Colômbia, Comentário, Ensaio, Ficção, Inglaterra

“A que propósito evolucionário a nostalgia poderia servir?”: a finitude em três livros

1. O livro abre com um ensaio sobre o balonismo. Depois, permeia a fotografia e a relação levemente ficcionada entre Sarah Bernhardt e Félix Nadar. O terceiro ensaio trata da perda da mulher do autor. De alguma forma, os três textos se entrelaçam, ao dar significado a novas maneiras de ver o mundo – do alto, numa reprodução, no luto. Julian Barnes, o autor de “Altos Voos e Quedas Livres” (Rocco), escolheu essa forma de vivenciar o luto, a perda. Comovente, o livro surpreende com temas que supostamente não estariam conectados e que ganham respiro com essa original percepção. A lamentar, o péssimo título da edição brasileira – o original é “Levels of Life” (níveis da vida, na tradução livre) e a classificação do livro como contos ingleses.

Altos voos e quedas livres

2. Agora, o personagem principal, aos 60 anos, tenta acertar as contas com o passado ao receber uma notícia que o faz lembrar de um amigo de adolescência, que se matou jovem. A partir desse ponto, a vida de Tony Webster se abre para a memória e o que restou dela. “A maioria de nós não se importou de envelhecer. Isso é sempre melhor que a alternativa, na minha opinião. Não, o que eu quero dizer é que, quando você tem vinte anos, mesmo que você se sinta confuso e incerto a respeito dos seus objetivos, você tem um forte senso do que é a vida, e do que você é na vida, e pode vir a ser. Mais tarde… mais tarde há mais incerteza, mais sobreposição, mais retrocesso, mais falsas lembranças”, diz Webster, num momento em que a sua vida também entra um um turbilhão. Julian Barnes, o autor deste “O Sentindo de Um Fim” (Rocco), levou com delicadeza essa pequena discussão sobre envelhecer e criar memórias. O final é arrebatador. Mas antes Barnes faz com que o leitor volte a ser leitor. Ele simplesmente interrompe a narrativa nas últimas cinco páginas, antes de concluir com algo que o leitor não espera, para falar do modo com as batatas são servidas no pub em que Webster está. Sem pressa, sem criar clímax. O livro é dedicado à sua mulher, já morta (2008) na época do lançamento (2011).

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3. “Naquela noite, passei muito tempo acordado.” Assim começa “A Luz Difícil” (Bertrand Brasil), do colombiano Tomás González, uma surpreendente descoberta, da mesma fonte de John Banville. David, sua mulher, filho e amigos enfrentam uma vigília enquanto Jacobo e Pablo se dirigem a Portland. Jacobo, vítima de um acidente de carro, ficou tetraplégico e é obrigado a conviver com fortes dores. Que se tornam insuportáveis. A viagem é uma forma de dar um fim a essa dor. A família, de Nova York, monitora todos os passos dos dois irmãos. Uma série de imprevistos adiam o momento do fim, o que faz a angústia da família aumentar. David, então, sai a andar pelas ruas e recapitula sua vida, seu trabalho como pintor, a vida depois do acidente de Jacobo e a eterna pergunta: será que ele vai se arrepender? González explora os limites da nossa aceitação. O livro é delicado, mas intenso, sem entrar na discussão em relação à decisão de Jacobo – tanto que o leitor nem fica sabendo o nome do procedimento e como se dará.

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4. Os três livros foram lidos em sequência, nessa ordem. Os motivos da escolha não foram esclarecidos, mas de alguma forma eles se conectaram. Vida e morte foram temas centrais, nossas memórias e o modo como lidamos com elas se expuseram nas ideias de Barnes, Webster e David.

5. Barnes se revela, para mim, um dos grandes autores contemporâneos. Estes dois livros são dos mais sensíveis que já li. Quem quiser conhecer mais a obra do inglês vale também tentar “Amor Etc” e “Em Tom de Conversa” (ambos Rocco).

6. González é um autor colombiano que ainda precisa ser descoberto. Este é seu único livro lançado no Brasil.

7. A forma como González intercala passado e presente, presente e a dúvida futura mostra um autor maduro, ciente da técnica e de como aplicá-la. Ao mesmo tempo, deixa uma emoção respirar, sem partir para discussões acadêmicas e sociais. É limpo, enxuto. As descrições são claras o suficiente para visualizar e compreender a angústia.

8. “Altos Voos e Longas Quedas” merece como leitura complementar “Cartas a D. – História de um Amor” (Cosac Naify), do filósofo austríaco André Gorz. Ele escreveu o livro para sua mulher, Dorine, que sofreu com uma doença degenerativa. Já falei dessa pequena pérola no blog.

9. “O Sentindo de um Fim” funciona como um prólogo ao que vai surgir no ensaio final de “Altos Voos e Longas Quedas”. Barnes já começa a refletir sobre a finitude e como ela nos chega, sem anúncios. No romance, essa finitude necessariamente não é a morte, mas passa por ela. Em “A Perda de Profundidade”, o ensaio, é a forma como enxergamos esse fim que o toca.

10. “Nós lidamos mal com a morte, essa coisa banal, única; não conseguimos mais colocá-la num contexto mais amplo. E como disse E.M. Foster: ‘Uma morte pode explicar a si mesma, mas ela não lança nenhuma luz sobre outra morte’. Então o sofrimento se torna inimaginável: não apenas sua extensão e profundidade, mas seu tom e sua textura, seus embustes e falsos amanheceres, sua reincidência.”
(“Altos Voos e Longas Quedas)

11.“Mas por que deveríamos esperar que a idade nos abrandasse? Se não cabe à vida recompensar o mérito, por que caberia a ela proporcionar-nos sentimentos ternos e confortadores perto do seu final? A que propósito evolucionário a nostalgia poderia servir?”
(“O Sentindo de um Fim”)

12. “É o próprio estrondo da luz. Difícil ver algo mais bonito. É a destruição do eu, a dissolução do indivíduo. O ar cheira a água e a poeira, e a gente não é ninguém. Não se escuta nem para escrever.”
(“A Luz Difícil”)

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6 thoughts on ““A que propósito evolucionário a nostalgia poderia servir?”: a finitude em três livros”

  1. Engraçado como o tema da finitude me é caro, o que fez com que me interessasse por Barnes (devo comprar esses dois e mais Nada a Temer). Estava reunindo as melhores crônicas do meu blog para um possível livro e vi como abordo esse tema inúmeras vezes, chegando a ser repetitivo. É como uma obsessão.

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      1. Rapaz, terminei ontem de devorar O sentido de um fim, umas 70 páginas antes de dormir. O que é aquele final? Fui me sentindo ao mesmo tempo triste e perplexo à medida que avançava até chegar naquela pancada. Livraço, com reflexões lindas sobre velhice e (des)memória. Depois fui voltando e relendo alguns trechos, para tentar encontrar alguma pista. A fórmula matemática de Adrian é uma coisa genial. Vou comprar outros de Barnes com urgência. Era umas 12h30 da noite e eu pensei em ir até o computador para ver se você estava on-line, pra gente conversar sobre o livro. Mas, como diria Chico, depois pensei na vida pra levar e tratei de tentar dormir – com muita dificuldade.

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      2. O final é arrebatador. Eu achei excepcional aquele papo sobre batatas antes de expor a virada na trama. Barnes escreve muito bem. Você vai ficar mais embasbacado com o livro de ensaios dele, o último. Tentei fazer uma entrevista com ele, mas a agente disse que ele não falaria sobre o livro.

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