Comentário, Crônica, Ficção, Irlanda

Como Tobias me levou a Banville

Nunca tive cachorro. Nenhum tipo de animal de estimação. A não ser que aqueles douradinhos, comprados em sacos plásticos e programados para sobreviver até a primeira indigestão de tanta comida, contem como estimação. Ou duas minitartarugas que ficavam andando pela casa, imagino que completamente apavoradas.

Portanto, nunca tive animal de estimação.

Só até o meio do ano passado, quando Tobias chegou. Não sei se sou exatamente o melhor dono de cachorro, mas tento me adaptar. Conhecer suas manias e impor limites. Acho que estou me saindo bem, pelo menos até agora. É o que indicam seu rabo balançando e as lambidas quando chego em casa.

E Tobias não veio só. Com ele, vieram pessoas que gostam de animais e que levam seus bichos para passear. O círculo de amizades cresce um pouco.

Foi por causa dele que cheguei a John Banville. Pois nesse novo círculo surgiu uma leitora compulsiva, ao que me parece. Da praça ao bate-papo virtual, as conversas surgiram, com sugestões vigorosas, conversas sobre literatura que são apenas isso, conversas, sem a pretensão de impor gostos e impressões.

Essa leitora se mostrou uma seguidora de John Banville, um autor que nunca tinha me interessado. Mas ouvi tanto e bem que resolvi arriscar.

Não comecei pelo que ela indicou ser o melhor – “O Mar” (Nova Fronteira) – por causa de um livreiro da Estante Virtual – a compra foi cancelada depois do pagamento.

42126342Comecei então por um novo “Luz Antiga” (Biblioteca Azul). E posso dizer, ao terminá-lo, que continuarei a seguir a trilha do escritor irlandês. Sua prosa envolvente leva o leitor a mergulhar na sua trama, uma história que busca resgatar memórias nem sempre confortáveis.

Um ator de teatro aposentado, Alexander Cleave, recebe um convite para filmar a história de um crítico já morto. Em meio ao convite, ele rememora o caso amoroso que teve, na adolescência, com a mãe do seu melhor amigo, na época com 35 anos.

Na sombra de suas memórias, está sua filha, que suicidou-se na presença do tal crítico, o que deixa Cleave sempre no limite .

O ator ainda se envolve com a atriz que interpreta a filha. E viaja com ela para a Itália, para o local onde sua filha se matou, após uma tentativa de suicídio da atriz.

Banville começa o livro com a memória do caso amoroso como espinha dorsal. E abandona ao final da primeira parte, exatamente no momento em que o livro perde um pouco sua força. Até aí, a narrativa é vigorosa, com uma prosa que expõe os limites morais de um garoto de 15 anos e sua amante de 35.

Ao conversar com a leitora que me indicou Banville, ouvi que o livro volta ao ritmo na segunda parte.

Não só melhora como supera a primeira. Banville leva as duas histórias – a memória e as filmagens – a um ponto em que os personagens se confrontam com suas vidas. O narrador em primeira pessoa, com suas digressões e uma volta ao passado, encontra uma forma de se amparar para o presente.

Rancor, medo, saudade, tudo envolvo numa prosa elegante, em que todo o absurdo é traduzido como arte.

*****

“Toda mulher dotada de aura que amei na vida, e uso aqui o verbo amar em seu sentido mais amplo, deixou-me a sua marca, assim como dizem que os antigos deuses da criação deixavam a marca de seus polegares na têmpora dos homens que fabricavam com barro e transformavam em nós. E é bem assim que conservo um vestígio específico  de cada uma das minhas mulheres – pois ainda penso nelas como minhas – estampado de maneira indelével no avesso da minha memória.”

“E é por esse motivo que nunca a vejo na rua, nunca a sinto invocada ao ver uma desconhecida virar a cabeça, nem ouço a sua voz no meio da multidão indiferente: de tão amplamente presente que se encontra para mim, ela não precisa me enviar sinais fragmentários. Ou talvez, no caso dela, minha memória funcione de um modo especial. Talvez não seja de todo a memória que julga guardá-la firme dentro de mim, mas alguma outra faculdade, totalmente diversa.”

“Há momentos, infrequentes, mas marcantes, em que me parece que, por força de algum ligeiro deslocamento ou lapso no tempo, fui parar no lugar errado, ultrapassando-me ou ficando atrás de mim mesmo. Não que eu me sinta perdido ou desnorteado, ou nem mesmo ache inadequado estar ou estou. É só que, de algum modo, eu me descubro num ponto, e falo de um ponto no tempo – que maneira estranha a linguagem tem de se expressar – ao qual terei chegado não pela minha vontade. E nesse momento me sinto desamparado, a tal ponto que me imagino incapaz de avançar até o ponto seguinte, ou voltar para o lugar onde me encontrava antes – incapaz de qualquer movimento, mas obrigado a permanecer ali, imerso na perplexidade, emparedado nessa fermata incompreensível.”

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3 thoughts on “Como Tobias me levou a Banville”

  1. Ricardo,

    Obrigada por mencionar Banville em seu tão precioso e saboroso espaço. Agora você pode enveredar-se pelo intrigante O Intocável, que é um livro brilhante e também se deliciar com o thriller intelectual de O Livro das Provas, cheio de referências das quais, nós leitores, gostamos muito. E claro, passar pelo O Mar!! E outros.
    Você sabia que ele também escreve sob o pseudônimo de Benjamim Black?? Tenho todos os livros mencionados. Quando quiser, é só levar!!!

    Beijos!

    Curtir

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