Comentário, Ficção, Portugal

O amor como passageiro

e a noite rodaNa entrevista que deu ao blog, a jornalista portuguesa Alexandra Lucas Coelho disse que a ficção não lhe interessa, somente o real.

Para falar de seu romance “E A Noite Roda” (Tinta-da-China), ela prefere fazer diferença apenas entre literatura e jornalismo, que possuem linguagens próprias e usam o real para se manifestarem.

Jornalista que já viajou pelo mundo para escrever livros de reportagem – Israel, Palestina, Afeganistão, México, Egito, Brasil -, Alexandra usa então da sua vivência para legar uma obra deliciosa sobre o amor. E ela o explora a fundo, ao tocar em feridas como distância, traição, sexo, desejo.

Ana e Léon se conhecem em Jerusalém na cobertura da morte de Yasser Arafat. Começam um romance, ela, solteira e catalã, ele, casado e belga. Enquanto estão em Israel, viajam pela Palestina e mergulham na relação.

Alexandra então começa a destilar, em um lirismo sutil e elegante, sua experiência pelo mundo. Narrado em primeira pessoa, na voz de Ana, o livro se torna um relato de viagem, em que os dois protagonistas vivem de encontros e desencontros. Os jornalistas do romance viajam pelo mundo a trabalho e lazer. Passam por Espanha, França, Oriente Médio.

A relação se torna turbulenta diante da indecisão de Léon, que mantém o casamento, ao mesmo tempo que não consegue ficar longe de Ana. “Divido contigo mortes e vidas, dúvidas e erros. O que está no lugar da vida, o que nos resta da vida”, diz Ana, para quem a separação é sempre um fim, assim como para Léon a distância apenas alimenta os dilemas.

Alexandra escapa de penetrar na linhagem dos romances baratos – a trama original poderia favorecer um água-com-açúcar. Mas que nada. Ela entrega uma obra em que trata do amor de uma forma real, como a escritora prefere dizer, em que as reações são mais do que verossímeis, são humanas. Sua prosa é muito bem escrita, envolvente, talvez efeito do seu trabalho jornalístico.

O romance venceu o Grande Prêmio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores por unanimidade no júri. Na premiação, fez um discurso duro contra o presidente de Portugal, Cavaco Silva, o que rendeu polêmica entre os membros do governo e a escritora – leia a íntegra do discurso aqui.

Ao final do livro, elenca a trilha sonora do livro: Sigur Rós, Tim Buckley, Serge Gainsburg, Joanna Newsom, The Clash, Tom Waits, entre outros.

*****

“Fazemos as perguntas dos estranhos sem nunca termos sido estranhos. Há dois diálogos a acontecer ao mesmo tempo. As palavras são as de quem não sabe o suficiente, o silêncio é o de quem sabe demasiado. A nossa intimidade fica a pairar, como se não soubesse para onde ir.”

“Mas há algo ao lume. São nove da noite, não nos vemos há seis meses, e eu mantenho o absurdo plano de cozinhar para ti hoje-agora-já, talvez porque nunca te tive à minha mesa e suspeito que amanhã seja nunca, como no verso de uma poeta mexicana.”

“E a seguir penso que talvez isto seja só memória de sobrevivente, tornando triste o que não era para o fim não custar tanto.”

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