Brasil, Entrevista, Ficção

Cristovão Tezza: “O romance é um gênero aberto às reflexões sociais, políticas e filosóficas do tempo”

42231188“Como é difícil passar de um momento a outro da vida.”

Lá no terço final de “O Professor”, Heliseu, o protagonista do novo livro de Cristovão Tezza, resumo o que se tornara seu momento. Para Tezza, passar de sucessos consagrados como “O Filho Eterno” e “Um Erro Emocional” não foi tão sofrido como sugere a vida de Heliseu.

“Depois de um certo limbo discreto de temor, é sempre um instante agradável, otimista, quando enfim abro uma nova página em branco e inicio uma primeira frase”, diz Tezza em entrevista ao blog.

“O Professor” é seu livro mais maduro, em que a técnica alcança o mais alto patamar até agora em sua carreira. As experimentações que provou em títulos como “O Fotógrafo” e “O Filho Eterno” ganharam musculatura. Com pleno domínio da narrativa, Tezza oferece uma leitura envolvente, com ritmos alternados, em que a trama não necessita de artifícios para se desenrolar.

Heliseu é um professor aposentado que vai receber um prêmio na universidade. Na manhã em que se prepara para sair, relembra o caminho que o levou até aquele momento enquanto prepara o discurso de agradecimento.

Repassa o casamento com Mônica, sua morte, a conturbada relação com o filho gay que foi morar nos Estados Unidos, a relação com Therèze, uma doutoranda que lhe pede orientação. Tudo isso entrecortado por memórias do Brasil, de Collor ao governo do PT – em críticas ácidas do seu protagonista.

Tezza conversou com o blog sobre “O Professor” e sua gestação. A entrevista segue abaixo.

*****

Cristovão Tezza em sua casa | Foto: Guilherme Pupo
Cristovão Tezza em sua casa | Foto: Guilherme Pupo

Este novo romance o mostra mais maduro no domínio da técnica narrativa. Num trecho do livro, Heliseu diz: “Como é difícil passar de um momento a outro da vida”. Foi difícil passar de “Um Erro Emocional” e “O Filho Eterno” para este “O Professor”?
Não. A percepção das dificuldades literárias não funciona deste jeito comigo. Terminado um romance, não penso mais nele; há sempre um bom tempo de “folga” entre um livro e outro (agora, por exemplo – imagino que não vou começar nada de fôlego antes de um ano), de modo que, ao retomar a literatura, não há a sensação de uma passagem pedregosa, difícil ou arriscada. Apenas a minha cabeça está vivendo outras questões, o tempo passou, eu me sinto mais velho, e uma nova narrativa se apresenta.
Depois de um certo limbo discreto de temor, é sempre um instante agradável, otimista, quando enfim abro uma nova página em branco e inicio uma primeira frase. Metaforicamente, é como se eu estivesse sempre escrevendo o mesmo livro, mas agora de um ângulo diferente.

Como foram a pesquisa e o trabalho da escrita? Como escritor, o que o português arcaico despertou em você?
Fui professor de Língua Portuguesa durante duas décadas, e sempre gostei de ler sobre a história da língua; além disso, considero o cronista Fernão Lopes um escritor extraordinário. A frase interminável de Saramago veio dele, da tradição cartorial dos cronistas do Rei. Assim, meu personagem se move num meio que eu conheço e que me atrai. A ideia de pontuar a narrativa com momentos arcaicos da língua surgiu ao acaso, e eu senti que ficaria bom – tanto para a consistência do personagem quanto pelas sugestões temáticas, ou pela graça, das citações antigas. E, sutilmente – mas acho que isso só existe na minha cabeça – pela ideia simultânea de permanência temática e envelhecimento formal, este marcado pela ortografia antiga. A pesquisa foi basicamente leitura de textos e escolha de trechos adequados para o que eu queria.

Na orelha do livro, o texto diz que este é seu romance mais proustiano. Qual foi o tamanho da influência de Proust? Você estava próximo de suas obras na época em que escrevia?
O “proustiano” da informação da orelha deriva da ideia de tempo perdido e recuperado pela memória, uma imagem clássica que suplanta a fonte, assim como “kafkiano” é uma diluição de Kafka. Não se trata, é claro, de identificação literária ou estilística. Ao escrever meu livro, em nenhum momento me passou pela cabeça a sinfonia de Proust, que eu li há muitos anos – mas a sugestão faz algum sentido; Heliseu também parece estar em busca de seu tempo perdido.

“O Professor” alterna narradores, muitas vezes na mesma frase. Há fluxos de consciência que interrompem os fatos. Como trabalhou com esses recursos? Quais foram as maiores dificuldades?
Intuição, ou instinto. Passei a vida, pequeno racionalista, achando que essas coisas não existiam para quem escreve. Mas existem, digamos que por acumulação de trabalho. O meu ritmo sintático – basicamente o uso simultâneo de dois ou três pontos de vista, às vezes na mesma sentença – foi amadurecendo aos poucos, como um processo natural da minha escrita. Começou dando alguns sinais lá no “Breve Espaço”, aprofundou-se em “O Fotógrafo”, escancarou-se em “O Filho Eterno” (e neste livro a sintaxe do narrador duplo foi fundamental), tornou-se “estilo” em “Um Erro Emocional” – isto é, aquilo que você nem percebe, que já é a sua linguagem – e finalmente “escreveu” “O Professor”. Já é um processo quase que inconsciente da minha escrita.

Ainda sobre o ritmo do livro, as interrupções são algo constante na narrativa. Desacelera o ritmo do leitor, que imagina a explicação de algum fato, mas de repente se vê envolvido em outra fuga de Heliseu. É um contraponto à leitura dominante de hoje, do imediatismo digital?
Não, não há nenhuma “mensagem” oculta neste recurso técnico. Se a leitura de um romance faz este contraponto – e eu acho que faz, de certa forma –, essa é uma outra questão, de outra natureza. Mas no trabalho prático do livro, no mergulho da escrita, o jogo de mudanças de rumo, as interrupções, os encaixes da memória, todo este “timing” – em que momento devo interromper uma cena e passar a outra? quando devo encaixar uma memória avulsa que vai abrir outro ciclo de informações? – tornou-se para mim puramente instintivo. Durante o tempo todo tenho comigo, intuitivamente, a visão do conjunto, o equilíbrio entre as partes. É o meu lado conservador – o conceito simples e clássico de equilíbrio entre volumes desiguais –, que acaba me ajudando na composição romanesca.

O livro passeia bastante pelo sombrio. Há mistérios que rondam toda a leitura: a morte de Mônica, a relação de Mônica com Úrsula e de Heliseu com Therèze. As coisas não ditas lhe interessam mais do que as ditas?
No mundo da ficção, nunca é apenas o que você diz que é relevante – esse é o mantra da ciência, do ensaio, da pressuposição de verdade, em que você só pode omitir aquilo que não tem importância para o que você quer dizer, ou aquilo que não modifica o que você vai dizer. A ficção funciona com outro estatuto; sua representação da experiência humana leva em conta o alto poder da ocultação na nossa vida. Parece-me visível que há “buracos negros” na memória de Heliseu, e como ele reluta em voltar a eles. Além disso, há alguns toques na estrutura do livro que me levaram a explorar especialmente a ambiguidade. Há uma sombra de sugestão policial percorrendo a narrativa; além disso, o tema da tese de Therèze – o duplo sentido como uma marca gramatical da fala brasileira – acaba sendo um mote que acompanha o romance do começo ao fim.

Heliseu, entende-se, é um conservador. Critica o atual governo e a época de Collor, por exemplo. Você teve receio em inserir política no romance? Pensou que poderiam achar que seria um posicionamento seu?
Não, não tive receio – essa é uma marca de muitos livros meus, e de um linguagem romanesca que eu chamo de “realismo reflexivo”, o que inclui com frequência o panorama social e político do tempo da narrativa. O romance é um gênero especialmente aberto às reflexões sociais, políticas e filosóficas do tempo; a linguagem romanesca tem o poder de absorver todas as linguagens. Mas é claro que seria um absurdo confundir a opinião do personagem com a do autor. Só na literatura panfletária, ou no realismo socialista, o personagem é porta voz direto do autor. O personagem tem de ter a sua própria consistência e seu próprio universo de referências. Ao mesmo tempo, os personagens ressoam, no plano individual, uma certa “voz do tempo”, como exemplos de decantações históricas.

2178143Após o sucesso de “O Filho Eterno”, você disse que finalmente poderia viver de escrever. Sete anos depois, como é hoje viver de literatura?
É muito bom. Estou bastante tranquilo, mesmo considerando que “viver de literatura” não é ficar sentado à espera de direitos autorais. Na verdade, vivo do livro e seus derivados, como palestras, participação em eventos literários etc. De qualquer forma, continuo sonhando com férias prolongadas, que não chegam nunca.

Incomoda a expectativa de um novo “O Filho Eterno”?
Já disse outras vezes, brincando, que todo escritor tem ciúme de seu maior sucesso, o que mostra que escritores são seres ingratos e desajustados por natureza. Não haverá nunca um novo “O Filho Eterno”. Mas há “O Professor”, por exemplo, que é um livro que eu considero melhor e mais maduro que “O Filho Eterno”.

Na entrevista que deu ao “Estado”, você diz: “Tenho uma imensa dívida com os grandes contadores de história”. Com quem você tem essa dívida?
Aprendi a gostar de literatura com narradores viscerais, como Monteiro Lobato, Julio Verne, Conan Doyle; depois, Dostoiévski, Dickens, Balzac, Stendhal; ao mesmo tempo, Machado, Graciliano, Erico Verissimo, Joseph Conrad; a lista não tem fim. Talvez eu tenha aprendido com eles a função primordial da empatia na literatura, a minha dívida especial com esses narradores – é nela que a experiência literária, esta relação única entre autor e leitor, ganha a sua máxima intensidade.

*****

“Acho que todas as pessoas do mundo deveriam receber esta medalha, independentemente do que fizeram na vida, sejamos generosos, deveriam receber medalha só pela oportunidade de, numa rápida cerimônia de acerto de contas, um pré-juízo final, rever a vida em poucas palavras, aquela essência que sempre nos falta, o tiquinho de nada que, se a gente chegasse lá, tudo resolvia com tranquilidade. Enfim, as coisas devem necessariamente ter um sentido, ou não existiriam, você na acha? Deus não joga dados, certo? Ou joga? Ehehe. Eu adoro esses pequenos sofismas de cafezinho.”

“Foi meu filho, senhores, foi ele, naquele momento, que usou esta expressão ridícula, o sentido da vida, que eu ando martelando na cabeça como quem repete uma frase de almanaque, mas a culpa é dele, o meu filho é o inimigo do meu sonho, foi lá que ele disse com todas as letras e a voz ainda baixa, o que sempre quis foi dar um sentido à minha vida, e ele estava encontrando esse sentido em sua nova vida, na fúria independente dos seus 20 anos, quando todos acham que vão mudar alguma coisa só por terem bons sentimentos e bons pensamentos e uma certeza estúpida na testa.”

Anúncios

2 comentários em “Cristovão Tezza: “O romance é um gênero aberto às reflexões sociais, políticas e filosóficas do tempo””

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s