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Robert Capa: O homem que esteve perto demais

A primeira onda de soldados desembarca em Omaha | Robert Capa
A primeira onda de soldados desembarca em Omaha | Robert Capa

“Se suas fotos ainda não estão boas o suficiente, é porque você ainda não está perto o suficiente.”

Robert Capa assim conduzia seu trabalho, assim definiu o trabalho do fotojornalista. O maior fotógrafo de guerra esteve muito perto de conflitos decisivos do século 20, como a 2ª Guerra Mundial e a Guerra Civil Espanhola. Ele foi mais perto ainda, quando desembarcou com os soldados aliados no Dia D, 6 de junho de 1945, na praia de Omaha. Daquele ataque, sob fogo cerrado dos alemães, Capa registrou as imagens mais fortes daquela e de todas as guerras.

Ligeiramente-fora-de-focoDois livros lançados pela Cosac Naify ampliam o senso comum sobre Capa. “Ligeiramente Fora de Foco”, sua autobiografia, é mais do que uma coleção de imagens, todas clássicas – o livro traz cem delas. É também um relato saboroso, uma narrativa que perpassa a carreira precocemente interrompida do fotógrafo húngaro naturalizado norte-americano.

Nascido Endre Friedmann em Budapeste, em 22 de outubro de 1913, Robert Capa trocou de nome para impressionar editores europeus e convencê-los a comprar suas fotos, no pré-guerra, em 1936. Não era o seu sonho, Capa queria escrever, mas a estratégia deu certo em Paris e ele seguiu em frente. Sua autobiografia, lançada originalmente em 1957, preencheu o desejo.

Capa faria mais pela fotografia. Ao lado de Henri Cartier-Bresson, fundou a mítica agência Magnum em 1947, que se tornou referência para os fotógrafos.

Um-diário-russoJá “Um Diário Russo”, parceria com o escritor vencedor do Nobel de 1962, John Steinbeck (“As Vinhas da Ira” e “A Leste do Éden”), nasceu da desconfiança.

Em 1947, John Steinbeck (1902-1968) e Robert Capa estavam intrigados com os “inimigos” da América. Queriam saber como viviam os soviéticos, o que existia por trás de toda barreira ideológica. A Guerra Fria não estava no seu auge – ainda levariam 15 anos até o enfrentamento dos mísseis cubanos –, mas os comunistas já despertavam todo o tipo de reação nos Estados Unidos.

Segundo a lenda, o plano de viagem foi concebido num bar e aprovado pelo garçom que os atendia. “Esse é o tipo de coisa que eu gostaria de ler”, teria dito o barman.

Convenceram o jornal “New York Herald Tribune” a publicar alguns artigos e embarcaram para a União Soviética. Steinbeck, autor de clássicos da literatura norte-americana como “A Leste do Éden” (Record) e criador de personagens que flertam com movimentos sindicais – o Tom Joad de “As Vinhas da Ira” (Record) é seu maior exemplo –, era visto com bons olhos pelos soviéticos, o que facilitou a entrada de ambos em terras inimigas.

John Steinbeck e Robert Capa embarcam na viagem que originou "Um Diário Russo" | Keystone France
John Steinbeck e Robert Capa embarcam na viagem que originou “Um Diário Russo” | Keystone France

Dessa viagem, nasceu um dos melhores relatos jornalísticos já escritos, acompanhado de 76 fotos na segunda edição.

Capa e Steinbeck passaram 40 dias entre camponeses em Moscou, Stalingrado, na Ucrânia e na Geórgia. Textos e imagens captaram a vida daqueles vilarejos, e não somente. Os dois talentos tiveram que driblar as adversidades de estar num país estranho, declaradamente inimigo, para entregar um relato das suas vidas.

O trabalho de Capa revela não só um fotógrafo talentoso, mas um profissional que se arriscava, que moldou sua vida pessoal tendo como base suas aventuras pelos palcos mais tenebrosos inventados pelo homem. Ele que foi vítima desse terror, quando, em 1954, enquanto cobria a guerra na Indochina, pisou numa mina terrestre e morreu na hora. Sua frase “Nem sempre é fácil ficar de lado e não poder fazer nada além de registrar o sofrimento à sua volta” resume seu trabalho e sua vida. Quando acharam o corpo de Capa, ele estava com sua máquina pendurada no pescoço.

Civis fogem da região da Andaluzia em 1936 | Robert Capa
Civis fogem da região da Andaluzia em 1936 | Robert Capa
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