Chile, Comentário, Ficção

O ciúme como motor, a origem como dissolução

Gustave Courbet chocou a sociedade francesa quando pintou “A Origem do Mundo”, em 1865, em que retratava a genitália de uma mulher. Em 2013, um especialista disse ter identificado a modelo do pintor francês, uma notícia recebida com desconfiança.

a-origem-do-mundoMuito antes, em 1991, o chileno Jorge Edwards já havia imaginado como seria a busca pelo rosto da modelo. Em doses ficcionais, seu romance “A Origem do Mundo” é a procura obsessiva por um rosto que talvez não se encaixe na fantasia.

Dois amigos exilados em Paris são a espinha dorsal do livro de Edwards. Felipe Díaz vive a criticar o comunismo, que antes defendia, e a beber uísque e ter casos efêmeros. Já o médico Patricio Illanes vive a ouvir os lamentos do amigo. Casado com Silvia, uma mulher 20 anos mais jovem, vai encarar o ciúme como objetivo.

Ao ver o quadro de Courbet no museu, Patricio faz uma brincadeira e diz que a imagem se parece com Silvia. Ele se refere não ao original, mas a uma fotografia que está na casa de Felipe, que tinha a mania de retratar suas amantes.

A desconfiança aumenta após a morte de Felipe, quando Patricio vai à casa do amigo pegar documentos e se depara com o que ele imagina serem provas do romance do amigo com sua mulher.

O ciúme toma conta da vida de Patricio, que sai em busca de respostas para sua dúvida, como se ele precisasse encontrar provas para um objetivo já traçado. Conversa com amigos, invoca Lacan e Sêneca e transforma sua vida em um inferno.

Edwards leva seus personagens também a tratarem da desilusão política, do enfrentamento da morte e da decadência e da fantasia.

A tela de Gustave Courbet
A tela de Gustave Courbet

No posfácio, Mario Vargas Llosa assim descreve o livro: “O grande acerto do romance é que, no fim, o que o leitor na verdade descobre, graças à neurótica jornada de Patricio em posse de um fogo-fátuo, é algo mais comum em menos deprimente que a peripécia tragicômica de um velhaco: sem o adereço desses enganos, dessas fantasias, o amor defininharia, se atrofiaria o desejo, e a vida seria menos intensa e menos humana, uma rotina empobrecedora e animalizada”.

Essa espécie de via-crúcis de Patricio, em que o ridículo é sempre uma fronteira próxima, mas ao mesmo tempo tão reconhecível, pois, como diz Llosa, humano, faz de “A Origem do Mundo” muito mais do que um romance sobre um velho ciumento. Talvez seja a história de todos nós.

*****

Sinapse

  • “Dom Casmurro” (Globo), de Machado de Assis, de quem Jorge Edwards se diz devedor
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2 thoughts on “O ciúme como motor, a origem como dissolução”

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