Brasil, Entrevista, Não ficção

Autora de “Viagem à Palestina” conversa com o blog: “Não há mais o que proibir”

viagem-a-palestina-adriana-mabilia-literatura-r7-450O subtítulo “Prisão a Céu Aberto” é a melhor definição para o livro da jornalista Adriana Mabilia. Ela viajou à Palestina para investigar como vivem as pessoas com circulação restrita, que têm que enfrentar os checkpoints impostos por Israel e o muro que divide casas ao meio e separa famílias.

“Viagem à Palestina” (Civilização Brasileira) colou o subtítulo de forma a identificar de imediato a consequência de tais medidas de segurança adotadas por Israel.

Adriana viajou a Belém, que foi sua base de trabalho, para conversar com as mulheres que vivem sob tal cerco. Entrevistou estudiosos e ativistas para construir um painel potente. Mais importante, manteve uma distância dos fatos que ajudaram a fazer com que o texto não demonstrasse simpatia ou horror. Os fatos falavam por si.

Como diz José Arbex Jr. na contracapa do livro, “Mabilia pega o leitor pelas mãos e passeia com ele pelas paisagens da Palestina”.

Adriana trabalhou em grandes emissoras de TV brasileiras, sempre na área internacional – ela pede para não citar os veículos, pois quer deixar o trabalho de escritora independente da TV.

Ela conversou com o blog e detalhou sua viagem e o modo de preparar o livro. Falou das suas reações e impressões e de jornalismo e adiantou que está escrevendo um livro sobre Cuba.

*****

Como surgiu a ideia do livro?
Quando entrei para a editoria internacional, 15 anos atrás, o conflito israelo-palestino exigiu de mim muita leitura para saber um pouco do tema e para poder escrever sobre isso. De tanto ler, ler e ler, passei a gostar do tema e não parei mais de estudá-lo. Foi o tema da minha monografia na especialização em jornalismo internacional. Foi aí de fato que surgiu a ideia do livro. Na monografia, eu não podia incluir tudo o que eu queria, todo o material de entrevista que eu estava coletando, ainda no Brasil. Então, decidi escrever o livro e ao longo de um ano o projeto foi ganhando contornos e se tornando real. Fui para lá (Belém) e o livro saiu.

Um dos fatos marcantes do livro é o distanciamento com que você escreve, sem se deixar levar tanto pela emoção, mas também escapando de um relato frio. Foi difícil encontrar esse equilíbrio?
Bom, é um exercício incrível esse, o de se colocar como observador de algo que está de fato acontecendo. É meio como uma ficção, como uma viagem no tempo e como se você fosse imune aos riscos e perigos do que está acontecendo. Faz parte da profissão de jornalista. E eu tenho o maior respeito por isso. Talvez seja até o que mais me satisfaz na minha profissão.

Por que a escolha de Belém?
Porque é o lugar mais acessível para os territórios ocupados. Como ali tem a igreja da Natividade, é um bom argumento para um turista entrar ali.

Você em algum momento se sentiu ameaçada? Sua segurança esteve em perigo? Mulher, jornalista e ocidental, isso pode ser uma mistura complexa na região. Ou não?
Olha, durante a viagem, eu não senti perigo ou medo, não. Mas quando comecei a escrever e a botar tudo no papel, de fato, eu percebi que me arrisquei um bocado. Mas como eu organizei e planejei a viagem com muito envolvimento e sozinha, fiz tudo sozinha, acho que eu me sentia meio blindada. Não pensava em perigo, não. Se tivesse pensado, não teria feito o livro. Não teria passado da fronteira da Jordânia com Israel.

Em algum momento, nessa revisão, achou que poderia ter ido mais longe?
Sempre é possível ir mais longe, mas a sensação foi mesmo de realização, de tarefa cumprida.

Quando você fez a viagem?
A primeira viagem e a mais longa, foi em 2009, depois voltei mais três vezes, a última em 2011.

 

Muro de Israel, em Belém | Foto: Adriana Mabilia
Muro de Israel, em Belém | Foto: Adriana Mabilia

Qual a avaliação que você faz daquela região hoje, três anos depois da última viagem?
Não sei se as coisas por lá mudam tanto assim. Pelo menos, entre Israel e os territórios ocupados, pouca coisa muda. A situação que relato no livro é exatamente a mesma: assentamentos ilegais, checkpoints, muro etc. Nada mudou.

Há mudanças no esquema de segurança?
A repressão é total. Não há mais muito o que proibir. Israel já tem todo o sistema de segurança articulado. Não é de improviso ali.

O que mudou para você depois da viagem?
Bom, percebi que é realmente isso que gosto de fazer: reportagens. Sou editora e adoro o que faço, mas a reportagem faz parte disso. Não dá para ser jornalista à distância. A tecnologia ajuda muito, muito. Não vejo o jornalismo sem a internet. É instrumento de trabalho obrigatório. Mas o jornalista tem que conhecer o mundo para saber de fato o que está acontecendo. Não dá para ser um jornalista direto da redação o tempo todo. É preciso ir para a rua, ver pessoas, ver o que está acontecendo.

E como aquela região a tocou?
Quando você entra em contato com o mundo, você passa a respeitar mais os fatos e as circunstâncias. Você passa também a respeitar mais o conhecimento para entender o que você está vendo. Aquele lugar é incrível, os territórios ocupados, Israel. É história, passado, tudo muito presente, o tempo todo.

Você é uma pessoa religiosa?
Não, não sou religiosa, mas sou uma pessoa de fé. Se não tivesse fé, não faria metade das coisas que faço.

Você tem vontade de voltar para ver como estão aquelas mulheres?
Na verdade, mantenho contato com boa parte das pessoas que entrevistei. Mas é claro que quero voltar para lá. Vou voltar. O triste é saber que vou encontrar quase tudo do jeitinho que deixei. Uma pena.

Tem outro livro no horizonte?
Estou trabalhando em mais um livro-reportagem. É outro tema incrível para mim. Na verdade, estou trabalhando em dois meio ao mesmo tempo. Mas o livro sobre Cuba vai sair primeiro. Tenho ido para lá com frequência para fazer as entrevistas.

Do que trata o livro sobre Cuba?
Bom, estou tentando contar como os cubanos estão hoje, mas é claro que a história toda da Revolução é muito presente. Aliás, a Revolução não acabou. Só está se reciclando, como dizem os próprios cubanos.

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Sinapses

  • “Palestina – Uma Nação Ocupada” (Conrad), de Joe Sacco
  • “Eu Vi Ramallah” (Casa das Palavras), de Mourid Barghouti
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