Brasil, Entrevista, Não ficção

Lucas Figueiredo: “Por que o período Collor só merece meia dúzia de livros?”

Os ingredientes estão todos lá. Um presidente exibicionista, que anda de jet ski, jato, Ferrari, dá golpes de caratê, flerta com a cunhada, mora numa mansão cafona e cai do cargo acusado de corrupção. O tesoureiro é acusado de desviar milhões de dólares. Há drogas, máfia italiana, traição entre irmãos, mortes, protestos nas ruas.

Isso daria um filmaço nas mãos de Martin Scorsese. Mas não. Além de não ter se tornado filme em lugar nenhum do mundo, é tudo verdade.

É o retrato da Era Collor (1989-1992), período que culminou no primeiro impeachment no Brasil.

Impress‹oO jornalista Lucas Figueiredo escreveu “Morcegos Negros” (Record) em 2000 não para tratar desse período como um todo, mas para fazer um recorte e investigar o chamado Esquema PC, uma rede de corrupção armada pelo tesoureiro de campanha de Fernando Collor que envolvia empresas nacionais e estrangeiras, bancos, tráfico de drogas, máfia italiana e milhões de dólares.

Em 2013, Figueiredo relançou o livro com um posfácio que atualiza as informações da primeira edição. A volta de Collor à política, o julgamento dos acusados pela morte de PC Farias e sua namorada, o jornalista, vencedor de Prêmio Esso, revira o passado para mostrar a quantas anda um dos maiores esquemas de corrupção já vistos no país.

“Muita gente me perguntava o que tinha acontecido com os personagens. Ou seja, pediam um livro atualizado. No ano passado, quando aconteceu o julgamento dos réus da morte de PC Farias e Suzana Marcolino, achei que era hora de fazer um posfácio atualizando a obra até os fatos ocorridos em 2013”, diz Figueiredo em entrevista ao blog.

Ele fala sobre corrupção, os mistérios ainda não resolvidos dessa história, biografias e seus trabalhos – Figueiredo prepara a biografia de Tiradentes para a Companhia das Letras, que deve sair em 2015 – e a pouca produção jornalística sobre o período Collor.

Leia a seguir a entrevista com o Figueiredo.

*****

“Morcegos Negros” tem ritmo de thriller. Como você chegou a esse formato?
Como diz o ditado, a arte imita a vida. Imagina uma história que tem como personagens um presidente da República hiperativo, gângster de um poderoso esquema de corrupção, assassinatos misteriosos, mafiosos italianos envolvidos com tráfico de toneladas de cocaína, garotas de programa, polícia corruptos… Tudo isso aconteceu de verdade. Então, o melhor jeito de contar essa história é na forma de um thriller. Porém sem recorrer à ficção.

Quando você planejou a reedição de “Morcegos Negros”?
O livro foi publicado originalmente no ano 2000. Foi muito bem recebido, vendendo 35 mil exemplares. Nos anos seguintes, muita gente me perguntava o que tinha acontecido com os personagens. Ou seja, pediam um livro atualizado. No ano passado, quando aconteceu o julgamento dos réus da morte de PC Farias e Suzana Marcolino, achei que era hora de fazer um posfácio atualizando a obra até os fatos ocorridos em 2013. Nessa nova versão, estão o julgamento da morte de PC, que terminou sem condenados, a volta política de Collor, revelações sobre o destino do dinheiro do Esquema PC.

Como você vê o Brasil atual, do posfácio da nova edição, e o Brasil da época do lançamento de “Morcegos Negros”?
Melhorou, não ainda o bastante, mas melhorou. Há hoje mecanismos mais apurados de combate à corrupção, há mais transparência para vigiar o uso do dinheiro público e a Justiça já começa a condenar tubarões do Executivo, Legislativo e do próprio Judiciário, um passo inimaginável há alguns anos. Mas é preciso ficar atento e forte, como diz o poeta. A sociedade precisa cobrar mais.

Você acredita que o livro ganhou uma importância maior devido ao mensalão e aos protestos de junho?
Acho que o livro reflete o mesmo “Brasil absurdo” que vem sendo contestado nas ruas. Em relação ao mensalão, a matriz é a mesma da corrupção no governo Collor. Portanto há sim um link entre os fatos ocorridos nos anos 1990 e os fatos ocorridos mais recentemente.

O que falta ser contado? O que ainda segue misterioso?
Muita coisa. Mas duas se sobressaem: quem matou PC Farias e onde foi parar a sobra de dinheiro do Esquema PC – estamos falando de dezenas ou talvez centenas de milhões de dólares.

Por que a Era Collor permanece como um tabu na vida brasileira? Por exemplo, não foi feito nenhum filme sobre esse tema. Os acontecimentos são hollywoodianos – o presidente jovem, a cunhada bonita, drogas, a pose exibicionista, PC Farias, a traição familiar.
Já fui sondado algumas vezes para vender os direitos autorais de “Morcegos Negros” para o cinema. Acho que um dia essa história vira filme, sim, até mesmo porque, como você mesmo nota, ela é por demais cinematográfica para ser desprezada.

Você avalia que o período foi devidamente explorado pelos jornalistas?
Não. No Brasil, produz-se muito pouca não-ficção em formato de livro ou até mesmo em documentário para cinema e TV. Primeiro, porque a pesquisa é demorada e cara e requer que os envolvidos assumam alguns riscos (jurídicos e pessoais). Se você vai aos Estados Unidos  e entra numa livraria, encontra dezenas de livros sobre o assassinado do presidente Kennedy. Por que então o período Collor só merece meia dúzia de livros?

lucasEm “Boa Ventura!”, você mudou seu foco. De temas contemporâneos, você foi ao Brasil colonial. O que o levou a essa migração?
Não foi programado. Em 2007, quando ainda trabalhava como repórter, recebi um desafio da direção do jornal em que trabalhava: descobrir o que havia acontecido com o ouro retirado do Brasil no século 18. A pauta era difícil, mas fascinante. Fiquei seis meses por conta da pesquisa, fui a Portugal, França, Inglaterra e ao Benin atrás das pistas. Acabei ganhando um Prêmio Esso com esse trabalho. Mas, quando tudo terminou, não quis parar a pesquisa. Pedi demissão do jornal e trabalhei mais dois anos exclusivamente na pesquisa. No meio do caminho, Laurentino Gomes lançou “1808” e foi um grande sucesso. Vi que havia um interesse grande no público leitor pela história do Brasil, o que reforçou a certeza de que a pesquisa valia a pena.

É possível comparar esses dois Brasis?
Sim. Em “Boa Ventura!”, eu revelo um Brasil de 300 anos atrás contaminado pela ganância, pela corrupção, pela má administração pública, pelo mal-uso dos recursos do Tesouro. É ou não é a cara do que acontece ainda hoje?

Você trabalha agora na biografia de Tiradentes. Como está o livro?
A Companhia das Letras me deu condições para me dedicar full time ao livro. A pesquisa está avançada, mas ainda vou atrás de arquivos em Portugal e na França. Cada descoberta é uma vitória suada. Em 2015, provavelmente ainda no primeiro semestre, o livro estará nas livrarias.

Como você avalia a polêmica das biografias não autorizadas?
É inadmissível a tentativa de perpetuar e ampliar os horrendos mecanismos jurídicos que permitem a censura prévia. E falo isso não porque queira ler a biografia de Chico Buarque ou Roberto Carlos, mas porque quero ler (e continuar a contar) a história de corruptos, torturadores e criminosos como os que aparecem nos meus livros. Meia dúzia de artistas não têm direito de impedir isso.

Há planos de reedições de seus outros livros? O fim da Comissão da Verdade, previsto para o meio do ano, pode levar a uma atualização de “Olho por Olho”?
Já trabalho numa edição atualizada de “Ministério do Silêncio – A História do Serviço Secreto Brasileiro de Washington Luís a Lula (1927-2005)”. Uma nova edição de “Olho por olho” também é possível. E também de “O Operador”, pois em breve o Brasil vai conhecer a história do mensalão do PSDB mineiro, que está contada no meu livro.

*****

Lucas Figueiredo, além de “Morcegos Negros”, lançou também “Ministério do Silêncio”, reportagem sobre o serviço secreto brasileiro, “Olho por Olho”, a história de dois livros sobre as vítimas da ditadura (“Brasil: Nunca Mais” e “Orvil”), “O Operador”, investigação sobre Marcos Valério, e “Boa Ventura!”, reportagem histórica que traça o destino do ouro explorado no Brasil colônia. Todos saíram pela Record.

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5 thoughts on “Lucas Figueiredo: “Por que o período Collor só merece meia dúzia de livros?””

  1. O Sr. Lucas é um grande escritor por que sabe jogar bem com as palavras, e as palavras,muita vez, são usadas para esconder ou revelar o que realmente se pensa em dado momento.Tantos escritores como espiões vivem em verdadeira simbiose quase como um parasita um do outro.Nunca vai mudar.

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