Comentário, Portugal, Relatos de viagem

As viagens que vêm de Portugal

Uma das editoras mais interessantes no Brasil hoje é a Tinta-da-China. Recém-chegada de Portugal, a casa editorial já colocou nas prateleiras títulos que valem a leitura e que dão uma sacudida na linha de lançamentos brasileiros.

Uma busca no site português revela uma editora com olhar atento ao jornalismo e ao relato de viagem. No Brasil, até fevereiro, foram dez livros lançados.

As edições são cuidadosas, com capa dura, muito semelhante a um caderno.

Li dois títulos lançados no Brasil: “Viva México”, da jornalista Alexandra Lucas Coelho, e “O Murmúrio do Mundo”, do escritor Almeida Faria, ambos portugueses.

VIVA MexicoOs livros apresentam versões dos seus autores para o relato de viagem. Em comum, uma avaliação da herança europeia nos países colonizados.

Alexandra é uma jornalista das mais talentosas – já havia lido seu “Caderno Afegão” (Tinta Negra), uma bela reportagem; para contar a história da revolução egípcia, tirou férias e foi para a praça Tahrir cobrir os dias tensos no Cairo, que se tornou “Tahrir – Os Dias da Revolução no Egito” (Língua Geral). Este seu “Viva México” traz a jornalista desvendando o país latino por meio de seus personagens e pessoas comuns, lendas e fatos.

Ela é uma observadora rigorosa, que transmite para as letras o que seus olhos pescam. A viagem é um passeio histórico, contado por quem hoje vive o México. E Alexandra, sem preconceitos, viaja de norte a sul para traçar o perfil do país.

42143357Já Almeida Faria vai à Índia e entrega um livro mais lúdico. Autor de romances elogiados como “A Paixão” e “O Conquistador” (ambos Rocco e fora de catálogo), Faria faz da viagem ao país oriental um retorno a Portugal dos quinhentos.

Ele lança em meio ao seu relato trechos de livros de Fernando Pessoa, Nietzsche, Gil Vicente, Hegel, Bergman, Coetzee, Conrad, São Francisco de Assis, Borges, entre outros, além de textos escritos nos séculos 16 e 17.

Ele visita lugares históricos para Índia e Portugal, busca conhecer as tradições locais e tenta identificar as heranças portuguesas na cultura indiana.

É um texto mais subjetivo, em oposição à clareza de Alexandra. Ambas sublimes em suas propostas, são leituras saborosas, daquelas que fazem o leitor se desligar e mergulhar nas páginas.

*****

“Suspeito, sem nenhum fundamento, que em certos lugares somos assaltados de modo enigmático pelo difuso pulsar de existências passadas, pela memória acumulada daqueles que antes de nós ali passaram”

(“Murmúrio do Mundo”)

“O México dá vontade de chorar, um choro de séculos em que não percebemos porque choramos, se somos nós que choramos, se não seremos nós já eles. Nunca, em lugar algum, me pareceu que tudo coexiste, tempos e espaços, cimento e natureza, homens e animais, até aceitarmos que o nosso próprio corpo faz parte daquela amálgama acre, ligeiramente ácida, de pele suada com muito chile.
Octavio Paz descreve os mexicanos como o mais solitário dos povos, perpetuamente incapaz de transpor e ser transposto. Por isso, e por tudo e por anda, existe a fiesta. É uma necessidade orgânica, a descarga.”

(“Viva México”)

*****

Editoras que navegam à margem das grandes estão mostrando bons trabalhos, tanto em edição como na montagem de catálogo. Além da Tinta-da-China, A Bolha, Edições Ideal, Darkside, entre outras, merecem atenção pelo trabalho muitas vezes artesanal, de pesquisa cirúrgica.

O blog vai acompanhar com atenção os lançamentos dessas editoras.

Sinapse

  • “Nove Vidas” (Companhia das Letras), de William Dalrymple
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3 thoughts on “As viagens que vêm de Portugal”

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