Comentário, Estados Unidos, Não ficção

A vida sem filtros – Um relato da Coreia do Norte

IMG_1891Em 2002, a Companhia das Letras inaugurou a coleção Jornalismo Literário com o lançamento de “Hiroshima”, clássica reportagem de John Hersey publicada em 1946 na “The New Yorker”.

Assim Matinas Suzuki Jr., coordenador da coleção, definia o livro no posfácio.

“‘Hiroshima’ é uma espécie de ‘Cidadão Kane’ do jornalismo. Como o filme de Orson Welles, esse texto lidera todas as listas de ‘melhor reportagem’ já escrita. O autor John Hersey precisou de 31.347 palavras para explicar como uma única explosão matou 100 mil pessoas, feriu seriamente o corpo de mais 100 mil e machucou a alma da humanidade.”

Hersey foi ao Japão para traçar um perfil de seis sobreviventes da bomba atômica, um ano depois do ataque. Fez mais. Quarenta anos depois, ele volta a Hiroshima para fechar a reportagem.

Fez história não só pelo tema, mas pela abordagem, detendo-se nos personagens e dando certa humanidade ao grupo. Hersey é sempre lembrado como um pioneiro do jornalismo literário, o gênero que usa técnicas de literatura para reportar.

“Hiroshima” talvez seja o ápice do gênero, com uma prosa enxuta, sem perda de foco e digressões. Soma-se um estilo vigoroso e elegante e tem-se, sim, a melhor reportagem já escrita.

nada-a-invejar-barbara-demick-ligiabraslauskas-literaturar7-700Mais de 60 anos depois, é possível ouvir o eco de “Hiroshima” em “Nada a Invejar – Vidas Comuns na Coreia do Norte” (Companhia das Letras), da jornalista americana Barbara Demick.

Lançado em 2009 e publicado no ano passado no Brasil, o livro não faz parte da coleção Jornalismo Literário e Barbara Demick não é John Hersey – até porque a comparação é fora do propósito, como comparar Pelé com outro?

Mas a jornalista, chefe do escritório do “Los Angelas Times” na China atualmente, consegue imprimir uma realidade tocante ao contar a história de seis norte-coreanos e, ao mesmo tempo, expor o regime do país, o mais fechado do mundo há décadas.

Amor, repressão, ideologia, fome, educação, solidariedade, os temas vão passando pelas páginas incorporados a seus personagens, cujas histórias envolvem o leitor graças ao ritmo da narrativa – sem muitos recortes, mas alternando as histórias de forma a criar uma linha do tempo na história norte-coreana e daquela região asiática.

O trabalho de reportagem é sublime. Seus personagens respiram. Ela mantém uma distância saudável dos seus objetos e isso reflete no texto. Os dramas são cruéis em sua natureza, e Barbara Demick assim os deixou.

Norte-coreanas na fila dos alimentos | Foto: Barbara Demick
Norte-coreanas na fila dos alimentos | Foto: Barbara Demick

Há política, mas sempre sob o olhar dos personagens, que viviam acuados e sem opção, a não ser obedecer aos ditadores e ao culto a eles. As situações beiram o absurdo, a fome comove.

Ao contrário de Hersey, Demick não precisou voltar tanto tempo depois aos personagens. Seus destinos já estavam traçados quando ela iniciou a reportagem – ela era correspondente do jornal em Seul na época em que começou a trabalhar no livro.

No momento em que as eleições na Coreia do Norte registram 100% de comparecimento às urnas, com 100% dos votos no regime ditatorial, o livro de Barbara Demick ajuda a entender não só os números, mas um país que vive em outra dimensão.

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“A Coreia do Norte inspira a paródia. Rimos dos excessos da propaganda e da credulidade do povo. Mas é preciso levar em conta que sua doutrinação começou na infância, durante as catorze horas por dia passadas nas creches das fábricas; que, pelos quinze anos subsequentes, cada canção, cada filme, cada jornal, cada artigo e cartaz eram concebidos para deificar Kim Il-sung; que o país era hermeticamente fechado para deixar de fora qualquer coisa que pudesse lançar alguma dúvida quanto à divindade de Kim Il-sung. Quem teria condições de resistir?”

“O Programa Mundial de Alimentos, que tem a maior presença na Coreia do Norte entre as várias agências de ajuda, faz uma avaliação sombria da situação econômica ali. Uma pesquisa em 250 lares norte-coreanos, realizada no verão de 2008, constatou que dois terços deles ainda complementavam sua alimentação colhendo matos e ervas no campo. A maioria dos adultos não almoçava por falta de comida. Quando indagados sobre onde obteriam sua próxima refeição, os entrevistados respondiam que não sabiam ou ofereciam respostas vagas, como ‘Espero que meus parentes que vivem numa fazenda cooperativa me entreguem algumas batatas esta noite.”

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Sinapses

  • “Hiroshima” (Companhia das Letras), de John Hersey
  • “Pyongyang – Uma Viagem à Coreia do Norte” (Zarabatana), de Guy Deslile
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