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“Nunca haverá um retorno. Foi bom do jeito que estava”, diz biógrafo do Smiths

O jornalista Thiago Pereira, autor do blog Material, entrevistou Tony Fletcher, autor da biografia do The Smiths, “A Light That Never Goes Out” (Best Seller). Antes, ele faz uma introdução memorialística e reverente.

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Uma banda que não lançou um disco ruim – os xiitas podem falar que não lançaram UMA MÚSICA sequer ruim. Uma reunião de amigos que, ao contrário do que cantaram, pareciam conseguir paz, amor e harmonia, de verdade. Um rockstar comum, espontâneo, não estudado. Um guitar-hero satisfeito em ficar em segundo plano. Uma banda que cultivava valores muito caros, principalmente no pouco virtuoso e espiritual circuito do rock…

Os mitos são construídos, geralmente, com superlativos, “estórias” que se fundem em histórias. O mito é o lugar da Grandeza, assim mesmo, em maiúscula. Independe do factual, do acontecimento acontecido, do real; é o lugar do onírico.

Bem, os Smiths foram um mito. Foram um sonho que a gente teve e continua tendo, desde que aquela bateria sequinha anunciou os primeiros versos de “Reel Around The Fountain“, em 1984, e que, ainda hoje, soam impressionantemente, hum, reveladores. A banda se tornou uma espécie de crença universal (entre seu séquito de seguidores) que dispensa, na maior parte do tempo, a construção de uma questãozinha bem simples: a verdade.

15057047Ou pelo menos uma versão muito bem construída dela. E essa foi a missão central- cumprida com méritos – de Tony Fletcher na biografia “A Light That Never Goes Out” (Best Seller).

O título da obra  é sintomático por jogar luz sob a luz, iluminar alguns cantos escuros , como as infâncias em Manchester, a relação Morrissey/Johnny Marr; o uso de drogas por parte de Andy Rourke; a obsessão com a fama, o sucesso e o dinheiro; a desconfiada aliança com Geoff Travis, da Rough Trade; a (a)sexualidade de Morrissey; as alianças internas e cambiáveis no grupo; a gênese de algumas obras-primas e, finalmente, o frustrante e, sinceramente, patético fim do grupo.

O livro cumpre também um dos papéis mais importantes de biografias musicais, que é servir como tradução do que realmente importa, as canções, a obra do grupo. Fletcher não deixa muito espaço para fofocas; ou melhor, não deixa espaço para percebermos os fatos ocorridos como fofocas, através de excelente apuração e um texto apaixonado, mas objetivo. Tudo que está escrito parece se relacionar intimamente com o curto e eterno legado artístico do grupo.

Em suma: quer entender de onde vem o ódio em “The Headmaster Ritual”?  O arranjo barulhento de “The Queen Is Dead”? Como Marr montou o clássico riff introdutório de “How Soon Is Now?” ? O que Moz quis dizer com a, digamos, científica “Some Girls Are Bigger Than Others”? Está tudo no livro, uma espécie de bíblia smithiana, que mapeia os caminhos mitológicos do grupo com perfeição.

Talvez o maior favor que Fletcher fez aos fãs e admiradores seja ter construído uma obra que, mais do que impressionar pela parruda pesquisa, pelo texto brilhante, pela apuração cuidadosa e pelo interesse geográfico e histórico, consegue “destruir” alguns mitos para fazer nascer um outro, ainda maior e mais factível, digamos assim.

É uma coisa muito engenhosa: mesmo expondo com crueza e precisão alguns dos “podres” das internas no grupo, ainda assim Fletcher consegue manter a aura, o poder de atração e o valor de culto que inscreve os Smiths como um dos GRANDES.

Quando penso na importância dos Smiths, sempre me lembro de uma irônica e agridoce coincidência que eles partilham com outras das maiores bandas da história da música pop.  “I Won´t Share You”,  a última faixa de “Strangeways, Here We Come”, último disco de inéditas do grupo,  funciona para o quarteto inglês como “The End” ( “E no final o amor que levas é igual ao que deixas“), ou “Oh! Sweet Nuthin” ( “O doce nada…Você ainda não conseguistes nada“) ou “Riders On The Storm” ( “Nesta casa fomos criados/Neste mundo fomos jogados/Como um cão sem um osso/Um ator atuando sozinho“) funcionaram para os Beatles, o Velvet Underground e os Doors, respectivamente.

É aquele epitáfio, que, intencionalmente ou não, resume de certa forma a passagem desses grupos por aqui. E se a frase no túmulo dos Fab Four dizem muito da amorosa missão deles por aqui; se o recado final de Lou Reed transcreve o status perseguido por sua banda durante o tempo que durou e a revelação solitária de Morisson quase explica seu fim, sua incompreensão com a vida, a canção dos Smiths se arquiteta sobre um tema perfeito para (os fãs da) banda.

“Life tends to come and go
That’s OK
As long as you know
Life tends to come and go
As long as you know
Know, know, know, know, know
Know, know, know, know
Oh …I won’t share you, no

I won’t share you
I’ll see you somewhere
I’ll see you sometime
Darling …”

O verbo usado por Morrissey, “compartilhar”, ganha mais peso ainda se pensarmos no que foi, no que significou a banda que ele criou com Johnny Marr em um encontro quase romântico no início dos anos 1980. Num mundo tão “compartilhável” como o de hoje, a afirmação de Morrissey na faixa não poderia ser mais sintomática: os Smiths, para seus fãs, eram uma banda não compartilhável: era uma paixão única, de extremo pertencimento, que os fariam lutar contra o resto do mundo por isso.

Andy Rourke, Morrissey, Johnny Marr e Mike Joyce, o The Smiths
Andy Rourke, Morrissey, Johnny Marr e Mike Joyce, o The Smiths

Cada fã tem alguma história, alguma batalha pessoal vencida em nome do grupo. Me lembro de uma entrevista de Brett Anderson, do Suede, para Tony Parsons, em que ele dizia: “Eu realmente sentia que os Smiths eram uma armadura para me ajudar a enfrentar a vida. Eles tinham um poder e uma presença que não se limitavam a um cara afeminado se oferecendo com flores que saíam do bolso de trás. Era muito mais sexual, mais sinistro  e muito mais real que isso. Os machões do mundo o detestavam e tentaram atacar seus pontos fracos. Mas para mim eles não tinham pontos fracos”.

(E me lembro também de eu mesmo ser um moleque de 13, 14 anos, exibindo para os meus amigos metaleiros as coletâneas da banda. Ou quando descolei uma camiseta do grupo na extinta e saudosa Pop Rock, ali no Centro de BH. ”Coisa de viado”, me diziam, em tom, mais ou menos, de brincadeira. O que será que estes putos achariam disso aqui hoje? Eles tinham Venom, Morbid Angel ou Deicide no lado deles. Mas Morrissey e Marr estavam do meu. E para mim eles também não tinham pontos fracos. E, assim como Fletcher, ainda vejo a banda como “a light that never goes out”.)

E Fletcher não “trapaceia”: assume que também é um grande admirador dos Smiths,  e que foi este o combustível, mais do que a curiosidade jornalística, para tecer a obra. Particularmente, como leitor, prefiro assim.

Generosamente,  ele compartilhou conosco seu amor pela banda.

Tony Fletcher, o autor da biografia do Smiths
Tony Fletcher, o autor da biografia do Smiths

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Um aspecto que se destaca no início do livro é a análise histórica que você fez de Manchester. Desde o início da construção da obra , você suspeitou de que você tinha que desvendar Manchester para desvendar os Smiths ?
Sim. Manchester é uma cidade musical única , e eu tinha a sensação de que muitas pessoas , especialmente (mas não meramente) fora do Reino Unido, não sabiam muito sobre a sua história. Eu queria entender o papel que  Manchester tinha, através da Revolução Industrial, na diáspora irlandesa, e na história musical antes da formação dos Smiths .

É impressionante pensar que hoje em dia, muitas vezes, a gerência ou o empresário é tão ou mais importante do que a própria banda, e como um grupo como os  Smiths (obviamente pessoas que sabiam da importância dessa operação) não soube lidar com isso. É essa ausência de uma gestão mais forte o grande pecado na trajetória do grupo? Por que você acha que eles lidaram muito mal com essa questão?
Em primeiro lugar, sempre houve gestores empresariais que eram tão importantes quanto o artista: pense em Coronel Tom Parker com Elvis, ou Brian Epstein com os Beatles, Andrew Loog Oldham com os Stones, em seguida, Malcolm McLaren com o Sex Pistols. Eu acho que com os Smiths essa questão começa a dar errado a  partir do momento em que Joe Moss (empresário mais importante na história da banda) renunciou; ele saiu do barco ao mesmo tempo em que as coisas ficaram loucas para eles, tudo acontecendo muito rápido, não lhes dando tempo para parar e pensar. Mas ele também sucumbiu à falta de vontade de Morrissey para confiar em uma figura gerencial. Eu acho que esse foi o “grande pecado”, como você coloca. É difícil não chegar a essa conclusão se quer escrever ou ler a biografia dos Smiths. E isso é uma grande vergonha.

Eu acho que os leitores possam apreender o livro como uma espécie de clássico romance: uma incrível história de “paz, amor e harmonia” , ilustrado pela relação entre Moz e Marr, que termina tragicamente em uma briga, uma disputa, que parece boba, infantil. E você, como escritor, parece assumir essa frustração também. Mostrar esse final infeliz com fidelidade era uma de suas principais missões?
Bem, eu estava tomando cuidado para não recontar o livro de Johnny Rogan “Morrissey e Marr: The Severed Alliance”, que, a partir de seu título, vira o foco para as lideranças dos Smiths, em relação à exclusão dos outros integrantes. Mas é essa, claramente, a narrativa, a condução do livro. E você está certo em dizer que a disputa parece “boba” e “infantil”. Nesse sentido, é como romper com um amante, às vezes você não consegue lembrar qual era, afinal, o último argumento, a gota d´água, exceto que ele era mais um entre tantos outros – e que, apesar de que você até gostaria de começar tudo de novo, o melhor é só se lembrar dos bons momentos que tiveram juntos e seguir em frente com sua vida.

No final do trabalho, você assume certa proximidade com Johnny Marr, proximidade que você não tem com Morrissey . Este foi o aspecto mais difícil , como escritor e apurador , mostrar e equilibrar os dois lados, igualar seu ponto de vista, tendo em conta que foram as divergências entre os dois que também levaram ao fim do grupo?
Claro . Observação justa. Johnny Marr foi muito cooperativo com os meus esforços para escrever este livro. Morrissey, não. Eu não queria deixar essa nuvem em meu julgamento, mas havia muitas outras coisas ditas sobre Morrissey, ou que ele disse para si mesmo, que tornou difícil de ser tão simpático como eu gostaria de ter sido com ele. Eu acho que Morrissey trouxe à música pop um talento desmedido, uma habilidade incrível para o lirismo poético, e um verdadeiro carisma. Ele continua a ser “one of a kind“, único. E Johnny Marr está longe de ser irrepreensível, inocente, na trajetória dos Smiths. Mas no final do dia, é difícil não ver Morrissey como o maior arquiteto da queda dos Smiths.

Outra grande questão se destaca : é um trabalho volumoso (630 páginas na edição brasileira ), para uma carreira musical que durou um tempo muito curto . Esse tamanho de algum modo dá a dimensão da importância dos Smiths e a mitologia em torno do grupo? Depois de publicá-lo, você percebe que ainda tem dúvidas?
Sim e não. Eu disse praticamente tudo o que eu queria dizer com o livro. Tem havido alguma discussão subsequente sobre se deveria haver um epílogo, e eu entendo aqueles que sentem que terminou um pouco abruptamente. Mas, mesmo depois de ter lido a autobiografia de Morrissey, não há realmente nada que eu me fizesse voltar atrás e mudar substancialmente.

Pergunta inevitável: depois de tanto tempo, você foi se inclinando fortemente no trabalho do grupo que acredita pessoalmente na possibilidade de um retorno? Você gostaria de assistir isso? Acredita que seria muito inconsistente com a trajetória dos Smiths, uma espécie de uma traição ?
Cada entrevistador brasileiro tem feito esta pergunta (Nota do Editor: culpe a nossa carência, Tony!) . Nunca haverá um retorno. Mas se houvesse , eu não gostaria de vê-lo . Foi bom do jeito que estava .

Para fechar: seu top 5 dos Smiths?
Ele muda todos os dias…

Para saber qual o top 5 de Fletcher, acesse o blog de Thiago Pereira

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