Brasil, Cinema, Comentário, Crônica, Entrevistas, Obituário

Eduardo Coutinho, 1933-2014

Em 2007, assisti no cinema a “Jogo de Cena”, documentário de Eduardo Coutinho, morto neste domingo. Escrevi um texto sobre o filme, meio crônica, para o blog antigo.

Reproduzo a seguir, uma forma de homenagear o documentarista, sensível ao tratar do humano e um raro observador da vida ao lado.

Para conhecer mais sobre Coutinho, nada melhor do que seus filmes – recomendo “Cabra Marcado para Morrer”, “Edifício Master”, “Jogo de Cena” e “O Fim e o Princípio”. Como este é um blog de livros, há dois especialmente que valem a pena recorrer para lembrar do cineasta.

08112013105026_coutinho01O melhor é o volume organizado por Milton Ohata para a edição da CosacNaify e Mostra de Cinema de São Paulo, “Eduardo Coutinho”, que homenageou os 80 anos do cineasta.

É uma obra-prima. Traz textos escritos pelo diretor sobre cinema para o “Jornal do Brasil”, depoimentos de pessoas que trabalharam com ele – que revelam seu método de trabalho – e uma fortuna crítica memorável assinada por 27 críticos sobre seus filmes.

Recomendadíssimo.

9788579200021_2_O segundo título é uma coletânea de entrevistas de Coutinho, reunidas para a coleção Encontros (Azougue Editorial).

O livro, na abertura, reproduz um texto escrito por Eduardo Coutinho, para o catálogo do Festival do Réel, em 1992. No final, ele crava:

“Só se pode subverter o real, no cinema ou alhures, se se aceita, antes, todo o existente, pelo simples fato de existir.”

*****

Assisti a “Jogo de Cena”. É um dos filmes mais perturbadores que já vi – no bom sentido. Posso estar exagerando, talvez pelo impacto e o fato de ainda estar vivo nos olhos.

O documentário de Eduardo Coutinho, que colocou um anúncio em jornal à procura de mulheres que tivessem histórias de vida para contar, selecionou 23 mulheres e gravou seus depoimentos em um teatro. Apenas ele e elas, uma de cada vez.

Depois, chamou atrizes conhecidas (Andréa Beltrão, Marília Pêra e Fernanda Torres) e desconhecidas, que interpretaram algumas histórias daquelas mulheres. Nada é ficção.

A partir desse ponto é que surge a perturbação. Ouvimos histórias verdadeiras em todos os depoimentos, mesmo que depois se revelem serem interpretados por atrizes. Não importa, o fato era real. Aconteceu com uma mulher, que contou para a câmera.


São histórias trágicas, divertidas, tristes, esperançosas. As mulheres se expõem sem medo ou constrangimento. Coutinho apenas conduz a conversa, não interfere nem explora – o que é o maior mérito da direção. Pois as mulheres dizem o que querem, o que têm vontade. Da forma como querem.

Falam de seus dramas, seus sonhos (em todos os significados), da maternidade, do amor. Uma ficou sem conversar com o pai por oito anos. Uma perdeu o filho jovem. Elas se casaram, se separaram, enterraram o marido, trocaram de marido, namoraram. Uma mulher ficou grávida porque nem sabia como podia engravidar. Outra teve filho porque não deu conta de esperar o efeito do contracepcional. Outra mulher viu o filho morrer na maternidade, horas depois de dar à luz. E teve que ouvir o pai da criança dizer, dias depois, que não queria mais continuar com ela.

Histórias diferentes, que no fundo são iguais. Revelam a mulher, não importa o que ela passou na vida. Revelam a mulher do jeito que ela quis se revelar. Seja no depoimento de uma anônima que respondeu o anúncio do jornal ou na interpretação de uma atriz.

Em alguns momentos, me emocionei com o que via na tela do cinema. Nunca uma mulher fora desvendada de forma tão natural, nas vozes e histórias de tantas mulheres.

Foi um estranho mergulho. Que perturba por ser verdadeiro, mesmo que seja dito por uma atriz. No final, duas cadeiras no palco vazio, o silêncio.

O filme acabou, os créditos subiram, levantei e fui ao banheiro. Entrei no feminino. Ao perceber o erro, saí e topei com uma mulher entrando. Pedi desculpas.

Foto: Aline Arruda
Foto: Aline Arruda
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