Entrevista, HQ, Moçambique

Rui Tenreiro: “O historicamente correto é irrelevante e até indesejável”

A Bolha é uma pequena editora do Rio de Janeiro, com um trabalho artesanal de primeira e um catálogo pequeno, mas escolhido com olhos cirúrgicos. É dela o essencial “Gigantes do Jazz”, de Studs Terkel, tratado aqui.

capa_celebra_oUma das melhores coisas da editora é a HQ “A Celebração”, do moçambicano Rui Tenreiro. Radicado na Suécia, ele é um dos principais ilustradores da atualidade e autor de HQs instigantes. Seus trabalhos podem ser vistos no “The New York Times”, “The Guardian”, em capas de livros e animações para TV.

É autor também das HQs “Lanterns of Nedzu” e “Thelytoky”, inéditas no Brasil.

“A Celebração” é uma história em looping. Começa com dois andarilhos que caminham por uma floresta e encontram um bicho gigantesco. Continuam a andar, escolhem um local para dormir e, no dia seguinte, seguem viagem. Ao encontrar um vilarejo, relatam o que viram, mas, ao voltar ao local, nada encontram.

Coisas misteriosas acontecem durante o sono, o vilarejo é tomado por um sentimento de revolta e as coisas caminham para voltar ao seu lugar de partida.

Tenreiro conversou com o blog e falou de suas influências, de artistas japoneses – sua preferência atual – e da concepção de “Celebração”.

*****

“A Celebração” foi lançado no Brasil por uma editora pequena, artesanal, mas que tem muito cuidado com os livros – A Bolha. Como foi a negociação?
Não me lembro muito bem como tudo iniciou, mas A Bolha contatou-me a certa altura e eu gostei de como a Rachel (Gontijo, a editora), estava a iniciar um projeto pequeno, mas apaixonado. Eu queria muito lançar a história na minha língua materna e portanto pareceu-me a oportunidade ideal. A Rachel tinha algumas das mesmas referências que eu em termos de artistas e curadoria. Gostei da atitude dela e achei que estava em boas mãos.

“A Celebração” é seu único livro lançado no Brasil. Há propostas para lançar seus outros livros?
Estou neste momento a trabalhar numa história um pouco no estilo da “Celebração”, que gostaria de ver publicada no Brasil. Logo se verá. É uma história mais complexa, mais tradicional, com mais foco nos personagens que anteriormente.

Ao dar um sentido de looping em “A Celebração” , a ideia era formular uma crítica ao comportamento atual, do esquecimento rápido, por conta de redes sociais e imediatismo?
A qualidade de looping da história apareceu de forma instintiva. Foi resultado de uma exploração das possibilidades da narrativa, mas foi feito de forma pouco considerada porque naquela altura ainda não prestava muita atenção à estrutura do enredo. É claro que houve intenção em fazer esse looping, mas simplesmente porque na altura fez sentido terminar a história da mesma forma como tinha iniciado. É algo inexplicável, mas surgiu no momento de construção da história. A história é composta de várias sub-sequências, todas elas ligadas de uma forma ou de outra. Mas não houve intenção nem interesse algum da minha parte em fazer comentário social.

rui1-480x360Você não deixa claro a época nem o lugar onde “Celebração” se passa. Tem-se a sensação de um país asiático por causa da cerimônia das refeições. Mas podia ser na Europa. A época, provavelmente na metade do século 20 – por causa do avião. O que pretendia com essa ausência de informações?
É claro que essa confusão é propositada. Desejo criar um espaço e tempo não existentes, para que o leitor possa entrar num espaço de sonho auto-suficiente, onde se possa gozar a história hermeticamente, para sempre. O historicamente correto é irrelevante e até indesejável.

Os animais são personagens importantes em seus livros – o pássaro de “Celebração”, a abelha de “Thelytoky”, o caranguejo de “Lanterns of Ledzu”. O que o levou a essa opção?
De certa forma foram os animais que escolheram a história e não o contrário. Quando escrevo uma história, tento não pensar muito no significado dos elementos que escolhem entrar nela. Mesmo assim acredito que os elementos não aparecem por acaso, eles têm um propósito, mas não acho importante os desmistificar. Penso que a história perderia com isso. Seria como abrir uma gaveta e satisfazer as curiosidades todas, nunca mais se pensaria no conteúdo dela. Nunca tinha pensado nisso dos animais, portanto obrigado pela observação, mas terão de descobrir vós próprios o que podem os animais significar — eu somente faço as histórias.

É possível dizer que o livro tem uma certa influência da literatura fantástica ou exagero? Aliás, não só em “Celebração”, mas também em “Lanterns of Nedzu”.
Penso que sim. Mas essa influência se infiltrou nas histórias mais através da cultura popular do que da literatura. Sou influenciado por mangá e por anime, o que é evidente no ritmo de “A Celebração”. Mas a influência de Hugo Pratt e o seu “Corto Maltese” estão igualmente presentes em vários níveis da história. Em “Lanterns of Nedzu”, a história esteticamente parece estar no mesmo mundo que “A Celebração”, mas as influências são muito diferentes: a história é inspirada num antigo conto de terror japonês chamado “Botan Doro”, transcrito por Lafcadio Hearn. No entanto, a dinâmica, o ritmo e os personagens são muito diferentes das histórias anteriores.

8_ruitenreirocelebrationpg66A literatura ficcional o inspira?
Normalmente não. A história de “Lanterns of Nedzu” foi a primeira inspirada num texto. Talvez aqui devesse mencionar que o que me inspira verdadeiramente é o cinema. Vejo o cinema e as HQ como duas linguagens primas, em que o enredo depende da forma visual para explicar a história e através da qual se criam muitos símbolos e sugestões. A escrita depende de ferramentas diferentes. É certo que o cinema tem a vantagem do som, mas as HQs acabarão por fazer uso dos meios digitais como o iPad para desenvolver narrativas mais cativantes e envolventes.

Aliás, um dos nossos objetivos era que “Lanterns of Nedzu” tivesse uma versão digital com som e animação. Algo como um livro que quase tenha vida. A história terá trilha sonora e faremos trechos “demo” animados para encorajar editoras a pegarem na história e desenvolver uma versão digital com ambiente cinemático. Temos bastantes ideias a respeito de histórias em HQ para adultos em iPad ou outra plataforma semelhante. E diria que o cinema serviu de modelo para muitas das decisões ao curso do meu trabalho, mais que a literatura ficcional.

Você acompanha a produção contemporânea de HQs ou prefere os clássicos?
Desde que entendi o gênero japonês gekiga (mangá dramático para uma audiência adulta) há alguns anos, tenho tido dificuldades em voltar a ler as novelas gráficas ocidentais. O nível das histórias, enredo, dos personagens, intensidade da narrativa e da linguagem gráfica no Japão é incrivelmente bom. A Drawn & Quarterly (editora canadense que lança quadrinhos independentes) tem lançado gekiga de autores japoneses, e tenho lido quase tudo o que eles lançam. Alguns dos melhores livros para mim, até agora, foram “Red Snow” (Susumu Katsumata), “A Drifting Life” (Yoshihiro Tatsumi) e quase tudo de Shigeru Mizuki, mas especialmente a novela histórica sobre a Era Showa, que são mais de 1.000 páginas em quatro volumes, o primeiro dos quais foi lançado recentemente. Achei também interessante a série “In The Times of Botchan”, por Jiro Taniguchi.

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