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Dos arquivos: A lista de Freud

No sábado (22/2), a “Folha” publicou uma reportagem sobre o livro “Freud com os Escritores” (Três Estrelas), de J.B. Pontalis e Edmundo Gómez Mango. Trata da relação da literatura com o psicanalista. Cita Goethe, Dostoiévski, Shakepeare, entre outros, como fonte de inspiração para as teorias de Sigmund Freud.

ArquivoExibirO que a “Folha” esqueceu é que há 11 anos o embaixador Sergio Paulo Rouanet lançou um livro sobre esse mesmo tema, baseado na correspondência do psicanalista. Chamado de “Os Dez Bons Amigos de Freud” (Companhia das Letras), o livro é dividido em dois volumes (um total de 864 páginas) e trata de uma lista encomendada a Freud. O editor Hugo Heller queria uma relação com “dez bons livros”.

Bem, Freud navegou à vontade nessa proposta. Entrevistei em 2003, na época do lançamento dos dois volumes, o imortal Rouanet, para uma reportagem do jornal “O Tempo”.

A “Folha” não cita em nenhum momento da sua reportagem esse livro, como complemento à leitura do título da Três Estrelas. Pena.

Para compensar, publico o texto com Rouanet a seguir.

*****

“Normalmente, o professor Sigmund Freud começava sua rotina às oito da manhã. Só interrompia suas atividades para o almoço, e voltava a trabalhar até o cair da noite. Era quando jantava. Depois saía com sua mulher ou uma de suas filhas, em caminhada que frequentemente terminava num café, onde lia os jornais. Era entre o período em que voltava para casa e a hora em que ia dormir, por volta de uma da manhã, que ele punha em dia uma correspondência que estava ficando cada vez mais volumosa.”

O que seria a descrição banal de um dia de qualquer pessoa se torna um ponto de inquestionável interesse e curiosidade. Esse era o dia típico do pai da psicanálise. O parágrafo abre “Os Dez Amigos de Freud” (Companhia das Letras), livro lançado pelo imortal Sergio Paulo Rouanet.

O que Rouanet propõe é tentar interpretar uma lista preparada por Freud em 1906. Entre as tais correspondências acumuladas, estava uma carta do editor vienense Hugo Heller. Solicitava uma relação com “dez bons livros”. Foi a deixa para Freud criar uma tese sobre a indicação. Analisou o pedido, interpretou o adjetivo bom e enviou dez livros que surpreendem (“me vieram à mente sem muita reflexão”, escreve Freud), por relacionar autores desconhecidos ou obras menores de escritores consagrados.

Para Freud, dez bons livros significam livros a quem se deve “algo do conhecimento da vida e da concepção do mundo”, como um bom amigo. “Habituado a prestar atenção a pequenos indícios, devo ater-me à formulação literal de sua enigmática pergunta”, responde ao remetente, que era membro da Sociedade das Quartas-Feiras, depois Sociedade Psicanalítica de Viena. Freud destila sua interpretação. Diz que o editor não pediu os dez maiores livros da literatura mundial, os mais significativos tampouco os favoritos, enquanto enumerava nomes como Homero, Goethe, Shakespeare, Milton, Darwin e Copérnico. “A meu ver, seu texto põe um acento especial na palavra ‘bons’”, era o psicanalista em ação.

“Freud criou uma lista estimulado por uma ‘força superior’, como ele justifica os nomes a Heller. Coloca um plano de alusões que pediam para serem interpretadas”, diz Rouanet, que trabalhou por dez anos no livro, entre a pesquisa e o ponto final. “Por conta do meu trabalho diplomático, tive que interromper várias vezes e escrever de forma pausada. Mas ao mesmo tempo a diplomacia me proporcionou oportunidades de visitas a museus que foram fundamentais na pesquisa.”

Pesquisa que se mostra reinante no livro. O nível de detalhismo corresponde à necessidade fundamental num título que pretende analisar Freud. Rouanet teve acesso, no Museu de Freud, em Londres, às obras citadas na lista que eram do psicanalista. “Pude ler as marcações de próprio punho nas margens dos livros.”

sérgio-paulo-rouanetRouanet dedica aos dez amigos capítulos individuais divididos em três partes: uma pequena biografia do autor, a importância do escritor no pensamento de Freud e a análise de cada título. Termina por refletir sobre os “amigos” na cena cultural de Viena da virada do século, na psicanálise e na vida de Freud, quando lança mão da ficção para imaginar a cabeça do pensador.

Para entender as motivações, utilizou a psicanálise. A teoria diz que as memórias são fundamentais para a análise, e a véspera se torna ponto importante na interpretação. Freud lia diariamente o “Neue Freie Presse” (“Era o jornal do público liberal, a burguesia judaica da época, era sério e bem documentado.”). Rouanet conseguiu uma cópia do microfilme da edição de 1º de novembro no Museu de Viena – a data em que Freud leu a carta de Heller. Todo escrito em gótico, o jornal foi lido e analisado por inteiro, inclusive anúncios. E produziu um achado, a pseudoficção que encerra a obra, espécie de exercício de imaginação para traduzir o que seria o pensamento de Freud naquela noite. “O texto foi impulsionado pela necessidade que Freud criou de as pessoas interpretarem a lista.”

A leitura era permanente para Freud. “Ele era um leitor voraz, lia de tudo, da alta literatura à literatura de entretenimento, como Agatha Christie”, conta o embaixador, ressoando uma palestra de dez anos atrás reproduzida em “A Formação Cultural de Freud” (Imago), em que defendeu que a literatura tem importância central na obra do psicanalista. O que disse Freud: “O terreno explorado é o mesmo, mas por caminhos diferentes”, ao sustentar que a psicanálise foi antecipada pelos grandes escritores.

Harold Bloom não consegue separar os escritos culturais dos científicos e diz que Freud “é um gênio da expressão e profeta que denunciou o declínio cultural”. Em seu “Gênios” (Objetiva), o ensaísta norte-americano resgata uma citação de Freud: “Inventei a psicanálise porque não tinha literatura”. E Rouanet ampara. “Ele considerava os escritores aliados, tinha uma relação positiva.”

E Freud conseguiria eleger dez autores contemporâneos? “Ele tinha um gosto clássico, por escritores do século 19, como Zola e Dostoiévski. Mas não tinha nenhuma afinidade com a vanguarda, ele não teria ficado entusiasmado com a tarefa. Duvido que teria lido Proust e Joyce, é inconcebível imaginar a leitura de ‘Ulisses’ e ‘Finnegan´s Wake’”, diz o diplomata.

E se Rouanet encarnasse um Hugo Heller atual?. “O que o senhor pediria a Freud para eleger hoje, diante de toda a herança cultural e da overdose de informação e tecnologia?” O embaixador ri. “Sua pergunta é interessante. Não sei, talvez pedisse uma lista intermídia, com dois bons livros, dois filmes, duas peças de teatro e dois discos. Mas acho que ele não resistiria às obras da sua época.”

Depois de realizar o trabalho que o “fascinou por abranger várias áreas, num panorama interdisciplinar, com ponto de partida muito rico”, Rouanet, aposentado, viaja pelo Brasil para divulgá-lo e palestrar. Quer aproveitar a “disponibilidade mental” para reler – antes de começar a entrevista, estava com “Um Começo na Vida”, de Balzac, de quem é devoto –, colocar a leitura em dia – elogiou os trabalhos de Moacyr Scliar e João Almino – e engatar nova tarefa: os lançamentos de “Interrogações” (Tempos Brasileiros) e “Ideias” (Unimarco), coletânea de artigos para o “Jornal do Brasil”.

sigmund-freud

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Os dez bons amigos de Freud (os títulos foram traduzidos por Rouanet)

  • Multatuli – “Cartas e Obras” (importado)
  • Rudyard Kipling – “O Livro de Jângal” (Martin Claret)
  • Anatole France – “Sobre a Pedra Branca” (importado)
  • Émile Zola – “Fecundidade” (importado)
  • Dmitri Sergeievich Merejkovski – “Leonardo da Vinci” (importado)
  • Gottfried Keller – “A Gente de Seldwyla” (importado)
  • Conrad Ferdinand Meyer – “Os Últimos Dias de Hutten” (importado)
  • Thomas B. Macauley – “Ensaios” (importado)
  • Theodor Gomperz – “Pensadores Gregos” (Ícone Editora)
  • Mark Twain – “Esboços” (importado)
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