Colômbia, Crônica, Obituário

Obrigado, Gabo (1927-2014)

Estou longe de casa. Portanto, longe dos meus livros do Gabriel García Márquez.

Eu queria agora poder reler páginas de seus livros, relembrar personagens, histórias, cenários. Essa era a vontade – é. A morte talvez seja uma motivadora dessas revisões, espécie de homenagem ou de agradecimento.

E não quero escrever aqui um obituário. Não tenho capacidade para isso nem talento suficiente para honrá-lo. Além disso, como escreveu Nirlando Beirão hoje, que se recusou a fazer um obituário, Gabriel García Márquez é “imortal”

Houve um tempo em que ler Gabo – me perdoe, Geneton Moraes, vou chamá-lo de Gabo – era uma espécie de necessidade. Como se ele recarregasse baterias e me colocasse de novo na vida.

Gabo me proporcionou descobertas – e de quais autores podemos dizer isso? Por isso, voltar aos seus livros é gritar pela memória.

Reli há poucos dias “Relato de um Náufrago” e “A Incrível e Triste História de Cândida Erêndira e Sua Avó Desalmada”. Foi um pouco antes da notícia da última internação do escritor. Se o encanto tem que enfrentar o conhecimento da história, o deslumbramento pela escrita permanece imbatível. Outra citação, desta vez de Sergio Rodrigues, que escreveu que Gabo foi um dos poucos escritores que conseguiu aliar a alta cultura à cultura de massa, sem perder o equilíbrio e presença.

Gabo já não escrevia. Seu último romance foi “Memórias de Minhas Putas Tristes” – de 2004. “Eu Não Vim Fazer um Discurso”, de 2010, é uma reunião de discursos e seu último lançamento. A autobiografia “Viver para Contar” teria três volumes, mas Gabo encerrou no primeiro, lançado em 2002.

Ele já havia se despedido.

Entrei numa livraria hoje para comprar um livro e poder reler alguma coisa. Como tenho toda a obra – de que outro autor poderia dizer isso? -, a ideia foi comprar um título em espanhol. Não podia falhar com Gabo. Então, saí com “La Increíble y Triste Historia de la Cándida Eréndira y de su Abuela Desalmada”, ele que está fresco na memória, agora poderá encontrar suas palavras originais.

Quando retornou para sua casa na Cidade do México, logo após uma temporada no hospital, Gabo se viu um dia diante de jornalistas à sua porta. Ele, um jornalista, imaginava o que queriam. Respondeu: “Vão fazer alguma coisa de útil”.

Uma frase memorável, que faz um sentido tremendo nesta época fútil e imediatista de redes sociais.

Eu, que tenho Gabo como um mestre, só posso obedecê-lo.

Não sem antes dizer obrigado. Muito obrigado. Por tudo. Sempre.

gabriel-garcia-marquez

 

“Eréndira no lo había oído. Iba corriendo contra el viento, más veloz que un venado , y ninguna voz de este mundo la podía detener. Pasó corriendo sin volver la cabeza por el vapor ardiente de los charcos de salitre, por los cráteres de talco, por el sopor de los palafitos, hasta que se acabaron las ciencias naturales del mar y empezó el desierto, pero todavía siguió corriendo con el chaleco del oro más allá de los vientos áridos y los atardeceres de nunca acabar, y jamás se volvió a tener la menor noticia de ella ni se encontró el vestigio más ínfimo de su desgracia.”

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