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A vergonha de um rei – A biografia de uma biografia

“Inicialmente, o magistrado marcara a sessão para sexta-feira, 13 de abril – conforme chegou a ser publicado no expediente judiciário. Roberto Carlos solicitou, porém, a mudança de data. Como o próprio artista admite, tem superstição com o número 13, se sempre que possível o evita (…) A data da audiência foi então reagendada para uma outra sexta-feira, 27 de abril.”

“Ele chegou acompanhado da secretária Maria Carmosina da Silva, a Carminha, e de seus segurança pessoais, e foi recepcionado pelos policiais no estacionamento. Dali foi direto para uma entrada pelos fundos do prédio, evitando os fãs e jornalistas que já o aguardavam na porta principal. Sorridente, acenava para as pessoas, enquanto era conduzido a um dos elevadores que, por dez minutos, ficou reservado exclusivamente para ele.”

12789_ggAssim começa “O Réu e o Rei” (Companhia das Letras), a história dos bastidores do livro “Roberto Carlos em Detalhes”, a biografia escrita por Paulo Cesar de Araújo e censurada pela Justiça depois de ação promovida pelo cantor.

Este livro talvez seja o grande lançamento do ano, por desvendar aquele que seria um mito e todas as suas artimanhas para satisfazer sua vontade. Neste seu novo título, Paulo Cesar elimina quaisquer dúvidas e cutuca a ferida com vontade.

A mudança de data por superstição e o elevador exclusivo num fórum criminal são apenas pérolas na ponta do iceberg. Roberto Carlos conta com um país de babões, sempre prontos a atender suas ordens travestidas de pedidos.

O juiz que julgou o caso distribuiu CDs ao final da audiência, tirou fotos com o músico e ameaçou a editora Planeta de fechamento. Como conclusão, a biografia foi banida das livrarias e 10 mil exemplares foram transferidos para um armazém – ainda não se sabe se foram queimados, reciclados ou se ainda adormecem apodrecidos em meio a traças.

Paulo Cesar conta como começou seu envolvimento com Roberto Carlos, ainda criança em Vitória da Conquista, interior da Bahia, como fã e comprador de seus discos. Evolui para a faculdade de jornalismo, quando começa uma pesquisa da música popular brasileira e sai a campo para entrevistar os principais nomes do gênero – Tom Jobim e Caetano Veloso entre eles.

Se o primeiro e segundo capítulos sãos lentos, a partir do terceiro, quando ele conta como foi o projeto de entrevistas, o livro ganha ares de thriller. As histórias que envolvem João Gilberto, suas inúmeras conversas e os encontros já valeriam o livro. Ainda tem Tim Maia, que, após dar furo em três encontros, oferece à equipe de gravação uma trouxa de maconha antes de subir ao apartamento – “para vocês se divertirem”.

Nesse momento, Paulo Cesar já começou a peregrinação à entrevista com Roberto Carlos. Por 15 anos, ele tentou conversar com o cantor, sem sucesso, conseguiu apenas encontros em coletivas e camarins. O escritor destaca que nunca ouviu um “não”, apenas adiamentos e desculpas.

imagemPesquisador da música brasileira, Paulo Cesar tem hoje talvez um dos maiores acervos da história dessa MPB. Sua pesquisa foi séria e rendeu, além da biografia de RC, o livro “Eu Não Sou Cachorro Não” (Record), em que analisa o brega nos anos 70 e a censura que sofreu da ditadura militar.

Nada disso pareceu ter convencido RC de que o trabalho era sério. Por 15 anos, ele soube que uma biografia estava sendo escrita e nada fez. Ao final, com o livro publicado, resolveu arregaçar as mangas e convocar advogados para tirar o livro de circulação.

O método empregado foi chamado de “plano de guerra” pela equipe de RC. Entre as armas, pedido de prisão do autor, multa e o sumiço com o livro. Na sessão de conciliação, foi proposto que o autor nunca mais falasse em público do livro, algo que ultrapassaria a distopia imaginada por Ray Bradbury em “Fahrenheit 451”. Até o juiz amigo e cantor percebeu que isso seria um absurdo.

Mas teve também artimanhas dignas do mais baixo nível, como alterar o conteúdo da biografia no documento entregue ao juiz. Isso passou em branco, RC e equipe não foram importunados por esse “deslize”, algo que em qualquer país sério resultaria em prisão.

O pesquisador Paulo Cesar de Araújo
O pesquisador Paulo Cesar de Araújo

Paulo Cesar narra toda essa história com distanciamento. Evita julgamentos e ilumina a história com fatos. RC sempre defendeu que sua história é seu patrimônio e que pertence somente a ele. Justificou o pedido de suspensão da biografia com o argumento de que o livro expunha sua vida íntima.

Ao que Paulo Cesar rebate com categoria neste “O Réu e o Rei”. Não somente suas letras ao longo da carreira expuseram sua vida íntima como todos os fatos narrados no livro – o acidente que mutilou sua perna, as mulheres, relações com fãs – foram pesquisados e tirados de entrevistas dadas pelo próprio cantor a diversos veículos de imprensa.

Emerge do livro um RC mimado, cercado de gente que apenas faz suas vontades, apoiado por pessoas que desligaram o senso crítico. Como Rita Lee disse numa entrevista à “Rolling Stone”, lembrada no livro: “Roberto Carlos é muito mimadinho, cheio de ‘não me toques’, às vezes dá vontade de dar um ‘tapão’ na orelha dele”. Mais do que mimado, é incoerente. É dele o texto de apresentação de uma biografia não autorizada de Frank Sinatra, “Sinatra: Romântico do Século 20”, em que derrama elogios ao texto.

Paulo Cesar quis fazer deste “O Réu e o Rei” uma espécie de autobiografia, as suas memórias, que obrigatoriamente passam pela sua relação com RC, não só por causa do processo que sofreu, mas principalmente por conta da sua relação de fã que sempre manteve com o músico.

O leitor tem em mãos muito mais do que isso. O livro em suas 520 páginas é um monumento à liberdade de expressão, muito bem escrito e conduzido. Lê-se com voracidade, não só por conta das boas histórias narradas, mas porque o caso de censura beira o surreal.

1060_Livro_roberto_carlos_em_detalhesO pesquisador tem esperança. Lá na página 265, ele escreve: “São erros a serem corrigidos na próxima edição”, ao se referir à omissão de nomes na bibliografia e ao erro na data de casamento de RC com Maria Rita.

O livro chega à piada do Procure Saber e à implosão do grupo. Diz que seus integrantes não podem ouvir falar no nome de RC. Apresenta o caso da lei que está no Congresso e em debate no STF.

Fundamental para o Brasil, “O Réu e o Rei” está, segundo entrevista do escritor ao R7, sendo analisado pelos advogados do cantor. Há uma ameaça no ar, mais um tiro no pé de RC. Até agora, é só uma nuvem. Mais um livro que RC não leu, ele que afirmou que não lê e não gosta de ler – as exceções seriam “O Pequeno Príncipe” e a Bíblia.

Enquanto o Brasil for essa terra em que reis merecem tratamento literais, sem senso crítico, obras como “Roberto Carlos em Detalhes” serão sempre queimadas. Pessoas como RC terão sempre privilégios que os distingue de qualquer cidadão.

“O Réu e o Rei” emerge então como uma tentativa de realocar as peças, um grito sufocado que ganhou voz e se torna um documento valiosíssimo para a história do Brasil.

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10 thoughts on “A vergonha de um rei – A biografia de uma biografia”

      1. Assim como o Paulo Cesar, me considero de certa forma um fã do RC. Cresci com suas canções, sempre ouvidas por tabela por causa dos meus pais. Depois, por conta própria, me interessei nos discos mais antigos, no estilo mais “rock ‘n’ roll” de cantar até os anos 70, e em canções que foram esquecidas ou renegadas nos repetitivos especiais da Globo. Uma questão que me intrigou acompanhando a repercussão do caso “Em Detalhes” é, justamente, até que ponto toda a babação de ovo em torno do “rei” aliada à sua explícita falta de senso de realidade podem ter destruído sua criatividade. Um artista que legou canções que, goste-se ou não, fazem parte do imaginário popular, hoje tornou-se um cover de si mesmo. Enquanto isso, o próprio Erasmo Carlos busca se reinventar, só para ficar no exemplo mais próximo.

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      2. Críticos dizem que de meados dos 80 até hoje RC não fez mais nada que prestasse. Boa parte desse tempo coincide com o aumento do cerco sobre sua vida. Coincidência ou não, o fato é que ele vive do que fez há mais de 30 anos.

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  1. Ainda não li esse livro, mas lembrei agora de uma biografia de Salinger, Em Busca de J.D. Salinger, se não me engano de um jornalista chamado Ian Hamilton (tenho o livro em casa), em que o autor reconstitui sua imensa frustração por não ter conseguido escrever o livro que gostaria, já que o velho Jerome moveu o céu e a terra para proibi-lo. Vale a pena ler, embora não lembre mais de detalhes dele.

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