Comentário, Ensaio, França

Reflexos de uma tortura não realizada

13074_ggFrançois Bizot foi um dos poucos prisioneiros do Khmer Vermelho a sobreviver para contar sua história. E ele o faz em duas partes.

Esse é o ponto de partida de “O Silêncio do Algoz” (Companhia das Letras), memórias da sua passagem pelos porões da selvageria cambojana, Ele passou três meses na prisão, em 1971, acusado de ser um espião da CIA – o francês estava no Camboja para estudar o budismo.

Mas por algum motivo que ele não consegue entender, seu carrasco, anos depois condenado pelas atrocidades cometidas, o liberta. Resta então a Bizot o conflito: condenar seu algoz ou revelar uma certa simpatia pelo homem que o libertou.

O livro não entra em detalhes do seu período na prisão, narrado em outro livro – “Le Portail”. Conta sim como foi a relação com Deuch, capacho de Pol Pot e que lutou pela sua libertação. Os jogos de mente, a perturbação por saber que seria libertado, a relação com seus guias, assassinados após sua saída, isso tudo provoca uma reflexão profunda de Bizot.

Culmina no julgamento de Deuch, quando Bizot vai testemunhar. O andamento é angustiante, assim como os dilemas do francês. Ele tenta entender não só esse conflito, mas também o homem, o carrasco, acusado de crimes contra a humanidade, um dos mais temíveis torturados do regime de Pol Pot.

Sobrevivente, consegue imprimir um tom longe da autopiedade, sempre lúcido, o que transforma o livro em um documento fundamental para entender as engrenagens humanas e como mal e bem nunca estão em áreas sem um grau de cinza.

*****

“Para lá das ‘trágicas anomalias de comportamento’, imediatamente atribuídas aos déspotas sanguinários uma vez vencidos, desmascarados e estigmatizados pelo senso comum nos livros de história, é justamente esta parte do ser sensível  – a que compartilho com eles, por ser igualmente reveladora da minha natureza íntima – que está na origem de toda a minha aflição e perturbação. Na medida em que observamos sem dissimulação a monstruosidade do outro, cedo ou tarde acabamos por reconhecê-los em nós.”

“O horror aparecia-me agora não mais como a consequência de uma inferioridade que tolhia o ‘livre desenvolvimento da alma’, de uma falha de constituição das naturezas sombrias, em que mal penetram os raios de luz. Não sabia que a orquestração do mal não exclui forçosamente a sinceridade e a generosidade. Imaginava que a selvageria fosse algo inato, um tributo pago à natureza por indivíduos perigosos, à revelia de quaisquer determinações.  Achava que matar, agredir, eram atos que delatavam um temperamento, originavam-se de uma necessidade dominante, de disposições psicofisiológicas anômalas, de uma natureza. Pensava que a humanidade, que faz de cada um de nós o pai amado, o filho amado, o ente querido, jamais, nem por um instante, pudesse comportar os monstros que engendra.

Deuch me tirou do erro tão dolorosamente que se tornou impossível, a partir de mim apenas, avaliar as consequências do que eu acabara de viver sem de ponto estremecer.”

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2 thoughts on “Reflexos de uma tortura não realizada”

  1. Lembrei agora de Os gritos do silêncio, filme que me impressionou muito quando eu tinha uns 15 anos e que fala sobre essa absurda tragédia coletiva. O que mais me intriga nessas ditaduras insanas é a capacidade que um homem ou um punhado de homens tem de exercer um poder quase indestrutível sobre uma maioria. Como eles conseguem convencer os soldados a matar gente do seu próprio povo. Hitler até hoje é uma incógnita para mim. Pol Pot também.

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    1. Os gritos do silêncio, filme perturbador. Esses selvagens respondem apenas à sua psicopatia para perpetuar atrocidades como essas. O triste é que a história está recheda de pessoas como Hitles, Pol Pot e afins.

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