Colaboração, Crônica

Os livros que somos

Por Paulo Sales

Acabo de ler o texto publicado neste blog sobre os dez melhores “amigos” de Freud: obras que ele considerava essenciais e que de certa forma amplificaram sua visão de mundo. E lembrei de minha própria (e evidentemente muito mais modesta) lista de dez “amigos”, que o próprio Ricardo me encomendou outro dia, através de uma brincadeira no Facebook. Relação que evidencia acima de tudo uma erudição incompleta, entremeada por lacunas imperdoáveis, como o próprio Freud. Mas uma relação que, por outro lado, revela muito da pessoa que fui me tornando no decorrer das décadas. São obras lidas desde os 15 anos, como “Cem Anos de Solidão”, até bem recentemente, caso de “Conversa no Catedral”. Curioso que ontem mesmo busquei essa lista para passar a um amigo que me havia pedido indicações de leitura. E que ao analisá-la com calma, percebi que não faria muito sentido passá-la adiante. Para isso, teriam que ir a tiracolo, como brindes indesejados, todas as experiências, percepções, sentimentos e descobertas que me levaram até todos aqueles livros que venero.

Os livros, sem ordem precisa de preferência, são: “O Sol Também se Levanta” (Ernest Hemingway), “24 Contos de F. Scott Fitzgerald” (do próprio), “Cem Anos de Solidão” (Gabriel García Márquez), “On the Road” (Jack Kerouac), “Conversa no Catedral” (Mario Vargas Llosa), “A Idade da Razão” (Jean-Paul Sartre), “Grande Sertão: Veredas” (Guimarães Rosa), “Misto Quente” (Charles Bukowski), “A Leste do Éden” (John Steinbeck) e “Patrimônio” (Philip Roth). Com exceção do único brasileiro da lista, que foi uma escolha mais “técnica” e menos afetiva, todos os outros estão impregnados maciçamente de memória, de reminiscências que abarcam períodos mais ou menos marcantes da minha vida. García Márquez marca o fim definitivo da infância. Kerouac representa para mim a liberdade avassaladora de uma juventude que durou menos do que gostaria, assim como Bukowski faz parte desse período de rebeldia estética e comportamental que vai dos 17 aos 20 e tantos anos. Steinbeck é outra leitura de adolescência, pela qual nutro um carinho infinito.

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Ernest Hemingway revisa um de seus livros | Foto: Robert Capa

Hemingway, Fitzgerald e Sartre me levaram à vida adulta, ao hedonismo sofisticado e à inadequação a um estado de coisas que não compreendia e que custei a digerir. O caso de “O Sol Também se Levanta” é emblemático, já que foi lido pela primeira vez aos 20 anos e não despertou mais do que ligeira indiferença. Aos 30, fez toda a diferença. Já o romance memorialístico de Roth me apresentou a sentimentos mais dolorosos, que incluem a perda do pai com quem tive uma relação de cumplicidade e silenciosa harmonia. Por fim, Vargas Llosa me trouxe, de forma enviesada e estilisticamente brilhante, a volta da juventude e a identificação imediata com seu personagem principal.

Dito tudo isso, como passar para outra pessoa uma lista tão, digamos, “autobiográfica”? Sou eu que estou estampado naquelas capas, muitas delas puídas pelo tempo e o manuseio. Minhas veias se enroscam por todas aquelas entrelinhas, trazendo de volta os anos de formação que ainda não acabaram. Mas talvez o verdadeiro valor dessas listas (a despeito da qualidade duvidosa de alguns títulos) esteja justamente no mosaico que formam de uma época. Reunidas, como fizemos com a brincadeira no Facebook, elas dizem muito sobre o tempo em que vivemos, sobre os amigos que escolhemos e, principalmente, sobre a nossa trajetória sem sentido pela Terra. Bem ou mal, somos o microcosmo de um universo em extinção, solapado pela banalidade.

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Paulo Sales é jornalista, baiano, flamenguista, amigo deste blog e autor do blog Este Lado do Paraíso, que se dedica ultimamente a fazer ótimas reflexões sobre a vida

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