador quando a história já transborda, quando é impossível mantê-la nas fronteiras invisíveis de dentro. Tenho uma relação muito particular com a escrita e o corpo, como fica claro em “Meus Desacontecimentos”.

No livro, você escreve que se preocupa com os personagens, com a vida que está sendo retratada através de você. Como foi lidar nessa obra com personagens familiares? Como foi lidar com você na hora de se retratar?
Faço um percurso pelas memórias de infância para compreender a escrita em mim – e também para reinventar os sentidos dessa escrita neste outro momento da minha vida. Precisei buscar a menina, mas só posso buscá-la como a mulher que sou hoje. Deixo muito claro, logo na abertura de “Meus Desacontecimentos”, que este é o meu olhar sobre as pessoas e sobre os episódios, um olhar trespassado pela singularidade da minha experiência e pelas marcas que carrego. Memória, para mim, não são fatos, mas fragmentos com os quais construo um corpo a partir da atribuição de sentidos. Assim, a memória não é estática, mas um movimento de constante indagação e recriação. Como escrevo ali, neste livro sou aquela que nasce, mas também sou a parteira. Não sou uma escritora do tipo que planeja cada capítulo, que sabe exatamente o que vai escrever, como vai começar e como vai terminar. Sou mais como uma aranha que vai construindo uma teia por instinto, mas nesta teia eu também sou a presa.

Foto: Lilo Clareto
Foto: Lilo Clareto

O cineasta Domingos de Oliveira disse numa entrevista que “escrever é fácil, basta sentar e rasgar o peito com uma faca”. É fácil assim para você? O que a impulsiona e a retrai no ato de escrever?
Acho que rasgar o peito com uma faca não é nada fácil. Eu, ao contrário, escrevo para estancar o sangue, já que sangrar é a minha condição primeira. Só vivo porque escrevo. Talvez, em algum momento, tenha de me arriscar à experiência de viver sem inscrever a vida em palavra. Talvez descubra que posso viver, afinal, sem estar com as unhas cravadas nas letras.

Num trecho do livro, você diz que a revisão que fazia era um momento transtornador. Como foi o processo?
Este livro é, como disse antes, meu corpo de letras. Escrevê-lo foi, ao mesmo tempo, me assegurar de um corpo, mas também construir outro. Em determinado momento comecei a me perder dos meus contornos, ainda sem conhecer bem os limites físicos da mulher que eu passei a ser depois dessa experiência de escrita. Tive vários acidentes domésticos. Tenho uma literalidade que consigo superar na escrita, mas que, ao mesmo tempo, escapa da escrita.

Você escreve: “É só como história contada que podemos existir.” Em algum momento você se sentiu invisível?
Não há vida sem narrativa da vida. Passei alguns anos à margem de mim mesma, na adolescência e nos primeiros anos de maternidade. Foi o momento em que me perdi da escrita, como conto no livro. As palavras estavam silenciadas, trancadas em mim. Eu estava tomada pela realidade do corpo, invisível para mim mesma. Foi um longo percurso até conseguir fazer o movimento de me tornar visível pela palavra. Isso acontece junto com a descoberta da reportagem. É quando passo a me mover pela pergunta que até hoje é a mesma: como cada um inventa uma vida, em geral nu e com tão pouco. Neste livro, inverto o sentido, e faço a pergunta para mim mesma. Não como repórter de mim, porque isso não seria possível. É um outro lugar, também de investigação, mas de dentro para dentro.

No release e nos textos de divulgação, o livro é descrito como feito sem pudor e por uma escritora que se apresenta nua ao leitor. Mais: quase em sacrifício. Houve essa necessidade de se desnudar? De se doar, no caso do sacrifício?
Não seria possível escrever esse livro sem me desnudar. Se eu buscava os sentidos da palavra na minha vida, não poderia trair esse percurso com um pudor. Quando “Meus Desacontecimentos” desembarcou nas livrarias e começaram os lançamentos, foi mais difícil do que eu imaginava que pudesse ser. Me senti excessivamente despida. Não só das minhas roupas, mas também da minha pele. Nesse sentido, foi o livro mais difícil no momento de entregar ao leitor, já que a partir da publicação o livro não é mais meu.

Hoje, o que mais lhe interessa, ficção ou reportagem?
Não há hierarquia. Tenho muitas vozes. E preciso de todas elas. Nunca me passou pela cabeça deixar a reportagem para me dedicar só à ficção. Pelo menos nunca cogitei isso até hoje. Mas também hoje me parece impossível deixar a ficção e voltar a fazer apenas reportagem. Assim como existe ainda essa outra voz nos artigos ou ensaios de opinião. E há ainda essa escrita de “Meus Desacontecimentos”, que não saberia como classificar nem desejaria classificar. Estou me ampliando, cada experiência de escrita me exige uma voz diferente, com um processo e um movimento diversos. É assim que funciona para mim.

Entrevistei a jornalista portuguesa Alexandra Lucas Coelho, que me disse: “A ficção não me interessa em nada, só o real”. Para ela, só há diferença entre jornalismo e literatura. E para você, como se dá essa relação?
Escrevi meu primeiro romance ao descobrir que há realidades que só a ficção suporta, realidades que precisam ser inventadas para que possam ser contadas. Para mim, portanto, a ficção é bem real. Acredito que a vida de cada um de nós é nossa primeira ficção. Este, aliás, é o título que abre meu livro. Mas ficção não como uma mentira, jamais como uma mentira. E sim como criação de sentidos, sem os quais não haveria narrativa. E, em última instância, vida humana. A capacidade de inventar uma vida, ao meu ver, é a beleza pungente do humano. Isso me interessa como repórter e me interessa também como ficcionista, deixando bem claro que o movimento para fazer reportagem é totalmente oposto ao da ficção.

Como foi a transição da jornalista para a escritora em “Uma Duas”? 
Não foi uma transição, foi uma ampliação. Como repórter faço o movimento de me desabitar para me deixar habitar pelo outro, um movimento em que preciso estar muito presente, mas, ao mesmo tempo, entregue à experiência de um outro ser e estar no mundo. Na ficção, preciso ter um outro tipo de coragem, a de me deixar possuir pelos outros que vivem nos meus abismos. Ambos os movimentos exigem uma entrega profunda, mas são bem diferentes.

O que a atrai no jornalismo hoje? 
O que sempre me atraiu, a possibilidade de escutar vidas, perambular por geografias humanas.

 

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