Arquivos, Biografias/Perfis, Brasil, Entrevista, Música

“Renato foi o cara que falou o que estava por ser dito”

Hoje, Renato Russo faria 54 anos. A data não é redonda, mas me deparei com ela nas redes sociais e me lembrei da entrevista que fiz com Carlos Marcelo, jornalista e autor do livro “O Filho da Revolução”, que trata da relação do músico com Brasília, da formação do Legião Urbana até o fatídico show no estádio Mané Garrincha, em 1987. A entrevista foi feita em 2009, na época do lançamento do livro, e publicada no jornal “O Tempo”. O livro com a capa original se esgotou (ou foi retirado) e ressurgiu com duas novas imagens, com referências aos dois filmes que se basearam no personagem: “Somos Tão Jovens” e “Faroeste Caboclo”. São essas as que estão à venda atualmente.

*****

2735708Nos anos 1980, Brasília era a capital do rock, onde Renato Russo se enveredou pela música e criou o Legião Urbana. Também lá o compositor enfrentou tragédias como o show no estádio Mané Garrincha, em 1987. A relação de cantor com a cidade é destrinchada no livro “Renato Russo – O Filho da Revolução” (Agir, 400 págs, R$ 59,90), do jornalista Carlos Marcelo. Confira a seguir entrevista com o autor. Como foi negociar com a família de Renato Russo? Segundo os ex-legionários, a família normalmente endurece qualquer negociação envolvendo a obra do cantor… Não houve propriamente uma negociação. Em 2000, quando surgiu a ideia de fazer um livro visual entrelaçando a história de Renato com o crescimento de Brasília (cujo título seria “Cantos de Concreto – a Brasília de Renato Russo”), a receptividade da família foi ótima. Os três – pai, mãe e irmã – concederam entrevistas e citaram nomes de familiares e amigos anônimos que poderiam colaborar no desenvolvimento das entrevistas. Quando se consolidou o projeto de uma biografia mais extensa, eles também não colocaram nenhum tipo de empecilho. Assim foi até o final, com ampla liberdade de pesquisa e edição – em nenhum momento, por exemplo, eles pediram para ler trechos do livro. Você classifica seu livro como uma biografia de Renato Russo? É uma reportagem biográfica sobre o período de formação de um artista no seu tempo e no seu espaço. Mas não é uma biografia convencional porque a ênfase está em um determinado período de vida do Renato, quando ele se chamava apenas Renato Manfredini Júnior – o nome Renato Russo só aparece no sexto capítulo, depois de 300 páginas. Propositalmente os fatos que ocorrem com o Renato no Rio de Janeiro, já consagrado nacionalmente, são tratados de forma sucinta. Como eram aspectos mais conhecidos pelo público, eu não sentia muita motivação em revisitá-los. Ainda há material de baú a ser explorado? Não tenho conhecimento da extensão do acervo de gravações e registros audioviosuais inéditos com qualidade mínima para um lançamento comercial. Já entre as dezenas de manuscritos que pude consultar e reproduzir, guardados no apartamento do cantor no Rio de Janeiro, há algumas letras inéditas, rascunhos de outras que chegaram a ser gravadas em versões diferentes, anotações de diversas fases da vida e cartas. Selecionei as que eram mais representativas para o livro e as incluí por meio de citações ou reproduções. Teve alguém que você gostaria de ter entrevistado mas que por algum motivo não foi possível? Houve recusa? Gostaria de ter contado com depoimentos da família do André Pretorius, guitarrista do Aborto Elétrico, mas não consegui localizá-los na África do Sul – acho que teria enriquecido mais o perfil do “clone do Sid Vicious”, na definição do Renato. E houve duas recusas (uma de um parente dele, outra de uma colega da Cultura Inglesa) – como foram mais de cem entrevistas, acho que essas negativas não chegaram a comprometer a ideia inicial de traçar um painel multifacetado. Por outro lado, as longas entrevistas com os familiares mais próximos e os depoimentos de dezenas de pessoas anônimas, “amigos invisíveis” da adolescência do Renato, foram particularmente reveladores e úteis na montagem desse quebra-cabeças. Logo após a morte, saíram livros que compilaram entrevistas do cantor, outro que era uma espécie de dicionário sobre a vida de Renato Russo. Ele possui ainda duas biografias, mais os livros que tratam da história do rock de Brasília (“Diário da Turma”, por exemplo). O que o seu livro acrescenta a essa bibliografia? Acredito que o livro mostra, em detalhes, o período de formação do Renato e sua forma de se relacionar com a família, amigos, a cidade e com o país. Há também uma preocupação de contextualizar o crescimento de um jovem em um determinado momento da história recente do Brasil – um período (anos 70) não muito explorado, por conta da explosão de rebeldia no fim da década anterior . E, em paralelo, é contada também uma parte da trajetória da música popular brasileira – de Caetano, Chico, Ney Matogrosso, Milton Nascimento até a explosão do rock nacional. Ao focar a narrativa na relação com Brasília, qual Renato Russo surge no seu livro? Percebi que Renato, depois de se recuperar de uma doença (epifisiólise) que o deixou com movimentos comprometidos por quase um ano e meio no auge da adolescência, resolveu viver intensamente cada minuto. Superou a timidez e foi à luta. Tentou se expressar de todas as formas disponíveis à época: publicou poesia, escreveu uma peça de teatro, cursou jornalismo, trabalhou como produtor e locutor de rádio, subiu no palco pela primeira vez como ator, tudo isso em menos de cinco anos e antes de se dedicar exclusivamente ao rock. O que há de novo no livro? Em termos de descobertas concretas, além dos manuscritos reproduzidos ao longo do livro, há a questão dos pareceres da censura com restrições e avaliações às letras do Renato, já a partir de 1981, antes da Legião, quando ele ainda estava no Aborto Elétrico. Foi um trabalho árduo, porque esses documentos, guardados no Arquivo Nacional, não estão catalogados e organizados por intérprete – têm que ser procurados manualmente em centenas de caixas, em meio a todas as músicas escritas no Brasil naquele ano. Cada achado era uma comemoração: foi assim que consegui encontrar os processos de músicas como “O Reggae”, “Baader-Meinhof Blues” e “Faroeste Caboclo”, bem como letras que a banda não chegou a gravar, como “Setenta e Sete”, uma versão embrionária do sucesso “Tempo Perdido”. renato_pO que Renato Russo significa hoje para Brasília? Apesar de não ser mais como nos anos 1980, a cidade ainda carrega um rótulo (“a capital do rock”) que se deve à força da obra de Renato e de outras bandas da época – vale lembra que se trata da primeira manifestação artística produzida na capital a repercutir nacionalmente. Se alguns dos temas da Legião eram muito relacionados ao período que Renato viveu na cidade (tédio, autoritarismo institucionalizado), outros continuam servindo como farol para as novas bandas brasilienses, como o faça-você-mesmo. No mais, acho que a cidade ainda deve um reconhecimento maior a um dos seus maiores compositores. Renato Russo era um fã de rock, por isso montou a banda. Gostava de escrever releases fictícios, setlists e desenvolvia métodos particulares para organizar sua coleção de discos – por ordem de gosto pessoal. O que ainda existe de mito na história do artista? Alguns episódios de sua vida, como a tentativa de suicídio pouco antes do lançamento do primeiro disco, costumam ser mitificados e aparecem no livro de forma crua, até desconcertante. Minha tentativa desde o início foi de humanizar o personagem, mostrando-o com todas as suas características sem esconder nada: o Renato podia ser, por exemplo, considerado chato e de difícil convivência por muitos colegas do colégio e da faculdade; para outros, era um amigo atento e afetuoso. O show de Brasília é mais marcante para a trajetória de Renato Russo do que a descoberta da Aids – mesmo com toda a carga que a doença carregou, como momento de rompimento, Brasília teve peso maior? O show do Mané Garrincha é marcante por diversos motivos: a tentativa frustrada da volta do filho pródigo (a Legião estava no topo da popularidade por conta do sucesso radiofônico improvável de “Faroeste Caboclo”), a vocação para o erro que Brasília carrega desde a deformação da utopia logo após a inauguração da capital. Também é emblemático por conta da guinada que a Legião faria a partir do próximo disco, com músicas mais suaves e letras espiritualistas, no álbum “As Quatro Estações”. Eles perceberam que não poderiam mais se comportar como uma banda punk ou pós-punk – estavam em outro patamar. Talvez, então, para a trajetória artística do Renato o show tenha sido muito marcante, mas, obviamente, para sua vida particular a Aids foi um fator decisivo de desestabilização emocional. Outros fatores, como o rompimento de um relacionamento amoroso com um norte-americano, também contribuíram para o agravamento da depressão que o acometeu nos últimos anos de vida. Esse período, por sinal, é narrado de forma magistral pelo Arthur Dapieve em “O Trovador Solitário” – mais um motivo pelo qual seria redundância a minha volta ao tema. Preferi narrar os últimos dias do Renato de forma mais metafórica e mostrando a repercussão de sua morte entre os fãs. A narração do show de Brasília é climática, pontual, narrativa. Como você chegou a essa opção? Sempre pensei no show de Brasília como ponto de partida e de chegada do livro – mas não apenas reproduzir o que aconteceu em cima do palco durante 58 minutos, mas o pré-show e o pós-show, ambos igualmente tensos, marcados por explosões de violência e hostilidade. Quando chegou a hora de escrever, decidi interferir ao mínimo na narrativa e reproduzir integralmente o que foi dito pelo Renato no palco. Por isso, me preocupei muito com o ritmo das frases e da pontuação – teriam que ser períodos curtos, diretos, até para tentar reproduzir a urgência dos acontecimentos e fazer o contraponto com o primeiro capítulo do livro. É como se a abertura do livro, com longos períodos e descrições, fosse em ritmo de rock progressivo, e o desfecho, escrito em ritmo de punk rock. Você estava naquele dia no Mané Garrincha. Temeu por algo maior no show? Eu estava nas cadeiras e cheguei cedo, então vi o que aconteceu na pista com muita preocupação e ansiedade: vi os policiais partindo pra cima de alguns fãs com cachorros e cavalos, vi brigas entre o público, invasão da pista, gente pulando da arquibancada para o gramado… tudo isso antes de começar o show. Quando o Renato foi agarrado em cima do palco, sinceramente eu pensei que ele seria esfaqueado – foram instantes de perplexidade e apreensão. E ao sair, menos de uma hora depois do início, e ver o quebra-quebra de ônibus e do palco, essa perplexidade se acentuou. Era para ter sido uma festa e virou faroeste. Lembrada hoje, qual sua opinião sobre aquele show? Acredito que o ocorrido no Mané Garrincha não foi um fenômeno isolado – por isso, incluí no livro passagens que mostram outros shows conturbados (Milton, Rita Lee) na cidade e fiz questão de revisitar o Badernaço, que, dois anos antes, tinha destruído a rodoviária do Plano Piloto. Talvez por conta do silêncio imposto por duas décadas, Brasília recém-redemocratizada estava sempre perto de explodir – só faltava o estopim. Como Brasília vê hoje aquele momento? Ainda há ressentimento? Não percebo mais um ressentimento tão latente como quando o Renato estava vivo. A morte, é inegável constatar, amainou a animosidade e despertou sentimentos menos ásperos em relação ao Renato. Entre eles, a inescapável mitificação e algumas insólitas demonstrações de amor à obra do Renato vindas de pessoas que não demonstravam entusiasmo com o rock brasiliense quando ele despontou. A biografia musical brasileira é muito pobre. Não raro depende de aprovação dos artistas para que uma obra seja publicada – como exemplo, a recente biografia de Roberto Carlos, recolhida das lojas. No exterior, é comum existir versões inúmeras de biografias, autorizadas e as chamadas não autorizadas, além das autobiografias. Bandas como RPM e Raimundos, por exemplo, já teriam diversas biografias caso fossem norte-americanas – o mesmo para artistas da MPB. O que falta para esse mercado acordar? Ele é condescendente com os artistas? Concordo com você – há ainda muitas lacunas na estante da biografia musical brasileira. No gênero pop-rock, por exemplo, a bibliografia ainda é incipiente, apesar de alguns (ótimos) livros como “Dias de Luta – O Rock e o Brasil dos Anos 80”, de Ricardo Alexandre, “Nada Será como Antes”, de Ana Maria Bahiana, e os do Arthur Dapieve sobre Renato e sobre o rock brasileiro. Acho que ainda falta estabelecer uma conexão mais forte entre o público que consome discos e o que compra livros. Enxergar além do imediatismo e perceber focos diversificados de interesse – a história da música brega, por exemplo, continuaria obscura e encarada de forma preconceituosa não fosse o trabalho do Paulo César Araújo. Como você avalia a obra do Legião Urbana com a distância que o tempo proporcionou? Acho que a Legião é a banda mais emblemática de sua geração – e não só pelo fato de ter sido a maior vendedora de discos. Mas por ter incorporado o espírito do seu tempo – do ponto de vista da estética e da sonoridade, em sintonia com o que ocorria no mundo. Acho que o Renato conseguiu exprimir, de forma incisiva e lírica, as angústias, anseios e desejos de uma nova juventude urbana brasileira. Como diria João Gilberto Noll, depois de duas décadas de silêncio, era preciso dizer alguma coisa urgentemente – Renato foi o cara que falou o que estava por ser dito. Nesse ponto, tento mostrá-lo no livro como um cronista da juventude brasileira.

Anúncios

Um comentário em ““Renato foi o cara que falou o que estava por ser dito””

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s