Arquivos, Entrevista

“Sou vítima de uma loucura mansa”

Este blog me leva obrigatoriamente a pensar na relação com o livro, objeto e ideia. O que me levou a lembrar de uma entrevista que fiz com José Mindlin, em 2007, quando sua biblioteca estava prestes a se tornar patrimônio da USP.

Morto em 2010, Mindlin foi talvez o maior bibliófilo brasileiro, dono de uma coleção de mais de 38 mil títulos, muitos dos quais raros.

Na época, aos 93 anos, Mindlin tinha dois objetos de desejo: “História da Província de Santa Cruz” (1576), do historiador português Pero de Magalhães Gandavo, e “Cultura e Opulência do Brasil” (1711), do jesuíta italiano André João Antonil. O bibliófilo classificou esses dois livros como “praticamente inencontráveis”, ao mesmo tempo em que acreditava que livros e leitores procuram um ao outro.

Começou a formar sua biblioteca aos 13 anos e se conformou com o fato de que as coleções são sempre incompletas – “não perco o sono por isso” –, mas mantinha seu desiderata.

Dos seus 38 mil títulos, metade, que corresponde à Brasiliana, foi doada para a USP. A coleção ocupava parte da residência de Mindlin e dois prédios anexos à sua casa, além de um apartamento térreo e o primeiro andar de uma casa, ambos na rua onde morava. Biblioteca que ele chamava de “espécie de paraíso”.

Recuperei a entrevista de sete anos. Mindlin falou sobre livros digitais, um mercado nascente à época, sebos, as livrarias que frequentava e a biblioteca. “Sou vítima de uma loucura mansa”, definiu-se o bibliófilo.

Algumas perguntas ficaram ultrapassadas, como a questão digital – na época, o Kindle era um bebê. Um sebo tradicional de São Paulo havia acabado de fechar, o que rendeu uma boa reflexão de Mindlin sobre o tema. E um raro exemplar da sua biblioteca de “Grande Sertão: Veredas” estava emprestado a uma exposição de João Guimarães Rosa no Museu da Língua Portuguesa. Se são notícias velhas, os temas ganham nova vida na interpretação de Mindlin.

*****

Como o senhor vê a atual tendência de digitalizar livros clássicos? É o fim da biblioteca como a conhecemos?
Não creio que as bibliotecas, como as conhecemos, tenham chegado ao fim. Elas vêm se formando há muitos séculos e representam, além do seu patrimônio cultural, um prazer intelectual, a meu ver, insubstituível. O contato físico com livros é um hábito arraigado, que sempre foi de interesse dos bibliófilos, dos leitores em geral e dos bibliotecários amantes do livro. A leitura na tela não substitui esse contato direto com o texto impresso. É claro que certas bibliotecas institucionais poderão passar a crescer menos, mas isso está longe de provocar seu abandono. O tema não pode ser encarado pelo que seria um aspecto negativo. Pelo contrário, a digitalização dos textos clássicos pode representar uma valiosa contribuição para seu conhecimento por um maior número de leitores.

O senhor já leu algum livro no computador? O que muda em relação à leitura do livro como objeto?
Eu nunca li um livro digital. Tive, uma vez, a experiência de uma demonstração de como funciona essa leitura, proposta por uma revista de informática que queria me fotografar com um livro eletrônico na mão. Eu disse que só concordaria se tivesse, na outra mão, um livro convencional. Acertado isso, vieram os promotores com todo o aparelhamento, no intuito de demonstrar como funcionava o livro eletrônico. Aconteceu que, ao tentar fazê-lo funcionar, o equipamento entrou em pane. Minha reação foi acentuar que isso nunca poderia ter acontecido com o livro convencional.

Recentemente, o tradicional sebo Ornabi, no centro de São Paulo, foi fechado. Como era a sua relação com o livreiro Luiz Oliveira Dias?
Conheci o livreiro Luiz Oliveira Dias, creio, desde os anos 1940, e frequentei bastante sua livraria, onde consegui adquirir numerosos livros. Achei lamentável que ele tivesse que interromper sua atividade, mas para isso deve ter contribuído a crescente dificuldade de acesso ao centro de São Paulo. Foi, sem dúvida, um dos bons sebos do centro da cidade.

Qual a importância dos sebos para o livro como cultura e objeto?
Considero grande a importância dos sebos para o acesso aos livros esgotados ou raros e mesmo para os de publicação recente, mas que os sebos podem oferecer por preços melhores. Creio que as livrarias de livros novos não proporcionam aos leitores iniciantes, e mesmo aos colecionadores, o tipo de atração e de formação cultural que os sebos proporcionam. Os sebos são fatores de iniciação cultural e normalmente se transformam em pontos de encontro e de descobertas, tanto de leitores comuns como de bibliófilos. Espero que continuem a existir, mas sua localização no centro da cidade corre perigos. Estão se espalhando pelos bairros e Pinheiros (zona oeste de São Paulo) já é um ponto de concentração deles.

Foto: Paulo Pinto
José Mindlin em sua biblioteca | Foto: Paulo Pinto

O Brasil é bem servido de livrarias? Como o senhor avalia a oferta de livros e os lugares onde comprá-los?
Nossas grandes cidades têm número razoável de livrarias, mas elas, de modo geral, tendem mais a ser impessoais do que pontos de contato e de encontro de amadores e escritores, como foi, por exemplo, a Livraria José Olympio. O número crescente de lançamentos e de publicações de livros de leitura corrente torna quase impossível que as livrarias mantenham em estoque de livros publicados há um ou mais anos. Esse ficou sendo o papel dos sebos. Não sei o que vai acontecer em matéria de atendimento por parte das livrarias, à medida que possa crescer significativamente o número de leitores, quando os esforços para difundir o interesse por leitura na população em geral começarem a dar resultados.

Onde o senhor compra livros? Quais livrarias o atraem no Brasil e em outros países?
Frequento, naturalmente, a Livraria Cultura ou a Livraria da Vila em matéria de livros novos. Mas tenho o vírus do amor ao livro antigo, e aí os bons sebos no Brasil e os livreiros antiquários em Nova York, Londres ou Lisboa sempre me atraíram quando em viagem.

O escritor argentino Alberto Manguel escreveu que “à noite os fantasmas têm voz na biblioteca”. O senhor costuma ouvir vozes em sua biblioteca?
A afirmação de Alberto Manguel é, obviamente, uma metáfora. Eu costumo dizer que os livros crescem à noite em quantidade, mas isso, é claro, é outra metáfora. De certo modo, os livros têm vida própria ou representam aspectos de vida de seus autores. Houve casos em nossa biblioteca em que suas guardadoras se comprazeram em imaginar encontros e desencontros de certos autores guardados nas estantes. Lygia Fagundes Telles, por exemplo, não poderia ficar ao lado de um livro de auto-ajuda – que aliás não existe em nossa biblioteca –, pois esse seria um desencontro extremo. A arrumação dos livros com fantasmas imaginários poderia dar origem a muitas ficções.

Se tivesse que viver em uma biblioteca, qual seria a sua escolha?
Para mim o problema não se coloca, pois vivo numa biblioteca. Não imaginaria outra. Minha mulher costumava dizer que não somos nós que temos a biblioteca, mas a biblioteca que nos tem. Bachelar, o grande intelectual francês, dizia que o paraíso devia ser uma grande biblioteca. Aquela em que eu vivo é uma espécie de paraíso.

Dizem que os leitores são definidos pelos livros que lêem. Como o senhor se definiria?
Não há dúvida, a meu ver, que uma biblioteca permite o conhecimento da natureza de quem a formou. Eu, que venho formando a biblioteca aqui de casa há pelo menos 80 anos, classifico-me como vítima de uma loucura mansa.

Como o senhor escolhe o livro que vai ler?
A escolha dos livros não é fácil, pelo que já temos na biblioteca para ler e pelo grande número de livros que aparecem, ou por palpite próprio, ou por recomendação de amigos também bons leitores. Normalmente, os que já estou planejando ler formam uma pilha respeitável, sempre de livros que me atraíram e sempre tendo a ilusão de que vou conseguir ler todos, pois a pilha vive crescendo. Basicamente, a escolha é arbitrária e sujeita a caprichos ou impulsos de momento.

O escritor israelense Amós Oz lançou um livro com palestras em que ele discute os melhores começos de livros. Quais começos de livros o senhor gosta?
Gosto de começo direto, sem muitos circunlóquios. A entrada em ação do enredo, a meu ver, atrai mais do que aquele que exigiu preparação. “A mão e a luva,” de Machado de Assis, “O Ateneu”, de Raul Pompéia, ou “Grande Sertão: Veredas”, de Guimarães Rosa, são exemplos de livros com ótimos começos.

O Brasil cuida bem de seu patrimônio de bibliotecas, de documentos históricos, de originais?
Não dá para generalizar. As grandes bibliotecas públicas, de modo geral, conservam razoavelmente, mas nem sempre de forma plenamente satisfatória. Isso depende de seus dirigentes e funcionários que tenham ou não amor ao livro. Se for preciso responder com precisão, diria que, de modo geral, ainda há muito por fazer em matéria de conservação ou restauro. Mas a consciência da importância desse processo vem crescendo no Brasil.

A Brasiliana | Foto: Ricardo Amado
A Brasiliana | Foto: Ricardo Amado

Recentemente, um original de “Grande Sertão: Veredas”, pertencente à sua coleção, esteve exposto numa exposição sobre Guimarães Rosa no Museu da Língua Portuguesa. O senhor recebe muitos pedidos de empréstimo de livros para exposições como essa?
Recebemos um número considerável de pedidos que procuramos atender, na dependência das condições materiais (embalagem, transporte, climatização, segurança etc) das instituições que nos procuram. O tipo de livros ou documentos que as instituições nos solicitam para expor é muito variável. Tanto podem ser de livros antigos sobre o Brasil como livros do movimento modernista, por exemplo.

O senhor ainda procura raridades? Tem alguma em especial que falta em sua coleção?
Digo sempre que a gente procura os livros e os livros nos procuram. Eu tenho procurado menos, partindo da premissa de que nenhuma biblioteca é completa. Felizmente, tenho recebido ofertas sedutoras, mas não sou escravo dos livros. Sempre falta algum, mas não perco o sono por isso. Poderia fazer uma lista do chamado desiderata, mas, para me limitar apenas a dois exemplos, diria que as primeiras edições de “História da Província de Santa Cruz”, de Gandavo, lançada em 1576, e de “Cultura e Opulência do Brasil”, de Antonil. São livros praticamente inencontráveis, mas meu otimismo é inabalável. Um deles, aliás, eu quase comprei quando apareceu um exemplar num catálogo americano, mas desisti em favor da Biblioteca Nacional. Continuo esperando outro exemplar.

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