Ficção, México, Notas de leitura, Portugal, Uruguai

Notas de leitura

um-dois-e-ja_4697“Um, Dois e Já” (CosacNaify), de Inés Bortaragay
O país é o Uruguai, o tempo, a ditadura – ou o fim dela. Em nenhum momento da novela o leitor fica sabendo exatamente onde ou quando, a não ser em uma pequena referência logo no início, de um programa de rádio que insiste em falar em ações punitivas. A viagem de carro de uma família, pais e quatro irmãos, é toda narrada pela terceira filha, em meio a uma disputa de quem senta na janela.

A garota promove jogos, observa a todos no carro, narra a passagem do tempo enquanto a família viaja para a praia. O escritor Vitor Ramil, na orelha, relaciona a garota a Holden Caufield e Huckleberry Finn – e é impossível não lembrar da visão ingênua dos personagens e enxergar um inventário sensível das relações familiares.

Como a garota sempre diz, “por mim, poderíamos ficar aqui para sempre, para sempre nesse banco de couro bege, com esse cheiro de pijama no ar e migalhas de empanadas entre as pernas”. A escritora uruguaia entrega então uma novela singela, prazerosa, que nos faz lembrar então das viagens de carro com a família. E isso não é pouco.

OS_PASSOS_EM_VOLTA_1281111361P“Os Passos em Volta” (Azougue), de Herberto Helder
A sugestão veio do livreiro que me atendia na Quixote. Conversávamos sobre literatura russa, quando ele lembrou desse livro de contos do poeta português.

Confesso que não conhecia o autor. E este livro, ainda que tenha me apresentado o autor por uma porta alternativa, proporciona uma leitura intensa, provocada pela prosa poética, reflexiva. Os contos partem de uma viagem do autor pela Europa. Encontramos ecos de suas andanças e das pessoas que conheceu ao longo da estrada. Pode soar como autobiográfico, mas Helder mantém uma austeridade que impede essa aproximação.

“Agora uma mulher bebia cerveja na minha solidão, falava do filho que abandonara, do marido que estava na guerra. Dizia sorrindo que estava perdida. Gostava da cerveja belga, achava Bruxelas insuportável. Sim, queria morrer. Queria morrer anonimamente, no fim do deserto. Eu percebia.”

corpo-em-que-nasci-guadalupe-nettel-ligia-braslauskas-livro-600“O Corpo em que Nasci” (Rocco), de Guadalupe Nettel
A autora mexicana promove aqui uma viagem à sua história, por meio da relação com sua psicanalista. Nascida com uma deficiência no olho, que borra sua visão, Guadalupe fala de sua infância no México e depois da sua mudança para uma vilarejo na França, com a mãe e o irmão.

Poderia soar como um relatório das sessões de psicanálise se não fosse a verve firme a tratar do seu espaço, do seu olhar particular e como o defende. Uma ótima oposta do selo Otra Língua.

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