Brasil, Entrevista, Fotografia, Relatos de viagem

Um relato da Coreia do Norte, por Juliana Cunha

A jornalista Juliana Cunha viajou até a Coreia do Norte para saber como vivem as pessoas no hoje país mais fechado do mundo, uma certa dinastia Kim: Il-sung, Jong-il e Jong-on.

450xNDessa experiência, surgiu o fotolivro “Kimland”, um diário fotográfico que narra a semana que a autora passou em Pyongyang, no inverno de 2013, hospedada na embaixada do Brasil na capital norte-coreana. 

Juliana optou por autofinanciar o livro. Lançou “Kimland” de forma artesanal, com uma impressão inicial de 200 cópias, pela Casa Timotheo, selo criado pela designer Mariana Newlands, autora do projeto gráfico. O livro é bílingue – português e inglês.

O lançamento aconteceu na edição da Feira Plana em São Paulo, em março, um evento que reúne editoras e autores independentes para vender livros, HQs e quaisquer outros formatos físicos. Agora, “Kimland” está à venda na Kaput Livros e na Ugra Press.

“Kimland” é um relato de viagem curto – são 70 páginas. A força do livro está na narrativa fotográfica da Coreia do Norte e seus habitantes. O texto funciona quase como uma legenda, apesar de não descrever as imagens. O projeto gráfico respeita o caminho editorial e coloca cada elemento no seu lugar e destaque.

Juliana conversou com o blog sobre sua viagem e o trabalho como autora independente. Distribuição e impressão ainda são os entraves do escritor, mas novas editoras e canais de venda pela internet ajudam a reduzir o problema.

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Como surgiu o convite para visitar a Coreia do Norte? Foi difícil entrar no país?
Tenho um amigo que é diplomata na Coreia do Sul. Quando eu resolvi fazer trabalho voluntário na India, a gente começou a planejar uma viagem um pouco mais esticada pelo Oriente. Não é difícil entrar. Para turistas comuns, é só comprar um pacote por uma agência. Para mim, entrei como convidada da embaixada e foi simples. Não teria sido simples entrar como jornalista, aí sim é burocrático e um pouco frustrante porque jornalistas recebem vigilância extra.

“Nada a Declarar”, de Barbara Demnick, e “Pyongyang – Uma Viagem à Coreia do Norte”, HQ de Guy Deslile, falam do cotidiano dos coreanos e das privações, além da vontade de alguns de sair do país. Você percebeu esse sentimento por lá? 
Os dois locais com quem tive mais contato foram os tradutores da embaixada do Brasil, que são pessoas privilegiadas dentro do esquema das coisas, mas ser privilegiado em Pyongyang não é grande coisa. Pelo que senti, não é como na União Soviética, em que se podia falar em uma classe de privilegiados. Acho que fora a família do Kim [Jong-on] e poucos oficiais de alta patente, todos estão na merda, incluindo os relativamente privilegiados, como os meus tradutores. Apesar disso, nenhum deles me parecia infeliz, solitário ou querendo sair do país e nem eu me senti assim. Ainda considero voltar para a Coreia do Norte e passar uma temporada mais longa.

Você optou por um relato curto, quase em ritmo de tópico, dando destaque às fotos. Como chegou a essa opção?
Eu queria evitar fazer um relato didático sobre o país porque já existem outros livros fazendo isso, dando essa introdução para quem não conhece nada e quer saber um pouco do dia-a-dia, de como funciona o sistema. Também não queria fazer algo muito aprofundado porque não tenho base para isso, é um fotolivro baseado em uma experiência curta, então, eu quis fazer apenas textos-legenda com impressões pessoais para acompanhar as imagens.

Norte-coreanos encaram a fotógrafa | Foto: Juliana Cunha
Norte-coreanos encaram a fotógrafa | Foto: Juliana Cunha

No livro, você diz que é preciso manter distância da condenação e da admiração ao mesmo tempo. Você conseguiu? Para qual lado você tendia?
O sistema norte-coreano é a barbárie, não é sequer uma tentativa de socialismo, é uma monarquia absolutista em pleno século 21, então, é fácil condenar. Por outro lado, viajar para ficar espumando de raiva e se ufanando no nosso liberalismo bonito também seria inócuo. Eu não fui lá para ficar fazendo comparações entre a miséria deles e a nossa. A miséria deles é obviamente pior que a minha, mas vamos dimensionar que as sociedades capitalistas mais ajustadas conseguiram seu relativo estado de bem-estar social às custas da exploração de outras sociedades.

Você cogita levar o livro para o digital? É uma saída para quem quer escrever?
Vamos liberar o PDF do livro em breve. No nosso caso, não é uma saída, a gente gosta do papel e queríamos fazer impresso. O digital é só uma forma de dar acesso ao material a pessoas que não querem ou não podem comprá-lo. Mas esse é um projeto pessoal nosso, não fizemos para ganhar dinheiro, então, a lógica é diferente.

Você optou pelo autofinanciamento. Por que não usar um crowdfunding, como Catarse? O que a levou a tomar esse caminho?
Sim, nós pagamos todos os custos do livro do nosso próprio bolso. Não descarto usar crowdfunding um dia, mas confesso que não me sinto à vontade pedindo ajuda para viabilizar um projeto meu. Talvez seja orgulho demais, ou não veja tanto valor nas coisas que faço. Dessa vez, eu tinha o dinheiro. O livro custou R$ 6 mil e pouco, fizemos 200 cópias. Eu sabia que daria para vender essas 200 em um período de tempo relativamente curto, então, não foi um problema para mim pegar dinheiro da minha poupança, usar no livro e depois repor. Mas claro que isso é um luxo, nem todo mundo tem essa margem de manobra, nem todo projeto custa tão pouco e acho muito válido e digno recorrer ao crowdfunding.

Seus dois outros livros, “Já Matei por Menos” e “Gaveta de Bolso”, também foram pelo caminho independente. E ambos têm relação com o mundo digital – textos que vieram do blog e livro que se torna aplicativo. Esse é um caminho a ser explorado, misturar plataformas?
Não vejo mais como misturar plataformas. Mal tenho lembranças da minha infância e vida sem internet. Eu entrava no IRC aos 10 anos, sempre tive blog etc. Ao mesmo tempo, fazia fanzine na escola, era colunista juvenil, sempre trabalhei em jornal, sempre gostei de papel, então, eu não vejo como misturar plataformas. Na minha experiência, essas plataformas já vieram misturadas. As duas editoras que publicaram meus livros (Prólogo e Lote 42) são pequenas, claro, porque não sou escritora nem tenho cacife para publicar por editoras maiores, mas acho isso legal, não é minha ambição ser uma grande autora, publicar pela Companhia das Letras etc. Eu sou repórter e tradutora, é isso que quero fazer da vida. E faço uns livros, uns blogs por diletantismo, como projetos que me trazem alguma satisfação pessoal passageira.

Os livros da Casa Timotheo na Feira Plana, "Kimland" entre eles
Os livros da Casa Timotheo na Feira Plana, “Kimland” entre eles

E a Feira Plana, qual a importância dela para os autores?
A Feira Plana conseguiu dar vazão a uma produção independente que estava meio perdida e ainda incentivou pessoas que não estavam produzindo por não terem onde desovar a fazerem coisas novas. É maravilhoso porque coloca cara a cara quem tem interesse nesse tipo de material e quem está produzindo as coisas e derruba teses bobas de que as pessoas não ligam mais para papel, que está tudo na internet etc.

Como está indo a venda do Kimland?
Vai bem, obrigada. Está quase esgotado. Nosso projeto nunca foi vender mil cópias. Fizemos 200, estamos encerrando essas 200, vamos fazer mais e deixar a coisa ir desovando aos poucos.

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Juliana Cunha escreveu um artigo para a “piauí” sobre sua passagem pela Coreia do Norte. É também tradutora. Lançou os livros “Gaveta de Bolso” (Prólogo), que tem app e está sob licença Creative Commons, e “Já Matei por Menos” (Lote 42), coletânea de crônicas e posts do seu blog.

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