Entrevista, Ficção, Não ficção, Portugal, Relatos de viagem

Alexandra Lucas Coelho: “A ficção não me interessa em nada, só o real”

Em 2011, Alexandra Coelho Neto estava trabalhando na divulgação do seu livro “Viva México” (Tinta-da-China) quando explodiram as manifestações no Egito. Decidida, ela não retornou ao trabalho – na época, estava trabalhando no Rio de Janeiro como correspondente do jornal “Público”, de Portugal. Pediu uma semana de férias e, por conta própria, foi ao Cairo acompanhar o nascimento daquela revolução, no olho do furacão: a praça Tahrir.

A jornalista portuguesa se embrenhou entre os manifestantes e produziu um relato de viagem, um diário, concebido por uma testemunha daquela pequena revolução. Não era encomenda do seu jornal ou de outro veículo. Era uma iniciativa idealista, de quem pretendia narrar os acontecimentos do melhor ponto de vista: o local onde ocorrem. Dessa iniciativa, saiu “Tahrir – Os Dias da Revolução no Egito”.

Ela já viajou o mundo atrás de histórias. Além de “Viva México”, escreveu “Caderno Afegão” (Tinta-da-China) e “Oriente Próximo” (sem edição brasileira). E se aventurou pelo romance, em “E A Noite Roda” (Tinta-da-China), uma deliciosa história de dois jornalistas que se desencontram e encontram ao redor do mundo.

1507-1Alexandra, que morou no Rio de Janeiro por dois anos e voltou a Lisboa, conversou com o blog sobre seus livros, falou sobre as manifestações do Cairo e tratou da escrita: “A ficção não me interessa em nada, só o real”.

Fala do livro de crônicas “Vai, Brasil” (sem edição brasileira) e de um novo romance, desta vez ambientado no Rio.

A entrevista foi feita por chat e email. Por isso, o blog mantém a ortografia original do texto da jornalista portuguesa.

*****

No livro sobre a praça Tahrir, você escreve que conviveu entre os manifestantes. Sabendo de casos de ataque a mulheres, você em algum momento enfrentou situações semelhantes?
Como conto no livro, os momentos de assédio masculino só surgiram depois da queda de Mubarak, quando os manifestantes deixaram de controlar os acessos à praça, e milhares de pessoas entraram, gente que não tinha passado aqueles dias em Tahrir, nem tinha nada a ver com a luta dos manifestantes. Ou seja, no meio daquela multidão havia de tudo, e experimentei de fato alguma pressão por parte de grupos de homens, especificamente de um que nos seguiu durante algum tempo, a mim, a uma outra jornalista mulher e a um fotógrafo amigo. Até nos termos exaltado com eles, o que acabou por afastá-los. Antes disso, durante a semana que passei na praça, o meu contato com os manifestantes não teve qualquer elemento desagradável. Cheguei a dormir na praça Tahrir, debaixo dos cobertores que nos trouxeram, ao lado de homens, e tudo se passou de forma absolutamente correta.

De resto, a minha experiência no Oriente Médio e na Ásia Central, entre 2001 e 2009, em diversas viagens e durante o tempo em que vivi lá, nunca passou por qualquer assédio mais difícil. Apenas olhares, em alguns casos insistentes, em situações ou lugares em que eu era a única mulher, como aconteceu com maior frequência no Afeganistão.

Olhando para trás, como avalia aquele momento? É possível criar uma relação com os movimentos que acontecem no Brasil desde junho passado?
Tahrir, na semana que lá passei, e que correspondeu ao antes, durante e depois da queda de Mubarak, foi um momento puro de revolução. Algo que não era imposto ou manipulado de fora, que resultava claramente da energia crescente de uma multidão que se soube organizar numa praça durante dias. Utopia, certamente. Efêmero, certamente. Comprovou-se. Mas o que falhou depois não desmente o que aconteceu naquela semana. Houve manifestantes que me falaram do Brasil, como um exemplo, de Lula da Silva. Nessa altura (fevereiro de 2011), ainda não havia manifestantes nas ruas brasileiras. Claro que há relações: reivindicar, tomar a palavra, a ação, e construir uma teia através das redes sociais. Tudo isso liga os manifestantes de Tahrir aos jovens manifestantes brasileiros. Depois, há todas as diferenças de conteúdo e contexto.

Foto: Miguel Manso
Foto: Miguel Manso

No “Viva México”, seu relato de viagem foge do tradicional e se aproxima da narrativa de Paul Theroux, com foco nos personagens. Concorda?
“Viva México” é um livro mais pessoal, menos reportagem, do que “Caderno Afegão”, ainda que siga também uma progressão cronológica. Mais narrativo, talvez, sim.

Em “E A Noite Roda”, o andar pelo mundo é quase um personagem do livro. Sair da mente da jornalista, da escritora de relatos de viagem, para escrever uma ficção foi difícil ou se tornou uma opção narrativa?
Não uso e não gosto da palavra ficção. A ficção não me interessa em nada, só o real. A diferença essencial para mim é entre jornalismo e literatura, ou seja, uma prática sujeita a um código deontológico com regras, e uma prática criativa inteiramente livre. “E A Noite Roda” é a tentativa de trazer para um território inteiramente livre, o do romance, materiais que vêm do jornalismo e da viagem, e tratá-los de outra forma.

Você pretende continuar no campo da ficção?
Estou a escrever um romance sobre o Rio, e pretendo escrever vários outros. Também tenho planos para continuar a fazer livros de viagem e reportagem.

Você lançou um livro com crônicas sobre o Rio e pretende escrever um romance passado na cidade. Após dois anos na cidade, como ela acabou orientando seu trabalho, a ponto de ser cenário de dois livros?
O livro que lancei em Portugal (ainda sem edição brasileira) chama-se “Vai, Brasil”, ou seja, abarca o Brasil de 2010 a 2013, desde o Rio Grande do Sul à Amazônia, passando por Minas Gerais, São Paulo e Curitiba. Claro que o Rio de Janeiro ocupa um lugar central nele, porque foi a cidade onde morei, mas é um livro que atravessa o Brasil ao longo de anos, como uma crónica contínua. Este romance que estou agora a escrever centra-se inteiramente no Rio, vai chamar-se “Deus Dará”, e sendo um romance lida com os materiais reais, da experiência e da memória, de uma forma totalmente diferente. Nada do que está em “Vai Brasil” se repete em “Deus Dará”, vejo-os como partes de uma trilogia: uma viagem em crónicas no Brasil, um romance sobre o Rio de Janeiro e um terceiro volume, que será uma espécie de reportagem, ou história oral, sobre a geração de emigrantes portugueses no Brasil anterior a esta nova leva, uma história que tanto quanto sei não foi contada. São de certo modo uns invisíveis. O romance do Rio será também um romance sobre a relação entre portugueses e brasileiros, e as várias formas do português. Tem sete protagonistas, cinco brasileiros e dois portugueses.

Na atual crise do jornalismo, escrever livros parece que está sendo uma opção para os jornalistas. Como você avalia esse momento da profissão?
É complexo. Os livros são uma saída muito interessante para quem quer fazer jornalismo narrativo, sim. Resta saber se há mercado para isso, e se há apoios que permitam aos jornalistas esse tempo e esse espaço.

Manifestantes ajudam na limpeza da praça Tahrir | Foto: Alexandra Lucas Coelho
Manifestantes ajudam na limpeza da praça Tahrir | Foto: Alexandra Lucas Coelho

Você mantém contatos com as pessoas que foram personagens nos seus livros de reportagem? Como é a sua relação com eles e com os locais/cidades após sua partida?
Mantenho alguns contactos. No caso de Gaza ou Jerusalém, que estão em dois livros meus (“Oriente Próximo” e “E a Noite Roda”), tenho amigos mesmo, com quem tenho correspondência e contacto regular. No caso do Afeganistão, contactos esporádicos com duas ou três figuras do livro, de quem vou tendo notícias. No caso do México, não tive contactos nos últimos tempos. O mesmo com a Praça Tahrir. Mas em ambos os casos tenho contactos actualizados que a qualquer momento posso reactivar.

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