Colaboração, Crônica, Ficção, Moçambique

A viagem por Moçambique passa por Guimarães Rosa

Por Dolores Mendes

Nem só de elefantes, leões e girafas livres na selva vive Moçambique, um país da África Subsaariana, que faz divisa com a Tanzânia e tem o quinto menor Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do mundo (0,284). Bem longe das tradicionais imagens mostradas pelas redes de TV, o escritor Mia Couto mostra com a força de uma rica literatura um país de vários povos, que mantêm suas tradições.

Em cada livro de Mia Couto, há muito de Moçambique e de suas várias línguas e crenças.  Mortos renascem e voltam a morrer em “A Varanda de Frangipani” (Companhia das Letras). Outras viram água, como a personagem Nãozinha: “Em cada noite eu me converto em água. Logo que amanhece, de novo se refaz minha substância. Para dizer a verdade, eu só me sinto feliz quando me vou aguando.”

Em “Um Rio Chamado Tempo, Uma Casa Chamada Terra” (Companhia das Letras), as águas se tornam vida para o personagem principal, Marianinho, que volta à sua terra natal para o enterro do avô.

Águas de Moçambique, é claro, que trazem sons de nganga e xicuembo. Mia Couto faz questão de usar esse vocabulário em respeitos às várias etnias. Além de usar o português e outras línguas locais, o autor cria neologismos e experimentações linguísticas usando eruditismos, plebeísmos, regionalismos e estrangeirismos.

miacoutAlgo bem parecido com o que fez Guimarães Rosa, autor que o moçambicano afirma idolatrar. Em uma entrevista ao site da Companhia das Letras, ele mesmo diz o quanto gosta de inventar palavras.

“Eu gosto, sem qualquer narcisismo, de uma palavra que eu mesmo criei e que é ‘abensonhar’. A benção que gostaria que alguém me concedesse não poderia ser pronunciada numa língua existente. O escritor quer é falar na língua dos sonhos, essa que não tem possibilidade de tradução.”

Em uma palestra dada na UFMG, em 2007, Mia Couto falou de sua proximidade com a obra de Guimarães Rosa e disse que o  grande trunfo do brasileiro “foi justamente não ter sido escritor, mas ter apenas visitado a literatura, deixando-se dissolver pelo mundo da oralidade.”

Os livros de Mia Couto são isso tudo. Um recriar cíclico, que mostra uma nação viva, de crenças arraigadas, capazes de gerar a melhor das literaturas. Não se preocupe com o título. Vá a uma livraria e peça Mia Couto. Leve para casa qualquer um. Todos têm o poder de surpreender e de emocionar.

*****

Dolores Mendes é jornalista, mineira por adoção e moradora da roça e come fruta no pé. Atualmente, escreve o blog Crônicas Urbanas, hospedado no Correio de Uberlândia, é integrante do Conselho de Cultura da Prefeitura de Uberlândia e da curadoria de Encontro Literário do Cerrado

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