Brasil, Comentário, Ficção

Retratos de uma ditadura

Bernardo Kucinski começou a escrever ficção aos 74 anos. Mas seu início é tão arrebatador que a pergunta que fica é por que tão tarde.

Com carreira no jornalismo, Kucinski talvez tenha demorado a escrever ficção para ter tempo de mensurar traumas. Seus dois livros têm como tema central a ditadura militar e a tortura.

capa_k“K.”, lançado em 2011 pela pequena Expressão Popular, foi finalista dos principais prêmios literários. Agora, ganha reedição pela Cosac Naify, que também lança o novo “Você Vai Voltar Pra Mim”, reunião de contos.

A prosa de Kucinski mantém laços fortes com a realidade. No romance, um pai se lança num procura labiríntica atrás da filha e do genro desaparecidos. Bate a porta de generais, de grupos de apoio, sempre com pistas falsas. Descobre no meio do caminho que a filha era casada, que talvez estivesse envolvida com a resistência.

Kucinski perdeu a irmã para a ditadura e reconta essa história no romance.

O livro é brutal. Seco, curto, objetivo, com frases extremamente bem construídas, “K.” é um dos grandes momentos da literatura brasileira.

Em entrevista à revista “Brasileiros”, o autor disse que esse livro também poderia ser lido como reunião de contos, pois alguns capítulos são independentes.

Os capítulos a que ele se refere são monumentais. Em um deles, a amante do delegado Sérgio Paranhos Fleury conta como era viver com ele. Em outro, uma doméstica conversa com uma psicóloga sobre as coisas que presenciou numa casa do terror. Um retrato cru dos bastidores da tortura e da repressão.

Voce Vai Voltar Pra Mim_1887Os contos de “Você Vai Voltar Pra Mim” passeiam pelo mesmo caminho. Histórias reais que se misturam à imaginação de Kucinski, sempre no mesmo estilo de prosa.

Histórias que assustam porque reais. Como a da família que enterra um filho em “O Velório” – no caixão, havia somente um paletó e um par de sapatos, história verídica.

Ou o conto que dá título ao livro, uma aterrorizante promessa feita por um torturador a uma mulher que vai a uma audiência com esperança de se livrar da prisão.

Kucinski não é descritivo. É sugestivo. Transfere para os fatos a responsabilidade de chocar o leitor. Os dois livros se transformam assim em leitura obrigatória para entender um pouco o que se passou na ditadura.

Formam um retrato físico e emocional de uma época.

E abdiquei da opção de transcrever trechos. Os livros são tão fortes e concisos que um recorte poderia descaracterizar a história.

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