Comentário, Ficção, Peru

Leitura em andamento – “Conversa no Catedral”

Não posso dizer que sou um leitor regular de Mario Vargas Llosa. Já li vários de seus livros, mas sempre em espaços de tempo generosos. Meu primeiro contato com o peruano foi com o então “Batismo de Fogo”, hoje traduzido fielmente como “A Cidade e os Cachorros”.

Passei por “Pantaleão e as Visitadoras”, “Travessuras da Menina Má”, “Os Cadernos de dom Rigobeto”, “A Festa do Bode”, “Tia Júlia e o Escrevinhador”, os que me vêm à lembrança. Mas nunca tinha lido “Conversa no Catedral”, considerado por muitos críticos como seu melhor trabalho. Nem “A Guerra do Fim do Mundo”, sua releitura da Guerra de Canudos.

Capa Conversa no Catedral.inddCaminho agora por “Conversa no Catedral”, por sugestão do amigo Paulo Sales, autor do blog Este Lado do Paraíso.

Ainda estou no terço inicial das suas 579 páginas na edição da Alfaguara, que mudou o título para “no Catedral” – antes, o título aparecia no feminino.

E o que posso perceber neste início, nas 125 páginas já percorridas, é que estou diante de um monumento. Llosa, que disse ter demorado dez anos para escrevê-lo, assim o descreve no prólogo: “Nenhum outro romance me deu tanto trabalho; por isso, se tivesse que salvar do fogo só um dentre os que escrevi, salvaria este”.

Lançado em 1969, o livro é um desafio para o leitor dos mais gratificantes. Por trás de um encontro casual entre dois amigos de juventude surge a história recente do Peru, contada por meio de suas ligações afetivas e sociais.

Mas o que me importa neste texto nem é tanto a trama, mas sim a técnica empregada por Llosa na construção da narrativa. O vencedor do Nobel tece cirurgicamente suas maquinações: solilóquios de Santiago, alternância de narradores no mesmo parágrafo, diálogos que se misturam como em uma viagem no tempo, mudando personagens e épocas.

Llosa usa essa engenharia de forma a impulsionar a revisitação da história do Peru. A trama se desenrola lentamente, sem gratuidades e prolixidade.

Mario Vargas Llosa em 2010
Mario Vargas Llosa em 2010

E então me pego a pensar no que Patrícia Secco pretende fazer com obras de Machado de Assis e José de Alencar: adaptar os livros para uma linguagem compreensível para jovens. A ideia é eliminar ordens indiretas, construções longas e vocabulário difícil.

Ora, transformar “O Alienista” – a obra de Machado de Assis que vai ganhar a primeira adaptação – é criar outro livro. O leitor jovem, a quem se destina esses mutantes, não irá ler Machado de Assis. Se as escolas insistem em obrigar os alunos a lerem livros que não provocam maior interesse, o problema não é do autor, mas do currículo escolar.

Ler José de Alencar com 10, 12 anos realmente não abre interesse para a leitura para 99% dos alunos. Mas transformá-lo não irá fazer com que o jovem se interesse por leitura. A escola deveria ser um lugar de provocação, difusão e desafios. Hoje, paternalmente, me parece um local de afagos.

Toda essa divagação é o mote para a questão: será que isso aconteceria com Mario Vargas Llosa? Será que seu “Conversas no Catedral” pode ser vítima de uma adaptação para os jovens? Seria mais do que mutilação, seria o extermínio de uma obra-prima colocar os diálogos em ordem temporal e os solilóquios em itálico e trocar palavras por outras mais simples – ninguém ouviu falar em dicionário?

Não sei se isso existe no Peru. Mas é uma pena que aconteça no Brasil.

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