Colaboração, Reportagem

Em BH, as livrarias estão nas ruas

Belo Horizonte não tem, entre as megalivrarias, as melhores. Aquelas que fornecem quantidades gigantescas de best-sellers e títulos, digamos, mais afeitos à alta literatura, com bom acervo. Como Livraria Cultura, Travessa ou da Vila. A Saraiva é uma esquina apertada em um shopping. A Leitura, cadeia de livrarias forte em Minas Gerais, é mais uma papelaria do que uma livraria. E a Fnac há muito tempo desistiu de vender livros.

Mas quem mora em BH tem algo muito melhor do que essas gigantes. São as livrarias de rua, ainda que não em quantidade, mas que atendem ao mercado com qualidade e oferta de títulos.

Em uma rua da Savassi, região de bares, restaurantes e comércio de BH, o leitor e o curioso encontram três livrarias e dois sebos, todos de qualidade inquestionável. Cruzando uma avenida, encontra outra livraria. São espaços pequenos se comparados aos dos supermercados de livros. Mas o leitor vai encontrar diálogo, uma oferta de títulos direcionada ao público frequentador e um espaço em que é possível falar de livros sem academicismo.

Esse é só um exemplo. Há pequenas livrarias até em shopping, caso da Canto do Livro, localizada num centro comercial de decoração – muito boa livraria, apesar da bagunça. Há outras, inclusive do coletivo, em outros bairros. É revigorante perceber esses espaços em uma grande cidade.

O blog já recolheu diversas sugestões de vendedores e trouxe para a cabeceira. Já passou boas tardes percorrendo esse corredor. Essas livrarias criaram então o coletivo Livrarias de Rua, para não apenas competir, mas também criar condições de reduzir custos e divulgar literatura.

O jornal “O Tempo” publicou reportagem sobre o coletivo, em que discute o mercado e as alternativas das livrarias de rua para combater as grandes e as vendas eletrônicas. O texto segue abaixo.

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Por Carlos Andrei Siquara

Fosse o objetivo das livrarias de rua apenas colocar em circulação os lançamentos nacionais e estrangeiros, todas seriam espaços basicamente iguais. Mas não são. Geralmente mantidas por pessoas que dedicam gosto e atenção especial aos livros, elas assumem características próprias dependendo de quem as coordena. Há aquelas que se debruçam mais sobre um gênero, como a poesia, ou um segmento específico, a exemplo do infantojuvenil.

As possibilidades são, assim, várias, mas em diversos lugares do mundo manter iniciativas como essas vem se tornando uma tarefa cada vez mais difícil.

Em Belo Horizonte, a realidade não é diferente. No fim do ano passado, proprietários das livrarias Quixote, Scriptum, Mineiriana, Ouvidor e Floriano criaram uma associação com o intuito de planejar ações que contribuam para a continuidade das atividades que exercem.

A realização de eventos conjuntos, por exemplo, é uma das práticas já em curso. De acordo com Alencar Perdigão, fundador da Quixote, o foco, neste ano, é consolidar essa proposta, atraindo outros interessados em compartilhar ideias e experiências com o recém-formado coletivo.

“Nós temos hoje, na região da Savassi [na zona centro-sul de Belo Horizonte, região de bares, restaurantes e comércio], várias livrarias que desenham um circuito cultural muito interessante. Constantemente, ouço de pessoas daqui ou de fora que é raro encontrar estrutura semelhante em outras cidades. Queremos, portanto, valorizar esse cenário que aponta um traço cultural de onde vivemos”, observa Alencar.

Com plena consciência de que as livrarias cumprem um papel mais amplo que a comercialização de exemplares, Alencar acrescenta que vem sendo negociada com a prefeitura a possibilidade de se obter concessões para promover mais projetos coletivos em vias públicas. “Essa é uma forma de criar encontros entre as pessoas e os autores”, diz.

Da esq. para dir.: Gabriel Campos, Welbert Belfort, Alencar Perdigão e Tarcísio Ferreira | Foto: Denilton Dias/O Tempo
Da esq. para dir.: Gabriel Campos, Welbert Belfort, Alencar Perdigão e Tarcísio Ferreira | Foto: Denilton Dias/O Tempo

O esforço para ampliar a presença das livrarias tem relação direta com a concorrência de mega-empreendimentos e, mais recentemente, com as próprias editoras. Atualmente, afirma Welbert Belfort, da livraria Scriptum, a venda de livros diretamente por meio dos sites de casas editoriais tem sido um de seus principais obstáculos. Esse é também, hoje, um dos motivos que têm levado livreiros a desistirem de atuar no mercado.

O fato é novo, conta ele, e se compara à chegada de megalivrarias há algumas décadas. “As editoras conseguem colocar um preço menor que o nosso, e isso afeta toda a cadeia. Para nós, é impossível competir com alguns descontos que elas conseguem viabilizar sobre o próprio produto”, diz Welbert.

A falta de uma legislação que regule essas e outras operações, segundo Ednilson Xavier, presidente da Associação Nacional de Livrarias, é uma das principais causas desse problemático contexto. “A editoras perceberam que é possível vender o livro diretamente ao leitor, sem passar pelas livrarias, e isso tem se tornado um hábito. Além disso, o crescimento do volume de editoras, em detrimento da quantidade de livrarias no país, tem aprofundado essa concorrência, que é no mínimo desleal”, afirma  Xavier.

Uma consequência disso, na visão dele, é a redução das livrarias a grandes vitrines, onde o público folheia, conhece os livros, mas deixa de adquirir os títulos ali, em razão da possibilidade de comprá-los a preços menores no próprio site das editoras.

“Disso não escapam nem as grandes redes. Lojas como, por exemplo, a Leitura, em Belo Horizonte, acabam tendo que diversificar a oferta de produtos, abarcando cada vez mais a entrada de aparelhos eletrônicos, dentre outros que não são livros, porque estes já não garantem a sobrevivência do empreendimento”, afirma Xavier.

Difundir a visão das livrarias de rua como um ambiente de convergência cultural é, para Gabriel Campos, sócio da Mineiriana, uma forma de fortalecer vínculos com os leitores. “Nós não somos entregadores de livros. Aqui, as pessoas conseguem dialogar sobre o assunto, participar de bate-papos com autores em lançamentos e em eventos, como já aconteceu durante o Forum.doc BH e na comemoração do Carroll’s Day [encontro que reúne admiradores de Lewis Carroll, autor de ‘Alice no País das Maravilhas’]. Nós prestamos um serviço que preza muito mais pela convivência e pela convergência cultural”, diz Campos.

Para ler a matéria na íntegra, clique aqui. E a reportagem continua no texto “Livrarias assumem papel de espaços de convivência”

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