Brasil, Colaboração, Entrevista, Literatura infantojuvenil

Angela Lago: “As crianças, é claro, também são capazes de refletir”

A escritora Angela Lago concedeu uma entrevista ao jornal “O Tempo” em que fala sobre o futuro da literatura infantil, tecnologia, política e mercado.

Ex-militante, morou no exílio e hoje foca suas obras no folclore. Tem projetos ambiciosos, ancorados na tecnologia dos tablets:  “No ano passado, desenvolvi um projeto que ajuda a ler. A ideia é que a criança, ou mesmo o adulto ainda não alfabetizado, passe o dedo nas palavras e aprenda, ao mesmo tempo, o nome da letra e o significado da palavra, através de imagens e sons”.

O texto segue abaixo.

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Por Lygia Calil

A caminho de Bolonha, onde participa de uma mostra de ilustradores brasileiros na maior feira do mundo dedicada à literatura infantil, a escritora belo-horizontina Angela Lago falou sobre a busca por novos formatos e a pesquisa de produtos digitais voltados às crianças. Além disso, ela recupera memórias da infância no interior do Estado e da juventude marcada pela luta política.

Angela é autora de obras como “A Festa no Céu” (Melhoramentos), “Sete Histórias para Sacudir o Esqueleto” (Cia. das Letrinhas) e “O Cântico dos Cânticos” (CosacNaify). Leia a seguir os principais trechos da entrevista.

Foto: Carlos Avelin
Foto: Carlos Avelin

O Brasil é o homenageado deste ano na Feira de Bolonha, considerado o evento mais importante do mundo no mercado editorial infantil. O que a senhora espera desse evento e da participação dos brasileiros? 


Além de ser tão importante, a feira ainda tem uma particularidade que me interessa muito. Ela olha a literatura infantil muito cuidadosamente, sob o prisma da imagem e da ilustração. Umas das coisas fortes em Bolonha são as exposições de ilustradores, e, neste ano, teremos uma mostra brasileira. Para nós, que estamos nessa lista dos artistas que vão participar, é uma honra grande. Já estive muitas vezes na feira, e dessa vez vai ser especial por isso. É sempre muito interessante, porque dá uma visão completa do que está acontecendo na área, no mercado mundial – muito mais do que a feira de Frankfurt, por exemplo, que é muito ampla e tudo fica mais disperso. Já a de Bolonha é mais aconchegante e dedicada só à literatura infantil.

Diante de eventos como esse, as editoras estrangeiras têm prestado mais atenção ao que é produzido no Brasil? Qual é a sua avaliação do mercado nacional? 


Acho que estamos alcançando uma visibilidade maior. Somos produtores de uma cultura muito interessante e temos muito para mostrar. Sempre recebo convites para publicar fora do país, mas o mercado brasileiro me parece mais vigoroso. Já publiquei no Japão, na Espanha, na França, no México e em vários outros países, mas no Brasil acontece uma coisa que fora não tem. O governo, ao reconhecer a qualidade do material, assume a compra e a doação para escolas e bibliotecas, o que dá ao escritor de literatura infantil mais chances de se profissionalizar, trabalhando apenas com isso. Fico pensando nisso e chego ao Carlos Drummond de Andrade, que a vida toda teve de trabalhar como um burocrata para manter a atividade da poesia. Se, tendo de trabalhar, ele já foi este poeta absurdo, imagina se ele se dedicasse somente à poesia? Na área de literatura infantil, a gente está sendo capaz de viver às custas do mercado editorial, exatamente por causa desse patrocínio do governo. É diferente do que acontece em outras áreas da cultura. Gostaria muito que houvesse essa possibilidade para outros setores – e tomara que haja.

A sua trajetória profissional é marcada pela experimentação de formatos, com um traço inovador sempre presente. O mais atual deles é a pesquisa em novas mídias. Como estão caminhando esses projetos? A senhora percebe alguma tendência do mercado neste sentido?
Sim, isso me interessa muito, e o mercado está apenas iniciando. Ainda usamos pouco outros suportes de leitura. Particularmente, eu uso e gosto muito de ler no tablet, acho confortável. Acredito em uma coisa nova que está para acontecer, mas que não vai mais se chamar livro. Ela será mais próxima do nosso conceito de jogo, porque a narrativa vai se desenvolver a partir da interação com a criança. E esse novo lugar vai se abrir com muito mais possibilidades narrativas, em uma outra experiência. No ano passado, desenvolvi um projeto que ajuda a ler. A ideia é que a criança, ou mesmo o adulto ainda não alfabetizado, passe o dedo nas palavras e aprenda, ao mesmo tempo, o nome da letra e o significado da palavra, através de imagens e sons. Tenho um carinho muito especial por esse projeto, porque ele ajuda, de fato, esse pequeno leitor a ler, sem que tenha necessidade de um professor. Acho que esses suportes vão nos ajudar muito em situações de dificuldade de aprendizado, como, por exemplo, nos casos de crianças disléxicas, que acabam aprendendo muito mais ao usar essas mídias.

O desejo de explorar a oralidade e o folclore nas suas narrativas veio da sua infância? 


Sim. Em Belo Horizonte, temos um pé na área rural, um laço forte com essas tradições. Na fazenda do meu avô, onde passava alguns fins de semana, acompanhava aqueles desafios de cantadores, as histórias de assombração, e tudo aquilo sempre me fascinou. Era maravilhoso. Os versos que eles cantavam me trouxeram um gosto grande pela rima e pela métrica. Tudo isso esteve muito vivo na minha infância. Estou escrevendo um livro chamado “O Príncipe Jacu”, baseado nesse jeito nosso, mineiro, e na nossa identificação com esse herói meio simples, meio simplório, que meio sem querer, quase por acaso, consegue que tudo dê tudo certo no final.

Na sua juventude, durante a década de 1970, o Brasil vivia um momento político tenso, em plena ditadura militar. Como foi passar essa década morando fora do Brasil, em países tão diversos como a Venezuela e a Escócia?
Saí do país para acompanhar meu marido. Para mim foi bom, porque estive protegida desse momento triste. As pessoas viviam com medo, paranoicas. E viver fora do Brasil me permitiu conhecer outras pessoas que estavam exiladas, não só brasileiros. Isso me deu uma visão mais ampla da América Latina, com um sentimento de pertencer não só a um país, mas a um grupo bem maior. E voltamos em um momento muito bonito do Brasil, já na luta pela anistia. Eu já fazia parte do movimento de esquerda enquanto estudante e, ao retornar, me envolvi na luta feminista, que estava começando em Belo Horizonte.

Pela sua vivência, a senhora imprimiu uma verve mais política aos seus trabalhos? É possível falar de política com crianças? E qual a melhor abordagem?
Embora meu tema predileto seja o folclore, acho necessário um olhar sobre a questão social. Tenho alguns livros com essa temática, como “Cena de Rua”, que conta a história de um menino que vende frutas no semáforo. Foi um livro muito importante, muito vendido fora do país e bastante premiado. É impossível não pensar o mundo sob a perspectiva das desigualdades sociais. E é importante que esse se torne um tema sensível às crianças. É óbvio que elas percebem a desigualdade, mas o principal é que elas sejam capazes de criticar o que existe. Qualquer livro, para qualquer idade, tem que denunciar o seu tempo, tem que expôr os problemas sociais. A partir disso, o leitor é quem faz a crítica – e as crianças, é claro, também são capazes de refletir. Só acho que o trabalho para elas não deve necessariamente tomar um caminho partidário.

Para ler a íntegra da entrevista, clique aqui.

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