Colaboração, Estados Unidos, Ficção, Reportagem

O fabulista da sarjeta – 20 anos sem Bukowski

Faz exatos 20 anos que li Charles Bukowski pela primeira vez. Até aquele momento, meu contato com o universo do escritor tinha sido pelo cinema. Primeiro, com “Crônica de um Amor Louco”, do italiano Marco Ferreri e de uma Ornella Muti belíssima. Depois, com “Barfly”, um filme que talvez mereça uma revisão.

Ben Gazzara e Ornella Muti em cena de "Crônica de um Amor Louco"
Ben Gazzara e Ornella Muti em cena de “Crônica de um Amor Louco”

Comecei a ler Bukowski tarde, aos 24 anos. Se tivesse lido aos 17, o efeito certamente seria outro. De qualquer forma, seus livros foram impactantes naquele momento.

Fui intimado a ler Bukowski pelo amigo Paulo Sales, autor do blog Este Lado do Paraíso, companheiro de sala da faculdade de jornalismo e já um leitor iniciado no Velho Safado naquela época. Provavelmente, a leitura foi motivada pela morte do escritor, em 9 de março de 1994.

Ele me emprestou dois livros: “Fabulário Geral do Cotidiano” e “Crônica de um Amor Louco” (ambos, L&PM). Depois, caminhei sozinho. Vieram “Misto Quente”, “Mulheres”, “Hollywood” e basicamente toda a coleção lançada pela editora.

Hoje, não resta mais nenhum exemplar na biblioteca – sobra apenas o e-book “A Mulher Mais Linda da Cidade”, como se tornou aquela “Crônica de um Amor Louco”. Foram todos em alguma das varreduras que minha coleção sofreu.

Sim, porque em algum momento sua obra me cansou. Achei que não me provocava mais. Se eu tivesse lido Bukowski com 17, talvez seus livros ainda estivessem comigo, protegidos pela memória afetiva.

O jornalista Thiago Pereira escreveu uma reportagem para “O Tempo” sobre os 20 anos da morte de Bukowski. Mais do que lembrar a efeméride, o texto tenta analisar a influência do escritor nestes tempos em que ser porralouca e achar que é brilhante se tornaram mercadorias abundantes.

*****

Por Thiago Pereira

Não tem jeito: todas as vezes que alguém usa o santo nome de Charles Bukowski em vão – principalmente blogueiros e jovens escritores que depois de duas cervejas se veem como espelho do escritor –, o próprio, lá do inferno (porque tem open bar), vomita mais uma dose. Exatos 20 anos após sua morte (9 de março de 1994), a sombra do homem permanece.

“Tem uma questão no Brasil que é comum: a confusão entre admiração e influência”, diz o poeta Ricardo Aleixo. “Isso acontece também com Leminski. Uma coisa é você gostar e se apropriar de algum procedimento, tema. A influência tem mais a ver com a organicidade dos processos, com o entendimento dos motivos que levaram o escritor a adotar aquele caminho. E aí você vai daquele trecho para frente, quando o sensato é verificar as rotas daquele autor e fazer as suas”, diz.

Talvez se possa afirmar que o grande apelo da obra do Velho Safado seja seu caráter realista e extremamente biográfico. Ele mesmo afirmava que 93% de sua obra eram escritos autobiográficos; os 7% restantes também eram sobre sua vida, mas “melhorada”. A suposta falta de edição, o tecido literário construído a partir do próprio ego e de um universo cotidiano, singular: tudo isso é farto material para cópias e tentativas desajeitadas.

“É perigoso ler Bukowski e mais perigoso ainda interpretá-lo de forma errada. Parece fácil, mas não é: trata-se de um grande poeta, crítico, ácido”, diz o poeta Wilmar Silva. “Ele não apenas colhia a fala cotidiana, ele transformava-a. Criou uma série de discípulos de gesso, poetas medíocres. No caso dele, era muito importante uma experiência de vida associada à linguagem. Ele realmente esteve lá, com a pobreza, no cotidiano amargo da América. Ao contrário de muito da poesia marginal, por exemplo no Brasil, que eram playboys da zona sul fazendo poesia panfletária. Bukowski não era panfletário: ele viveu tudo aquilo que narrou de forma objetiva, mas, antes de ser objetivo, ele buscou a totalidade do ser, a experiência de vida. É isso que vai determinar sua obra, sua forma de viver, e não os exercícios de linguagem.”

Charles Bukowski, com o perdão do clichê, não narrou a sarjeta: ele viveu nela, ele era a sarjeta.

Charles_BukowskiComo definiu o pensador pós-moderno norte-americano David James, a obra de Bukowski trata de “uma enunciação resolutamente vulgar, a recusa em construir o verso como uma unidade métrica ou conceitual, e um repertório restrito de atividades banais (beber, vomitar, apostar, mijar) praticadas num terreno similarmente limitado de apartamentos de estuque e ruas que vão da pista de corrida às lojas de bebidas, produziram um modelo plenamente articulado de poiesis disponível para uso geral. Podemos pensar nela como uma produção pública, uma inevitabilidade social que ele captou e esclareceu”.

A procissão de poucos e bons que seguiram ou tiveram alguma intimidade com o escritor mostra que ele era mesmo para poucos. Bukowski era sócio único de um clube que deixou muitos seguidores, mas poucos, pouquíssimos passariam pela portaria, aprovados pelo escritor, fiel leão de chácara de suas convicções.

Como informa a ótima biografia escrita por Howard Sounes (“Vida e Loucuras de um Velho Safado”, Conrad), Buk não gostava de quase ninguém: dos acadêmicos, dos políticos, dos editores de livros, dos hippies. Geralmente, eram párias sociais, críticos e loucos, famosos ou não, que dividiram a mesa com ele, de Robert Crumb a Harry Dean Stanton aos então iniciantes (e problemáticos) Sean Penn e Mickey Rourke.

Sua exclusividade não foi maquiada: a figura do escritor era feia, pele oleosa e marcada pela acne, nariz inchado de bebida, barba e cabelos em eterno desalinho. Um desastre social que fez da América (para onde foi depois da guerra na Alemanha, onde nasceu) seu puteiro e boteco particular.

Entre uma dose e outra, processou uma das literaturas, em prosa e poesia, mais instigantes e singulares do século passado. Foi herdeiro pobre e sem o glamour de Henry Miller, fruto legítimo das misérias ianques narradas por John Fante, um Hemingway com humor.

E isso de alguma forma atraí muita gente. “Por mais que critiquemos a aura romântica atribuída a um determinado escritor, acho válido. Porque isso significa possibilidade de resistência, diante do mercado, do consumo. A imagem que Bukowski passa é de alguém ligado aos prazeres da vida, o sexo, a bebida, o cigarro. Isso, em um mundo que caminha para o conservadorismo mais extremo, ganha o peso da dissidência”, acredita Ricardo Aleixo.

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Charles Bukowski nasceu em 16 de agosto de 1920, na Alemanha. Mudou-se para os Estados Unidos aos 3 anos. Morou em Los Angeles, cidade que fez parte do seu fabulário. Publicou o primeiro conto aos 24 anos. Apesar de nunca ter feito parte do movimento beat, sempre foi associado a Jack Kerouac e Allen Ginsberg.

Publicou mais de 45 livros, entre contos, romances e poesia. Morreu de pneumonia enquanto fazia tratamento de leucemia.

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2 thoughts on “O fabulista da sarjeta – 20 anos sem Bukowski”

  1. Nem lembrava de ter lhe emprestado esses livros. Ainda estão comigo, junto com todos os outros do velho Buk. Mas o que você escreveu faz sentido. Não leio mais seus livros, e se os mantenho e ainda possuo um pôster dele na parede (junto com outros ídolos de juventude ou maturidade) é porque foi muito importante na minha formação. E ainda acho Misto Quente e Factotum dois grandes romances. Bukowski escrevia diálogos maravilhosamente bem, daí às vezes folhear seus livros durante uma limpeza da estante ou quando me vem à mente um conto ou trecho específico. O mesmo acontece com Kerouac. Ficou lá atrás no tempo, mas o carinho e a gratidão permanecem.
    Quanto aos filmes, meu Deus, Ornella Muti era uma coisa de destroçar um casamento em segundos. E o poema que Gazzara/Bukowski recita ao final é das coisas mais lindas que já ouvi. Barfly eu não gosto, assim como Factotum. Mostram homens bêbados, não um gênio bêbado.

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    1. A cena da praia com ele ajoelhado é tocante.
      Bukowski não fez parte da minha formação como fez da sua. Talvez eu pudesse ter sido mais condescendente com ele. Mas acredito que sua obra está mais acomodada circulando do que aqui em casa.

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