Comentário, Ficção, Japão

A perversão de um velho louco diante da morte

O trabalho que a editora Estação Liberdade vem fazendo com a literatura japonesa é semelhante ao que a Editora 34 realiza com a literatura russa. Traduções diretas do original, cuidado nas edições, bom acabamento e curadoria de autores que vão dos clássicos aos mais desconhecidos.

Da Liberdade, sou seguidor das obras de Yasunari Kawabata. Recentemente, li “Diário de um Velho Louco”, de Jun’Ichiro Tanizaki. Com diz o título, o livro é a reprodução do diário do patriarca da família Utsugi, já aos 77 anos, doente, com reumatismo e muitos dores.

Na casa, vivem sua mulher, o filho, a nora e a neta – ele ainda tem mais duas filhas, que vivem em outra residência. Uma enfermeira acompanha o velho 24 horas por dia. Cansado da vida, decidiu-se pelo hedonismo. Liberta seus instintos. Incapaz de fazer sexo ou de participar de atividades físicas, estimula os outros a fazer, como uma transferência de prazer. Instiga a transgressão sem dar explicações.

Vai então se envolver com a nora. Primeiro, de forma platônica. Depois, subversivamente, chega ao contato físico, em ações de pura perversão.

Despreza os filhos e faz todas as vontades da nora – compra presentes caros, submete as finanças a ela.

Cada vez mais envolvido com a nora, o velho enfrenta o avanço da doença e das dores. É esse choque de desejo e dor que vai guiar o velho até o final do livro.

O fim, que permeia o diário desde o seu início, se torna irrelevante para o velho. Apesar de a morte ser uma constante no seu cotidiano, ele vive a desafiá-la – despreza tratamentos e prefere o prazer.

A tradução do livro, lançado em 1962, é cuidadosa e oferece ao leitor notas explicativas de termos e datas da cultura japonesa.

Mais do que a transgressão, o livro se apoia na trinca desejo-dor-morte, em que todos tentam conviver no comando do velho.

*****

“Até a faixa dos cinquenta, a ideia da morte me apavorava mais do que qualquer outra, mas isso já não acontece hoje em dia. Ao contrário, posso morrer a qualquer momento, estou preparado para isso. Quando tirei as tomografias no hospital Tora-no-Mon e me falaram da suspeita de câncer, minha velha e a enfermeira, que estavam comigo, empalideceram visivelmente. Eu, porém, não me abalei. Fiquei surpreso com a minha capacidade de permanecer indiferente. Cheguei até a sentir algum alívio ante a perspectiva de que finalmente minha longa, longa vida chegava ao fim. Não tenho portanto nenhuma intenção de me apegar tenazmente à vida, mas uma vez que continuo vivo, não posso deixar de sentir atração pelo sexo oposto. E acredito que a atração persistirá até o exato momento da minha morte.”

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